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Uma estoria do velho oeste

Uma Estória do Velho Oeste:

A casa estava cercada pelos bandoleiros que, montados em seus cavalos, atacavam por todos os lados.
O velho e seu filho já haviam sido mortos, as duas mulheres, sua mãe e nora se rendiam ao bando e saíam do interior da casa. Um dos celerados (o que seria o chefe), pega-as pelo braço, empurra a velha escada abaixo e adentra na casa com a moça presa pelo braço. Joga-a sobre uma das camas e começa a lhe tirar as roupas, baixa as calças e comete o estupro. Terminado o ato abominável, pega a mulher, arrasta-a até o lado de fora da casa e a lança aos demais, retornando para dentro da casa.
Os homens passam a estuprar as duas mulheres. Num certo momento, a mais nova desmaia, o homem que a estava estuprado saca o revólver e dá um disparo no peito. A mais idosa livra-se do homem que a estava estuprando e avança sobre o atirador, que por sua vez, dá dois disparos sobre a mulher, que tomba sem vida.
O líder do bando, dentro da casa, procura bebidas, quando ouve choro de crianças vindo de um dos quartos. Ele adentra no quarto e vê dois berços, cada um contendo um bebê.
O homem descobre os bebês e constata que se tratam de gêmeos idênticos, que não deveriam ter mais do que três meses.
Doze horas mais tarde:
- Mercedes! Dom Castilho está chegando com os homens.
- Pablito, prepara o vinho para o teu padrinho que está chegando.
O homem pega a mulher pela cintura, dá-lhe um beijo e quando ela se afasta, dá-lhe uma palmada na bunda. E diz:
- Mercedes, te trouxe um presente!
- Onde está?
- Aliás, dois presentes, Martinho traga os presentes de Mercedes.
- Oh! Que bonitinhos, onde os encontraste?
- São órfãos, tu vais criá-los para mim, serão os nossos filhos.
Quinze anos depois:
 - Mercedes! Nós vamos abandonar o bando, já estou velho demais para seguir com essa vida. Tenho dinheiro suficiente para comprar uma fazenda em San Antônio. Lá eu não sou conhecido, os guris estão ficando taludos e eu não quero esta vida para eles.
Os meninos cresceram sem qualquer registro, não eram mexicanos nem americanos, embora tivessem cor clara e ruivos os cabelos. A semelhança era tão grande entre eles, que Mercedes muitas vezes se confundia.
- Mercedes! Em alguns dias você partirá com os garotos. Vai comprar uma fazenda para nós. Aqui tens um mapa de onde eu tenho todo o meu dinheiro escondido. Pega e compra a maior fazenda que o dinheiro permitir. Faz com que os guris trabalhem na criação de gado e de cavalos.
- Com o Billy, será fácil, mas o Joe, este só quer saber de armas de fogo.
- Assim que eu puder me livrar do bando, irei ao encontro de vocês.  O velho Ramires irá com vocês.
- Ramires! Quero que leves Mercedes com os meninos para San Antônio. Ajuda ela a comprar um rancho. Mercedes tem um mapa de onde estão escondidos dinheiro e jóias suficientes para a compra.
- Você irá ao nosso encontro algum dia?
- Sim! Assim que eu puder passar a chefia do bando para alguém.
Alguns dias depois, Mercedes carrega uma carroça com seus pertences, pega os dois filhos e parte acompanhada de Ramires. Assim, eles se dirigem a San Antônio. Billy e Joe sentiriam muito a falta do pai, porem seguiam sua mãe com grande tristeza. Mercedes, aos 45 anos, já não era mais aquela moça esbelta e sorridente. Tinha adquirido algumas gordurinhas a mais, mas não dispensava uma flor no cabelo, um lenço, que lhe cobria os cabelos negros, seu vestido longo e rodeado, típico do México, que lhe davam uma aparência austera. Sua pele queimada acentuava a cor da pele morena. Após quatro dias de viagem, a carroça chegava a San Antônio. O pouco dinheiro vivo que tinha lhes permitiu alugar uma pequena casa na cidade. E seria suficiente para mantê-los por alguns meses.  Billy e Joe, acompanhados de Ramires, foram conhecer a cidade, gostaram muito do que viram, coisas que nunca tinham visto antes. Garotas bonitas, pessoas bem arrumadas, exibindo roupas caras vindas da capital.
Nas ruas, todos murmuravam, o Tauson é o melhor, vai derrotar Wanth! Apostas abertas, o encontro dos pistoleiros seria ao cair da tarde, quando os ponteiros do relógio marcassem 18 horas. Os dois meninos e Ramires se colocaram defronte ao “saloon”, onde se encontrava o relógio. Sentados na soleira da porta de um dos prédios, ansiosos, esperavam pelo espetáculo. Os demais moradores também se aglomeravam para ver o desafio. Eram 17horas e 55 minutos, o sol já estava tentando esconder-se sobre a montanha, quando surgiu, no lado direito da rua, o Tauson, e no lado esquerdo, surgiu Wanth. Tauson, com seus dois revólveres nos coldres, todo de preto, com chapéu enterrado na cabeça, caminhava sereno como que estivesse indo para uma festa. Wanth, com um revólver apenas no centro da cintura, coronha madrepérola, com mais de quinze traços, cada um representando um duelo. Com roupas claras, chapéu bege e um lenço no pescoço, se aproximava lentamente, com a mão esquerda estendida e a direita apalpando a coronha do único revolver que carregava. Os meninos, de olhos atentos e coração disparado, olhavam extasiados o estranho espetáculo.
