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O Ancião e a Senhorinha

A vida de vez em quando prega-nos uns micos, que são simplesmente inevitáveis, sendo impossível desviar-se deles. Seu Moreira durante trinta anos, ele trabalhou numa caldeiraria, existente em sua cidade, mais especificamente no laboratório. Foi seu único emprego, e ali mesmo se aposentou.
Se tem uma pessoa que literalmente, tem vivenciado a síndrome do ninho vazio, esse sujeito com certeza é o Senhor Moreira. O único casal de filhos que ele tinha, quando alcançaram a maioridade, resolveram tentar a vida fora do país. O rapaz era o mais velho, resolveu ir embora para a Inglaterra. Dois anos após a caçula, também alcançou a maioridade, e resolveu seguir o exemplo do irmão, só que resolveu tentar a sua sorte na Austrália. Sua esposa, dois anos depois da partida da caçulinha, contraíra uma pneumonia, para aumentar mais a sua solidão, dentro de seis meses, sua companheira fora passear nos Campos Elísios.
Sua casa de dez cômodos, onde morava com os filhos e a esposa, agora parecia um salão, muito espaço, para pouca gente. Impressão ou não, mais notória tornou-se a soledade. Não demorou muito, o ancião vendeu a sua casa, e agora morava, numa pequena, porém aconchegante quitinete, e desse jeito ia se virando nos trinta.
Ele sempre foi muito introvertido, tímido, sujeito de pouca conversa. Para que algum dia, viesse casar com dona Filomena, foi necessária uma ajudinha do céu. Moreira e Filomena, eram vizinhos, na infância foram criados, praticamente juntos.
Dona Olinda, a mãe de Moreira, e dona Esterlina, a mãe de Filó, nas muitas andanças no rio, para lavarem as suas roupas, aproveitavam esse tempo, para colocar as conversas em dia. Enquanto lavavam suas trouxas, iam externando, tudo aquilo que afligiam seus corações, com isso as duas comadres, ficaram tão amigas, que pareciam carne e unha.
E foi justamente nessas andanças pelo rio, que Moreira, teve seus melhores momentos, ao lado de Filomena. Toda vez que aproximava o horário de vir embora, era com muita tristeza, que o casal de pombinhos retornava para suas casas.
Durante uma década, eles acompanharam suas mães, enquanto elas lavavam suas trouxas de roupas, Moreira ficava ali, rindo, brincando, com sua colombina. A adolescência foi chegando, e com ela também a paixão.
A partir desse momento, Moreira brincava menos com Filó, aproveitava para dialogar com a jovem, e bem discretamente, sem que ela percebesse, uma vez ou outra, dava umas olhadelas, para o par de seios, que começavam a desabrochar na sua adorável ninfeta, era impossível com aquela camiseta molhada, não observá-los.  Agora seus corpos, não eram mais de duas crianças, e sim dois jovens em transição para a maturidade.
Diante de toda timidez, como falar com aquela linda jovem, que ele acabou apaixonando-se por ela. Que aquele sentimento, que outrora, era apenas uma amizade, uma distração de duas crianças, solidificou, e agora o amor viera encher o seu coração.
Com isso, Moreira completou quinze anos, e matriculou no Senai, visando trabalhar na única empresa que tinha na sua cidade. Agora devido as ocupações do cotidiano, o contato que o casal tinha, diminuíra consideravelmente, todavia com todos esses percalços, o amor de Moreira pela jovem, ia aumentando cada vez mais.
O tempo ia passando, mais e mais a apreensão do jovem aumentava, como compartilhar com sua amada, esse amor que parecia que iria explodir dentro de si. Filomena agora estava com 18 anos, tornara-se uma linda mulher, com exuberantes dotes. Ela também, tinha um certo carinho pelo rapazote, no entanto, como nunca ele manifestou nada em sua presença, estava se convencendo, que aquilo que havia entre eles, não passava mesmo de uma bela amizade.
Um belo dia, para decepção de Moreira, ele ficara sabendo, que sua tão amada Filomena, foi pedida em namoro. Aquela notícia, foi como uma flecha, que alvejou seu coração, devido a sua passividade, teria que se conformar agora, sabendo que duas vezes na semana, o seu algoz visitava sua amada. Oh sujeito devagar, nem mesmo diante da presença de um concorrente, de um fura olho, o cabra não criava coragem para confessar para sua amada. Esse sujeito devagar, quase parando, está parecendo com alguém que eu conheço, para competir com ele, só o Bob mesmo, rs.
Filomena noivou, e o Moreira não tomava posição alguma. Sua passividade foi tão grande, que para tristeza completa do jovem, a data de casamento foi marcada, dentro de quatro semanas, no dia 28 de setembro, aquele restinho de esperança, de ainda ter sua Julieta, seria totalmente extirpada.
