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Precisamos falar

Quando o trem de carga reduziu a velocidade na curva, saímos correndo detrás dos arbustos e subimos à bordo. Henry, que tinha mais experiência do que eu nessa vida de vagabundo, localizou um vagão no meio da composição que parecia adequado para nos escondermos. Era. E, como logo descobrimos, um grupo de pessoas tivera a mesma ideia que nós. Quando deslizamos a porta de correr para o lado, fomos recebidos por vários olhares entre apreensivos e curiosos. Havia ali duas famílias completas (mãe, pai, meia dúzia de crianças, incluindo um bebê de colo), dois velhos, uma mulher magra e precocemente envelhecida acompanhada de um casal de adolescentes, e três garotos, da minha idade e de Henry. O lugar cheirava a fumaça e creosoto.

Henry tocou a aba do boné e nos apresentou:

- Olá! Eu sou Henry, e esse é meu irmão caçula, Mike.

Um coro desafinado de saudações nos acolheu. Henry fechou a porta do vagão e nos acomodamos num dos cantos, junto aos outros três garotos e os dois velhos.

- Para onde esse trem vai? - Perguntou Henry.

- Para onde vocês estão indo? - Indagou um dos velhos, barba grisalha, queimado de sol.

- Para Kalamazoo, Michigan.

- Então serve.

O outro velho, rosto vermelho, nos encarou com curiosidade:

- Estão fugindo de casa, garotos?

- Não senhor - respondeu Henry. - Vamos procurar trabalho em Kalamazoo. Ouvimos falar que estavam contratando para descarregar os vagões de carvão...

- É uma boa aposta - ponderou o homem de rosto vermelho. - Mas temos que saber se conseguiremos passar de Fort Riley.

Fort Riley ficava no Kansas. E, como nos explicaram, corriam histórias sobre as paradas na cidade. Que o lugar era quente como o inferno. Que não havia abrigo. E que os vigilantes da rodovia não eram exatamente amáveis com os vagabundos que viajavam de carona nos trens.

- E o que vocês pretendem fazer? - Indagou Henry.

Todos se entreolharam, confusos.

- Vamos fazer com o quê? - Retrucou a mulher de ar envelhecido.

- E se os vigilantes mandarem todos descer? - Insistiu Henry.

Silêncio. Vendo que ninguém se pronunciava, Henry prosseguiu:

- Os vigilantes não esperam reação. Se mostrarmos que ninguém vai descer, provavelmente irão embora.

Um dos garotos, um grandalhão de cabelo escuro, que devia ter uns 15 anos de idade, pareceu aprovar a ideia.

- Melhor prevenir. Há vagões gôndola cheios de pedras lá atrás... devíamos encher os bolsos de pedras e nos prepararmos para revidar, se os vigilantes tentarem nos tirar à força.

Os dois velhos não pareceram nada animados com a ideia, mas nós, garotos, incluindo os das duas famílias e da mulher sozinha, éramos maioria. Numa rápida confabulação, nos decidimos a acatar a ideia do grandalhão. Fomos saindo do vagão, organizadamente, e indo até as gôndolas, cheios de lastro de ferrovia. Enchemos os bolsos com as pedras e voltamos.

- Ninguém desce - avisou Henry. - E nós vamos ficar em cima dos vagões, prontos para tacar pedra nos vigilantes!

E assim foi feito. O trem parou em Fort Riley, subimos nos vagões e esperamos que os vigilantes aparecessem. Como era de se esperar, eles chegaram batendo nas laterais dos vagões, gritando para que todos descessem. Ninguém se mexeu. Ninguém deu um pio.

Então nos viram, um bando de garotos de pé sobre os vagões, mãos nos bolsos. Não houve qualquer troca de palavras, apenas ficamos nos encarando durante um tempo que pareceu interminável.

Finalmente, o chefe dos vigilantes virou-se para a frente da composição e gritou:

- Toca em frente!

Ainda de pé, relaxamos. Ouviu-se um apito e lentamente, entre rangidos, o trem de carga começou a mover-se novamente.

Somente quando Fort Riley ficou para trás, nos atrevemos a esvaziar os bolsos e voltar para o interior do vagão.

- [24-11-2017]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 24/11/2017
Código do texto: T6181444
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
961 textos (43557 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/01/18 05:36)
Alex Raymundo