Os pistoleiros já estavam próximos um do outro, parados, o ponteiro do grande relógio iria pular marcando 18 horas, o que daria a partida no duelo. O ponteiro pula. Ambos sacam quase que simultaneamente. Tauson larga o revólver que já tinha sacado, coloca a mão no peito e tomba no solo. Wanth coloca seu revólver no coldre e se dirige para o bar, aplaudido pelo público de espectadores.
Este dia foi marcante nas vidas de um dos dois meninos. Agora Joe sabia o que queria ser, seria um pistoleiro. No dia seguinte, o garoto Joe procura até encontrar o revólver da mãe, pega uma caixa de balas e começa a praticar o tiro ao alvo, nos fundos da casa, em um descampado. Ramires, que não tirava os olhos do garoto, estava lhe ensinando, dentro do pouco que sabia, com as lidas de armas de fogo.
Alguns meses depois, Mercedes chama Ramires e lhe diz:
- Ramires! Vá ao guarda-cavalos e alugue uma charrete com dois cavalos, nós vamos buscar o dinheiro.
 O domingo amanhecera com poucas nuvens no céu, o que prenunciava um dia calmo e quente. Às seis horas, a família já estava de partida para as montanhas, seguindo as indicações do mapa. Na primeira indicação, havia uma trilha que ia para as montanhas. Na segunda, havia dois montes e um pico no centro. Na terceira, uma pequena caverna entre o pico e o monte do lado direito. Na quarta, um poço profundo. Para a última etapa, Mercedes levava uma corda com mais de cem metros. Às dez horas, a trilha tinha sido encontrada, lá estavam os dois montes e um pico. No pé do monte uma caverna. Mercedes e seus dois filhos adentram na caverna, deixando Ramires de guarda na entrada. Uma tocha foi acesa para iluminar o ambiente, mais de cinquenta passos foram dados e, lá no fundo havia um poço profundo. Jogaram uma pedra que, após alguns segundos, produziu um barulho como que tivesse encontrado água. Mercedes amarrou a corda em um pedaço de madeira e em uma grande pedra, e disse para Joe:
- Desce com a corda amarrada no peito, por baixo dos braços, que, se nos gritares, lhe puxaremos. Joe desceu, levando na mão uma pequena tocha. Não havia baixado mais de cinco metros e ele grita:
- Aqui está! Há uma saliência na lateral e uma valise de couro.  Vou tentar balançar-me até alcançar a entrança; consegui, podem afrouxar a corda para que eu possa subir.
Joe vê que há duas valises, uma grande e uma pequena. Ele abre a grande e constata que ela contém grande quantidade de dólares, abre a pequena e vê que está cheia de jóias. Retira da grande dois maços de dólares,  despeja as jóias da pequena na grande,  coloca os dois maços de dólares na pequena e a joga mais para o fundo. Pega a corda, amarra-a sob os braços, e diz:
- Podem me suspender.
Na sacola, havia um montão de dólares e inúmeras barras de ouro, diamantes e outras pedras preciosas.
- Aqui está, seu pai disse que daria para comprarmos uma bela fazenda em San Antônio.
Uma semana depois, Mercedes parte de diligência para Houston, com a finalidade de converter o ouro e as joias em dinheiro vivo. O garoto Joe e Ramires aproveitaram para praticarem tiro ao alvo e já começavam a disputar qual era o melhor atirador. Ramires acertava nas garrafas a trinta metros, Joe, por sua, vez não ficava para trás e também acertava em tudo o que atirava. Ramires lhe dizia:
- Mire com a mente, não com os olhos, saque e atire, quando agarrar a coronha do revólver já recue o cão ao mesmo tempo, não espere o revólver chegar na posição, aperte o gatilho antes dele estar na posição, mas não antes, a bala deve sair do cano quando este estiver direcionado ao alvo. Qualquer fração de segundo é importante, pode representar a diferença entre a vida e a morte.
Enquanto isso, Billy aproveitava a oportunidade para passear pela cidade e cercanias.
A viagem de Mercedes fora um sucesso, agora tinha todo o dinheiro que necessitava para adquirir uma fazenda. Após meses de procura e de ter visitado diversas fazendas, decidiu-se por uma de nome Centrope, que ficava na parte baixa das montanhas, onde passava um rio caudaloso e por isso, as terras eram bem valorizadas. A família comprou duzentas cabeças de gado de corte e dez cavalos. A casa do rancho tinha que ser reformada. Os garotos e Ramires trabalharam duro com a mãe e, ao final de um ano, tudo estava dentro do desejado.
 Aos 20 anos, os irmãos tomaram uma decisão, Joe sairia pelo mundo e ganharia a vida como pistoleiro.  Billy seria um domador de cavalos e criaria cavalos de raça.
Mercedes, ao ouvir Joe, lhe diz:
- Podem ir, mas não conte com nada do que me pertence, cavalos, arreios e dinheiro, nem pensar em levar. Já que querem me abandonar façam-no sem a minha ajuda.
Foi um banho de água fria na ideia de aventura do jovem Joe, que ficou muito triste. Ele continuou a praticar saque rápido, fazia com Ramires realizasse mais de 10 duelos por dia, com os revólveres descarregados.
Um mês é passado, Joe, apático e sem qualquer entusiasmo, comove Mercedes que, contra a sua vontade, aquiesce aos seus insistentes pedidos de permissão para viajar.
Billy, é procurado por Joe que lhe diz:
- Billy, temos que conversar! Como vou viajar, levarei um cavalo encilhado, um cinturão com dois revólveres. A mãe não quis me dar dinheiro para aventura.