Lembram que eu tinha falado que o Moreira, teria uma ajudinha do céu, pois foi agora que ela iria acontecer. Todos os padrinhos já estavam na frente da igreja, o noivo de Filomena, cheio de ansiedade esperava impacientemente pela noiva. Quando ela apareceu na porta da igreja, acompanhada do seu pai, a emoção foi tão grande, tão grande, que o noivo teve um infarto fulminante, e a coitadinha da Filó, nem bem casara e já estava viúva. Tristeza para uns, alegria para outros, apesar daquela tragédia, como uma fênix, ressuscitou no coração de Moreira, aquela gota de esperança, que tinha sido extirpada.
Moreira parece que tinha aprendido com o susto, e estava decidido, assim que a poeira baixasse, iria fazer aquilo que durante toda a vida não teve coragem, a sua ousadia de repente, cresceu de tal forma, que ele iria não apenas confessar para sua amada que a amava, como também estava decidido pedi-la em casamento, afinal de contas já havia perdido muito tempo.
 A verdade é, que debaixo de muita tensão, de uma disenteria brava, finalmente criou coragem, e não simplesmente confessou para sua amada, como pediu ao seu pai, sua mão em casamento. Noventa dias após, Moreira, depois de muitos obstáculos, finalmente casaria com sua doce amada Filomena.
Moreira, à medida que o tempo passava, se fechava dentro da sua introspecção. Também não bastasse a síndrome do ninho vazio, seu jeito fechado de ser, outro fator que iria colaborar mais, para que continuasse sempre na companhia de dona Soledade, era o distanciamento que naturalmente acontecia da sociedade, em relação às pessoas idosas. Infelizmente por mais que não admitamos, nessa sociedade ultra individualista, a tendência é sempre isso crescer mais e mais.
Moreira era muito contemplativo, observador, algo que gostava muito de fazer, era ficar sentado na sacada da sua quitinete, observando as pessoas, que na rua transitavam, e ninguém passava despercebido, diante dos seus olhares inquiridores. Lá vai o senhor careca, com sua calosidade imponente, com sua bermuda surrada e sua camisa com três botões abertos na parte inferior, da sua desbotada camisa de brim. Agora é a vez, de um jovem, idade mediana, com seu terno todo engomado, com sua valise ao lado, provavelmente deveria ser algum advogado, que deveria estar iniciando na carreira. Agora era um jovem, que caia na sua inquirição, com certeza deveria ser algum riquinho, corpo mais robusto que os demais, sua pele vitaminada, um rolex no braço. Era impossível não saber diferenciar um rico, de um pobre, ou de uma pessoa classe média. Eles não precisariam ter nem um acessório no corpo, mesmo desnudos, seria fácil distinguir um rico, dos demais. É como água e óleo, não se misturam.
Lembram que iniciei o texto falando dos micos. Pois então, o próprio senhor Moreira, passou por um mico muito grande. Quando ele trabalhava no laboratório, teve um acidente, na sua perna, e a partir de então passou a manquetear, isso só veio, aumentar a sua autocomiseração.
Um belo dia, estava o senhor Moreira, andando pelo calçadão da sua cidade, e num momento de distração, ele tropeçou no seu próprio calcanhar, levando um tombão cinematográfico. Coitadinho do seu Moreira, não sabia onde colocar a cara, de tanta vergonha.
Para aumentar mais o seu opróbrio, surgiu uma senhorinha, devia ter aproximadamente 30 anos, num vestido de seda vermelho, o busto ostentava um lindo colar de pérolas, no dedo, um requintado, anel de brilhantes, sapato alto, os cabelos lisos, pretos até no pescoço, sua pele macia como a seda, mais alva que a neve.
Advinha quem estendeu a mão, para que o coitado do Moreira levantasse? Com certeza, só podia ser essa divindade, esse anjo, que provavelmente do céu fora enviado, para ajudar esse pobre ancião, naquele momento tão vergonhoso. Ela com toda educação, não somente ajudou levantá-lo, como também, ofereceu-lhe um copo d’água, para refazer-se daquela cena tão funesta, coitadinho do Moreira, foi digno de dó, devido a tão grande mico.
Agora toda vez, que ele passava por aquele calçadão, vinha logo na sua mente, aquela situação tão vexatória, todavia em compensação, tornava-se nítida, a imagem daquele anjo, que ali lhe socorrera.
 
 

 
Simplesmente Gilson
Enviado por Simplesmente Gilson em 03/10/2019
Código do texto: T6760582
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Sobre o autor
Simplesmente Gilson
Mucuri - Bahia - Brasil, 56 anos
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