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Paris na Primavera

- Mademoiselle!

Ariella parou como que congelada, um pé na calçada, outro ainda apoiado no estribo da bicicleta. Fizera o possível para ignorar o grupo de soldados da Wehrmacht ao passar por eles no caminho de casa. "Olhe através deles, como se fossem transparentes", era o conselho que o pai lhe dera e aos seus irmãos, e ela procurava segui-lo à risca. Nunca encarar os soldados das forças de ocupação; tentar ignorar sua presença. Exceto, claro, quando eles não queriam ser ignorados.

- Mademoiselle!

Ariella olhou para trás, por sobre o ombro. O soldado que a chamara vinha correndo pela calçada, segurando o quepe de um jeito cômico para que não voasse com o vento, algo na outra mão. Seus companheiros, três rapazes tão jovens quanto ele, cerca de 18, 20 anos de idade, aguardavam na esquina, ar de tranquila curiosidade. Não portavam armas. Soldados de folga, avaliou, sentindo a tensão diminuir um pouco. O garoto louro e queimado de sol, num uniforme verde-acinzentado, acercou-se dela sem deixar de sorrir e ergueu o quepe em saudação.

- Desculpe interromper seu passeio... - disse ele num francês sofrível. - Mas deixou cair isso.

E estendeu-lhe uma maçã. Que Ariella sabia que não deixara cair do cesto preso no bagageiro da bicicleta, onde transportava as verduras que acabara de comprar no campo. Mas uma maçã, mesmo vinda das mãos do inimigo, era bem-vinda, num tempo de cupões de racionamento e fome generalizada.

- Merci, monsieur, c'est très gentil de votre part - respondeu, fazendo uma ligeira vênia de cabeça e guardando a fruta no cesto, imaginando o que viria em seguida. Parecendo ler seus pensamentos, o soldado puxou um papel dobrado do bolso do sobretudo e o abriu para mostrá-lo. Era um recorte do "Pariser Zeitung", o jornal publicado em alemão para as tropas do inimigo.

- Estamos tentando chegar à este lugar... - disse ele, exibindo um artigo sobre uma casa noturna frequentada exclusivamente pelos invasores. Embora não soubesse alemão - idioma no qual o diário era redigido - ela identificou o nome do estabelecimento.

- Sim, sei onde fica... não é muito distante daqui. Mais dois ou três quarteirões em frente, seguindo por este lado da rua. Não tem como errar... há mesinhas na calçada e uma grande bandeira com a suástica, num mastro na parede.

Devolveu o recorte ao soldado, que o guardou no bolso, sem tirar os olhos dela.

- Mademoiselle... já lhe disseram que parece alemã?

Ariella sabia que o soldado estava sendo sincero e deu-lhe um sorriso triste. Com seus cachos dourados e sua tez rosada, não era a primeira vez que ouvia isso.

- Muitas vezes, monsieur. Mas isso é impossível...

- Por que, mademoiselle? - Indagou ele, genuinamente intrigado.

- Porque eu sou judia - retrucou ela.

E dando um impulso com o pé que estava sobre a calçada, repôs a bicicleta em movimento.

Atrás dela, enquanto pedalava pela rua varrida pelo vento e beijada pelo sol, apenas silêncio.

-[07-12-2017]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 07/12/2017
Código do texto: T6193143
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
922 textos (42421 leituras)
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Alex Raymundo