- Como você vai fazer?
- Darei um jeito, mas necessito de tua ajuda, vou te contar um segredo. Lembras de quando fomos apanhar o dinheiro que o papai deixou escondido na caverna? Pois bem, eu deixei lá naquele local uma pequena valise que continha as joias, com dois maços de dólares. Não sei nem quanto é, um dos maços é para ti e o outro me pertence.
 Mas uma só pessoa não pode apanhar o dinheiro, terás que ir comigo!
- Irei sem duvidas, direi que te acompanharei até a cidade de San Antônio. E vamos pegar o dinheiro.
Joe amarrou, a corda na grande pedra, como fizera na última vez, passou a laçada por debaixo dos braços e amarrou firmemente, uma outra corda cheia de nós, que lhe serviria para efetuar a descida. Billy monitorava todos os movimentos e controlava as cordas, que havia passado pela cintura para controlar a descida. Quando estava no ponto Joe se balançou até atingir a entrança, pegou a pequena valise de couro, amarrou-a na cintura e disse a Billy que poderia puxá-lo. Já fora do fosso contaram o dinheiro, havia justamente cinco mil dólares em cada maço. Cada um guardou o seu quinhão e com um grande abraço se despediram. Billy retornou para a casa, Joe seguiu para San Antônio.
A tarde caia, o sol refletido nas nuvens as coloria de um amarelo cor de ouro, quando Joe via de longe a cidade que surgia no horizonte. Ao chegar à cidade, amarrou seu cavalo na frente do bar, empurrou ambas as folhas da porta e adentrou. Aproximou-se do balcão e disse ao atendente:
- Um whisky por favor!
Tomou o conteúdo do pequeno copo de uma só vez. Dirigindo-se ao atendente, perguntou:
- Sabe onde posso encontrar o Senhor. Wanth?
- É um amigo ou um desafiante?
- Um amigo!
- Ele não está na cidade, mas chega amanhã, na diligência que vem de Houston.
- Tem um quarto para passar a noite?
- Sim, é só subir as escadas, são dez dólares o pernoite!
Às 16 horas do dia seguinte, chega a diligência vinda de Houston. Joe se aproximou da diligência quando Wanth descia. Tirou o chapéu com a mão direita, fazendo uma mesura e disse:
- Boa-tarde, Senhor. Wanth! Eu sou Joe e quero falar com o Senhor!
- Boa-tarde, Joe! Você me conhece?
- Sim, eu o vi quando derrotou o Tauson e, como quero ser um pistoleiro, pensei que o senhor  pudesse me ajudar, ensinando-me a sacar com rapidez.
- O que o faz pensar que lhe posso ensinar a sacar com rapidez? Não há escolas de pistoleiro, geralmente os pistoleiros treinam sozinhos e ganham experiência em duelos.
- Bem, eu quero pagar para o senhor me ensinar!
- Muito bem, eu vou lhe ensinar, mas cobrarei por lição, cinquenta dólares a lição. Encontre-me no bar, às 20 horas, para jantarmos e conversarmos.
 Às 20 horas, Joe desse para o saloon, lá já estava Wanth, tomando um whisky.
- Um whisky para o Joe.- disse ao atendente.
Tomaram a bebida e foram sentar em uma mesa.
- Então, quer ser pistoleiro?
- É um sonho que tenho desde que lhe vi enfrentar o Tauson!
- Que idade você tem, Joe?
- Tenho 22 anos, Senhor Wanth!
- Quer morrer cedo não?
- Não, por que pergunta?
- Quer ser um pistoleiro! Na maioria das vezes, o pistoleiro morre antes do 30 anos.
- Mas o senhor tem mais de 50, não?
- Sim, acertou, tenho 52 anos, nos quais já estive envolvido em dezesseis duelos; tive de vencer a todos, se não estaria morto.
- Como acha que me tornei um pistoleiro?
- Não sei, praticando e participando de duelos!
- Eu tinha 25 anos e estava em San Diego. Até então, eu era apenas um vaqueiro entrando em um bar. Quando me dirigia ao balcão, um homem colocou o pé na minha frente e eu caí. O homem disse “vê por onde anda, seu merda”. Todos ficaram olhando o que iria acontecer. Nesse momento, o homem do bar interviu e disse que não queria tiroteios ali. Se quiséssemos brigar que fossemos para a rua. O homem foi para a rua, todos os que estavam no bar o seguiram. Não tive alternativa, tive de sair, o homem já me esperava. Em ambos os lados da rua, os espectadores, ávidos de sangue, queriam ver uma morte, como abutres agourentos. Estávamos a mais ou menos trinta metros um do outro, eu não sabia quando deveria sacar a arma, por isso saquei antes dele e o atingi no peito. O homem caiu com a arma na mão, fomos todos para o bar beber. Somente depois no bar é que fiquei sabendo que havia enfrentado um pistoleiro. A notícia correu e logo apareceram outros pistoleiros que queriam me enfrentar, apenas para dizerem que haviam me derrotado. Assim, enfrentei dezesseis pistoleiros e permaneci vivo até hoje, mas nunca se sabe o dia em que aparecerá um mais ligeiro do que nós.
Sei que nesse momento será o meu último dia de vida.
- Mas com você será diferente, quer ganhar fama como pistoleiro. Posso lhe ensinar tudo o que sei, mas depois você fará um grande favor para mim, além do pagamento, é claro.
- Sim, sim, que favor devo fazer?
- Somente lhe direi quando estiver pronto. Esta é uma condição sem a qual não lhe ensinarei.
- Quando começamos?
- Amanhã pela manhã.
Na manhã seguinte:
- Primeira lição: qualquer décimo de segundo é importante, pode representar a vida ou a morte de um pistoleiro. Saque o seu revólver!
- Não, não! Saque-o em câmara lenta. Isso, primeiro movimento, aproximar a mão da coronha. Este movimento nós vamos suprimir, permanecendo com a mão na coronha. Segundo movimento, prender a coronha com a mão. Terceiro movimento, retirar o revólver do coldre, erguendo-o para cima. Se o cano do revólver for muito comprido, como é o seu, terá de erguê-lo mais do que o necessário, perdendo alguns centésimos de segundo. Quarto movimento, erguer o cano do revólver na direção do alvo. Quinto movimento, apertar o gatilho. Este movimento deve ser feito antes do cano da armar estar completamente direcionado ao alvo. Com isso, ganhará alguns centésimos de segundo.
Após muito treinamento, cheguei à conclusão de que deveria usar o revólver atravessado na frente e utilizar um revólver de cano médio.
O pistoleiro retirou o cinturão e o entregou a Joe, que o colocou na cintura.
- Tente, agora, sacar e atirar. Isso, está muito bom, continue treinando até que tenha gravado em sua mente todos os movimentos, um a um, com o menor tempo possível.
Está terminada a primeira lição. Passe o resto do dia treinando o saque. Amanhã, teremos a segunda lição.
- Mas devo ficar com o seu revólver?
- Pode, não necessitarei dele hoje. Além do mais, se houver algum desafio, terei uma boa desculpa para não aceitá-lo.
Joe trabalhou com afinco, até o sol se pôr no horizonte, retornou ao hotel. À noite, encontrou com Wanth.
- Boa noite, Senhor Wanth!
- Boa-noite Joe, como foi o treinamento?
- Acho que atingi o meu objetivo, estou sacando muito mais rápido do que antes com o meu revólver. Amanhã vou comprar um igual ao seu e o usarei atravessado na frente do meu umbigo.
- É isso aí! Vejo que levou a sério a primeira lição.
 - Posso lhe fazer uma pergunta, Senhor Wanth!
- Sim, faça!
- Como um pistoleiro como o senhor ganha dinheiro?
 Wanth jogou-se para trás, deu uma risada e disse:
- Um pistoleiro quase não necessita de dinheiro! Ele sempre ganha tudo o que precisa. Basta não permanecer em um só lugar. Onde eu chego todos querem me pagar uma bebida, o hotel faz questão que eu permaneça sem pagar a hospedagem, os donos de saloon, nunca nos cobram as refeições. Enfim todos querem ser amigo de um pistoleiro famoso. Se eu chego em uma cidade onde está um outro pistoleiro, ou ele é amigo, ou sai da cidade, ou espera para me desafiar.
- Sabe, Senhor Wanth, eu tenho um irmão gêmeo.
- Bom! Amanhã será um outro dia, devolhe dar mais uma lição. Boa-noite, Joe.
Wanth se retirou. Joe, logo em seguida, também se recolheu.
   - Bom-dia, Senhor Wanth!
- Bom-dia, Joe, vamos à segunda lição. Saque primeiro e a vantagem será sua. Se você esperar que o outro saque, terá a desvantagem de alguns centésimos de segundo, que é o tempo de o seu cérebro emitir a ordem de sacar.
- Mas como saber quando sacar?
- Muito treino! E eu devo treinar com você. Ficaremos um defronte ao outro, a uma pequena distância, você procurará sacar primeiro.
O treino levou o dia inteiro. Wanth sempre sacava primeiro e mais rápido. Mais de quinze dias, eles treinaram pela manhã e pela tarde. O jovem Joe já estava se equivalendo a Wanth no saque.
- Jovem Joe, você está pronto. Agora vou ensiná-lo a jogar pôquer!
- Isso eu sei!
- Não sabe jogar, como vou lhe  ensinar. Diga-me, Joe! Por que, há jogadores que vivem do jogo e outros perdem tudo o que possuem jogando?
- Acho que um tem sorte e o outro, falta de sorte!
- Errado! Um sabe jogar e o outro não!
- Para se saber jogar pôquer, temos de ser um bom observador e temos de saber esconder nossas emoções.
Na observação, podemos perceber quando o adversário tem um jogo bom ou quando tem um jogo ruim. Ele sempre revela suas emoções por um gesto costumeiro, pelo ar de desânimo, quando o jogo é ruim, quando o jogo é muito bom, seus olhos brilham, o brilho da cobiça. Todos esses sinais, o jogador profissional nota e com eles sabe que jogo tem o adversário. Vamos jogar pôquer. Eu, no início, lhe direi se você tem jogo bom ou não, e mais, lhe direi os sinais que você me está passando. Depois, você é quem passará a me observar e dizer se tenho ou não jogo, e quais os sinais que estou lhe dando.
Eles começam a jogar, após três partidas, Wanth diz a Joe:
- Você está apostando, mas não tem jogo algum! Agora você tem um jogo muito bom!......
Assim eles jogaram por uma semana inteirinha. Joe, na opinião de Wanth, poderia ser um bom jogador, bastando aperfeiçoar os seus conhecimentos. Ao final, Wanth disse:
   - Agora vou lhe dizer qual é a exigência com a qual você concordou. Como você pode ver estou ficando velho e em breve devo encontrar um pistoleiro mais rápido do que eu. E, aí, estarei morto. Por isso quero me aposentar. O plano é o seguinte.
Dias depois, Wanth vai para a cidade de El Passo e lá permanece jogando por alguns dias. Chega um pistoleiro chamado Billy Joe e começa a procurar Wanth. É informado que o pistoleiro está no bar jogando cartas. Billy Joe adentra no bar, pede um whisky e pergunta ao atendente quem é Wanth. O homem aponta para alguém que estava jogando pôquer numa mesa. O jovem pistoleiro se aproxima da mesa e diz:
- Você é Wanth?
- Sim! Quem quer saber?
- Billy Joe! Dizem que você é muito rápido e eu quero testar a sua rapidez.
- Você não é muito jovem para morrer?
- Estarei esperando-o às 17 horas na frente deste bar.
- Estarei lá!  Agora me deixe continuar o jogo.
Às 17 horas, Wanth coloca as cartas fechadas sobre a mesa, afasta a cadeira e sai, rumo à porta de saída do bar. Sai do bar e vê a sua espera o jovem Billy Joe. Quando ambos os pistoleiros estavam frente a frente, o desafiante saca a arma e dispara. O desafiado leva a mão ao peito e tomba ao solo. O jovem Billy Joe é levantado pelos espectadores e levado ao bar para a comemoração habitual. O papa- defunto pega o corpo do atingido, coloca-o na carroça funerária e o leva para o cemitério. Lá faz o sepultamento e coloca o cinturão sobre a cruz.
- Tudo está como o combinado, pode partir descansado, que guardarei o seu segredo! - disse o coveiro a Wanth, que o observava, enquanto trabalhava no falso sepultamento.
Mais tarde, Joe encontra Wanth nas montanhas. Ambos se abraçam e Joe diz:
- Por um momento tive vontade de usar uma bala de verdade.
- Tive que correr esse risco.  - disse Wanth.
– Agora você é famoso e terá que enfrentar pistoleiro que quererá roubar a sua fama por ter me matado.
- Para onde vai?
- Bem! Primeiro vou trocar o visual, usarei barba longa, usarei roupas de vaqueiro e sempre estarei desarmado. Pretendo trabalhar em alguma fazenda.
- Eu tenho uma ideia! Você pode ir para o rancho de minha mãe. Lá encontrará o meu irmão Billy, mamãe e Ramires. Tenho certeza de que eles arranjarão alguma coisa para você fazer. Vou fazer um mapa para que possa chegar até lá.
- Não prometo ir ao rancho de seus pais, pois tenho um assunto muito importante para tratar. Recentemente, obtive uma informação de onde posso encontrar um bando de mexicanos que procuro há mais de vinte anos. Vou assumir uma nova identidade, uma nova aparência e irei procurar o dito bando que há mais de vinte anos exterminou a família de meu irmão. Até mais ver Billy Joe, boa-sorte como pistoleiro!
Joe retorna a El Passo, amarra seu cavalo em frente ao bar e adentra. Encosta no balcão e pede um Whisky. O barman se aproxima e lhe diz:
- O xerife  está lhe procurando, disse-me que se você aparecesse que eu lhe mandasse procurá-lo.
Joe, o novo pistoleiro, engole a bebida, que lhe fora servida, e sai do bar, dirigindo-se à delegacia.
- Bom-dia, Senhor Delegado, disse que queria me ver?
- Sim! Queria saber se vai demorar em El Passo?
- Não! Estou apenas de passagem.
- Não quero mais mortes na minha cidade.
- Prometo não desafiar ninguém, mas se for desafiado, terei de enfrentar o desafiante.
- Você desafiou Wanth, um homem bem mais velho. Isso não me pareceu justo. Em todo o caso, vou ficar de olho no senhor.
Joe saiu da delegacia e retornou ao bar. Lá se dirigiu a uma mesa de pôquer, aproximou-se e começou a observar os jogadores. O grupo estava no meio das apostas, à mesa, os quatro jogadores. Um deles, com um chapéu de abas curtas e arredondadas, construído em feltro, vestindo um casaco preto, camisa branca e um laço preto no colarinho, que lhe davam um ar aristocrático. No lado oposto, um vaqueiro com calça de brim sob um tirador de couro, camisa e colete de couro. Uma cicatriz no lado direito do rosto lhe dava uma aparência de malfeitor. No lado direito do vaqueiro, um homem, com aparência de pistoleiro, roupa preta, cinturão com afrescos prateados e um par de revolves com cabo madrepérola, chapéu nas costas, dependurado pelo barbicacho. À esquerda, uma mulher com um vestido vermelho, com um grande decote, que desnudava parcialmente um par de seios vistosos. Tinha os cabelos ruivos, com uma rosa branca cravada no lado esquerdo.
 Sua observação teve como início a mulher. Após quatro várzeas, descobrira que ela sinalizava a sorte, tocando na rosa com a mão esquerda. Quando a sorte não lhe sorria, ela tamborilava na mesa, fechava e abria as cartas. Já se passava mais de uma hora de observação, quando o almofadinha, olhando-o de soslaio, disse:
- Quer jogar forasteiro, há um espaço na mesa?
 - Não quero mudar a sorte dos senhores e senhora, quero jogar, mas só o farei quando alguém sair do jogo, assim não quebro a egregora do jogo.
- Esteja a gosto!
O jogo continuou, até que o vaqueiro colocou as cartas no centro da mesa e disse:
- Estou fora, não tenho mais dinheiro para as apostas.
Levantou-se e saiu. Billy Joe acomodou-se na cadeira e disse:
- Há limites de aposta?
- Todos responderam que não.
A essas alturas dos acontecimentos, Billy Joe já sabia como os jogadores sinalizavam a sorte ou a falta desta.
Na primeira mão de jogada, ao abrir a quinta carta, o almofadinha sinalizou a sorte, ajeitando o laço e esticando o pescoço. Billy Joe fechou as cartas e não apostou, disse apenas:
- Eu passo!
Após quase cinco horas de jogo, Billy Joe estava ganhando mais de quinhentos dólares, quando o homem, com aparência de pistoleiro, disse:
- Acho muito estranho que o forasteiro nunca aposte quando os outros têm jogo e aposta sempre que tem um jogo, embora pequeno, parece que é adivinho!
Billy Joe respondeu:
- É, possivelmente, eu esteja com sorte hoje.
- Ou pode estar roubando no jogo?
- Só não o desafio para um duelo porque prometi ao delegado que não mais duelaria nesta cidade, depois de haver derrotado Wanth.
- Ah, então foi você que derrotou o Wanth ?
- Para não quebrar a promessa ao delegado, eu posso encontrá-lo fora da cidade, o que acha de amanhã, às 9 horas?
- Por mim, tudo bem! Estarei pronto.
O jogo prosseguiu, Billy Joe continuou ganhando.
No dia seguinte, às 8 horas, Joe se prepara para o encontro, nunca imaginava que mais de vinte pessoas o acompanhariam para assistir ao duelo. Chegando ao ponto, nas montanhas, os espectadores o rodeavam, alguns dizendo que seu oponente se chamava Ringo e que era um rápido pistoleiro.
Faltando dez minutos para as 9 horas, ao longe, surge o pistoleiro desafiante, que se aproxima, desce do cavalo e se coloca em posição de duelo. Ao lado dos dois, os curiosos faziam apostas. Joe sabia que agora não se tratava de uma encenação, e sim, de uma disputa verdadeira, onde um dos dois iria morrer. Em um instante, passou na mente de Joe todos os ensinamentos recebidos de Wanth. Sacar primeiro era o mais importante. Quando estavam frente a frente, Joe sacou e disparou. A bala saída do revólver de Joe achou o coração de Ringo, que levou a mão ao peito, tombando para frente. O saque fora tão rápido que o oponente nem chegou a sacar a arma, teve tempo apenas de levar a mão ao coldre. Joe, vitorioso, monta em seu cavalo e se afasta, carregando o peso de sua primeira morte na consciência.
Em Centrope:
- “Papá”!  Finalmente chegaste, quanta saudade!
- Mercedes, minha mulher, quase que não cheguei. Os homens não queriam que eu viesse. Onde estão os garotos?
- Em casa só está o Billy.
- Onde está o Joe?
- O Joe partiu, eu fiz de tudo para evitar a sua partida, mas nada adiantou, vou te contar como tudo aconteceu:
Ao terminar a narrativa, Mercedes disse:
- Assim é que Joe partira sem ter quando voltar.
- Eu quero ver Joe, alguém terá que procurá-lo, Mercedes, e este alguém será eu.
Nesse momento, entra Billy, abraça o pai demoradamente e diz:
- Quanta saudade eu tinha do senhor, porque não veio antes?
- Billy! Que história é essa do Joe querer ser pistoleiro? Eu sairei a sua procura.
- Pai, agora que chegaste, eu posso partir à procura do Joe.  Seguirei o seu rastro, até encontrá-lo.
Assim, Billy, uma semana depois do pai haver chegado, parte à procura de Joe.
NO ACAMPAMENTO DOS BANDOLEIROS.
- Alto lá, senão leva bala!
- Calma, calma, sou um comerciante de armas, quero ver o seu chefe para oferecer-lhe algumas armas novas.
- Mostra as armas.
- Aqui estão!
- Que maravilha. Pablo, vá ao acampamento e veja se o chefe quer recebê-lo.
Wanth espera até o mensageiro chegar, e logo que este chega é lavado ao acampamento.
É recebido pelo chefe, um homem novo, com mais ou menos trinta anos, o que o leva a dizer:
- Buenas tardes! Esperava que fosse mais velho, como você é Jovem!
- Buenas tardes! Eu substituí o nosso chefe, que era idoso. Ele se aposentou e foi criar cavalos. O que tem para me oferecer?
- Tenho três tipos de armas novas, da Schimit West, venha ver.
- Mas ainda que mal pergunte, onde é o rancho do antigo chefe, talvez se passar perto eu dê uma chegada lá para lhe oferecer as armas.
- Fica perto de San Antônio.
Wanth vende algumas armas aos bandoleiros e parte. Uma semana depois, ele chega a Centrope.
 - Buenas tardes! Sou vendedor de armas, tem interesse em algumas? São do último tipo, chegadas de Nova Yorque.
- Desça, dê água e comida ao cavalo e vamos conversar.
- O senhor é Dom Castilho?
- Sim, de onde me conhece?
- Estive com os seus homens, eles é que me deram o caminho até aqui.
- Mas vamos ver as armas.
- Mui lindas. Fico com duas
Horas mais tarde, após conversarem sobre diversos assuntos, Wanth pergunta:
- Ainda que mal pergunte, onde estão seus filhos?
- Como sabe que tenho filhos?
- Foi o que me informaram no acampamento, que talvez eu conseguisse vender armas também para os seus filhos.
- Ah, sim! Acontece que ambos estão viajando e não tem quando voltar. Aqui no rancho só estão eu, Ramires e minha mulher.
Enquanto isso, Billy continua à procura de Joe. A última informação é que ele tinha saído do Colorado rumando para Pecos. Resolvera passar alguns dias no Colorado. Hospedou-se no único hotel do Colorado e á noite, foi jantar no saloon. Ao adentrar no Saloon, um homem, que estava encostado no balcão do bar, estendeu o pé e fez com que Billy tropeçasse e caísse. Billy levantou, pediu desculpas e o homem lhe disse:
- Quem não tem coragem para um duelo deve olhar por onde anda.
- Coragem eu tenho! - replicou Billy. Só que não uso armas, mas sei usar os punhos. Tire suas armas e vamos lá fora para uma briga a socos.
O homem tirou a cigarrilha da boca, deu uma cuspida no chão e disse:
- Façam as suas apostas, senhores, eu jogo dois contra um que o liquido em três minutos.
Retirou o cinturão,  colocou-o em cima do balcão e se dirigiu para fora. Billy o acompanhou.
Já na rua, ambos, com os punhos cerrados, ficaram girando em círculos, movimentando os braços em posição de ataque. Billy desfechou o primeiro soco. O desafiante teve o nariz quebrado e o sangue começou a sair, pingando em suas roupas. Ele passou a mão no nariz e revidou um esquerdo no estomago de Billy e logo arrematou com um direito no lado do rosto. Billy caiu e o desafiante se preparou para chutar-lhe o estômago. Billy virou-se pegou o pé do homem e o torceu, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse ao solo. Billy levantou e esperou o adversário levantar. E ambos começaram novamente a girar movimentando os punhos cerrados.
O desafiante lançou um soco de direita no rosto de Billy, que o desviou com o braço esquerdo, e desferiu um tremendo soco de direita no estômago. O homem se encolheu e Billy lançou  um gancho de esquerda,  atingindo-o no queixo. O adversário caiu ao solo desfalecido.
Billy desistiu de jantar no saloon e voltou para o hotel. No dia seguinte, partiu na primeira diligência para Pecos.
O derrotado, no dia seguinte, procurou Billy e obteve informações no hotel de que ele tinha partido na primeira diligência para Pecos. Pegou o seu cavalo e para lá se dirigiu, sedento de vingança, queria enfrentá-lo em um duelo com armas de fogo.
Em Pecos, Joe está sentado à mesa de jogos de pôquer, quando entra um forasteiro, se encosta no balcão, pede uma bebida, pega o copo, se dirige à mesa de jogo, se aproxima de Joe e lança o conteúdo do copo em sua face. Joe olha sereno para o homem e diz:
- Já sei, quer me enfrentar em um duelo, pois bem, que seja.
Limpa a bebida derramada com um lenço e continua a jogar, dizendo ao forasteiro:
- Tome um drinque enquanto eu termino esta partida.
Terminada a partida, Joe sai do saloon, o homem o acompanha, convencionam que será a uma distância de vinte passos, dez de cada um. Os homens se viram, Joe saca e atira com uma rapidez incrível, o homem não chega nem a sacar o revólver, cai ao solo com a mão no peito e o sangue jorra entre seus dedos. Nesse instante, chega Billy que, antes de falar com Joe, vê o homem estirado no solo todo ensanguentado, reconhecendo o seu oponente de briga corporal. E pensa: - “Que sina triste perdeu no soco e agora perde a vida em um duelo, justo com Joe.”
Os irmãos se abraçam e entram no saloon para tomarem uma bebida.
- Isso, Joe! O papai voltou para morar no Centrope e queria vir te procurar, eu não deixei e por isso eu vim te procurar. Ele quer te ver.
- Eu também estou louco para ver o pai. Partiremos amanhã pela manhã para Centrope.
Três dias de viagem e os dois jovens se encontram  nas proximidades de Centrope. Do alto de um monte, podiam ver a fazenda que parecia estar abandonada. Ninguém era visto nas cercanias da casa.
Quando chegam, batem à porta, que logo é aberta por Mercedes que, ao vê-los, cai em pranto.
Joe, abraçando-se a ela, disse:
- Mãe, o que aconteceu?
Billy diz:
-Diga logo o que aconteceu.
- Após a sua partida, Billy, apareceu aqui um homem vendendo armas, eu estava dentro de casa e nada pude ver, só sei que ouvi tiros e corri. O homem estava na frente dos corpos de  Ramires e    “Papa”. Ele montou no cavalo e partiu, sem dizer-me o que havia acontecido.
- Como era este homem mamãe? - perguntou.
- Andava com dois cavalos, um carregando um alforje de caçador. Ele é um homem alto, com cabelos grisalhos, deve ter mais de 50 anos. Quando chegou estava com um casaco longo e um chapéu preto, não usava revólver no cinto, a barba era longa e branca.
 - Um de nós terá que ficar com mamãe. - disse Joe.
 - Eu irei em seu encalço. - falou Billy.
- Não! Isso é coisa para um pistoleiro, sem menosprezá-lo, de nós, eu sou o mais experiente com armas.
- Não! Nós iremos juntos, porém antes deixaremos mamacita num hotel.
- Mas e os animais, o rancho ficará abandonado? Não, um de nós terá que ficar com “mamá”. Como já era de costume, eles tiraram a sorte com uma moeda de um dólar, no cara ou coroa. Billy ganhou, iria ele à procura do assassino. Joe, resignado, ficaria com a mãe, tomando conta do rancho.
Billy procurou o incauto que teria assassinado o pai. Foi lá pelas bandas de Sonora que ele teve notícias do vendedor de armas. A informação obtida o levou a uma casa de campo, onde ele morava. Na casa, Billy entrou pelo fundo. Lá estava o homem preparando um café no fogão à lenha. Sacou a arma quando o homem se virou, ficou de frente para ele e surpreso disse:
- Joe, o que está fazendo por estas bandas?
-Você conhece o Joe? Eu sou Billy.
- Mas por que a arma apontada para mim? Sou Wanth, fui instrutor de seu irmão gêmeo.
Billy colocou o revólver no coldre e disse:
- Estou procurando um homem que matou o meu pai, me disseram que ele morava por aqui, mas no que vejo a informação está errada.
- Pode não estar, Billy, mas deixe eu lhe contar uma história.
Há mais de vinte anos, uma família recebeu a visita de um bando de malfeitores mexicanos. Esta família era composta por um casal com dois filhos gêmeos e o casal de avós, por parte do pai. O casal de anciãos eram meus pais; o casal jovem era meu irmão e minha cunhada. Eles tinham dois meninos gêmeos de, aproximadamente três meses. O bando matou os dois homens, estuprou as mulheres e, finalmente, as mataram. Quando descobriram os dois meninos, eles os levaram e foram criados pelo chefe dos bandidos. Quando eu e Joe  nos separamos, eu lhe disse que iria procurar o bando, pois tinha recebido uma informação de onde eles estavam. No bando, recebi a informação de que o chefe tinha se aposentado e que estaria morando em um rancho. Procurei o rancho e o encontrei. Quando o bandido soube de quem se tratava e que eu estava ali para vingar a minha família, ele e seu comparsa puxaram as armas, mas eu os abati em uma justa luta armada.  Se é a mim que está procurando, me encontrou, e eu acabo de encontrar os meus sobrinhos.
 Billy baixou a cabeça em reflexão. Wanth continuou:
- Não pense em se vingar em mim, eu apenas cumpri o meu dever e mais, eu jamais puxarei o meu revólver para qualquer um de vocês. Se quiserem me matar me matem.
Billy não conhecia  Wanth, mas sabia que ele era um grande pistoleiro.
- Não tenho certeza de que você seja meu tio.
Preciso que mamacita confirme sua estória. Para tanto, quero que vá comigo até o rancho.
- Claro, Billy, irei com você na hora que quiser.
- Vamos agora mesmo!
Wanth selou o cavalo, colocou o alforje e montou, não levava qualquer tipo de arma.
Viajaram o resto do dia e tiveram que pernoitar em Laredo. Want, após o jantar, permaneceu no hotel, enquanto Billy resolveu dar uma ida ao saloon para tomar uma cerveja. Billy estava encostado no balcão do bar, tomando a cerveja, quando um homem, com aparência de pistoleiro, se encostou no outro canto do balcão e pediu um whisky. Dirigindo-se a Billy disse:
- Você é Billy Joe?
- Sou Billy! E, você, quem é?
- Sou irmão de Ringo, irmão mais velho, e, consequentemente, mais experiente, comigo não vai sacar primeiro, como fez com Ringo.
- Acontece que eu não sou Joe, sou Billy.
- Conversa fiada, você é Billy Joe, que matou Ringo. Eu o espero no alvorecer, aqui na frente saloon.
Billy terminou a sua cerveja e foi para o hotel.
Lá encontra Wanth, que parecia que estava lhe esperando.
- Como foi Billy, gostou do saloon?
- Não sei o que aconteceu. Só sei que apareceu um pistoleiro que disse ser irmão de Ringo, que eu tinha matado em um duelo, que eu saquei primeiro, e que com ele não aconteceria. E, finalmente, disse que me esperaria ao alvorecer, defronte ao saloon.
- Com certeza, o duelo foi com Joe.
- Eu disse a ele que fora com Joe, mas ele me disse que foi com Billy Joe.
- Eu conheci Ringo e seu irmão mais velho o Ranger. As informações que tive é de que ele é um grande pistoleiro, bem mais rápido do que Ringo. Você não pode duelar com ele, seria morte certa.
- Não vou fugir, eu o enfrentarei pela manhã.
- Não permitirei que faça isso.
Wanth bate com um vaso na cabeça de Billy, que cai sem sentidos. Arrasta-o para fora pelos fundos do hotel, amarra-o amordaça-o, encilha os cavalos, coloca Billy em um deles, amarrado e atravessado na sela, e partem na calada da noite.
Fora do alcance do pistoleiro, Wanth desamarrou Billy, que, cheio de raiva, lhe disse:
- E agora, vou passar por covarde, por sua causa.
- Antes vale um covarde vivo de que um bravo morto. Você não teria a menor chance contra o irmão do  Ringo.
Assim, discutindo, chegaram ao rancho.  Joe, quando os recebeu, logo reconheceu Wanth. Mercedes, apontando para Wanth, disse:
- Este foi o homem que matou seu pai.
Joe disse:
- Não é possível, este é um amigo meu, chama-se Wanth.
Wanth, descendo do cavalo, se aproximou dos dois, deu um abraço no Joe e disse:
- Fui encontrado por Billy, e o convenci a vir até aqui para que a senhora confirmasse a minha história, perante os dois irmãos. A senhora é mãe legitima deles?
- Não, eles foram trazidos por Dom Castilho, quando tinham, mais ou menos três meses,  eu os criei com todo o amor e carinho, como se fossem meus próprios filhos.
- Acredito na senhora, dona Mercedes. Possivelmente, a senhora não saiba o que havia acontecido, por isso vou lhes contar nos mínimos detalhes tudo o que aconteceu.
  Wanth conta o que havia acontecido há mais de vinte anos e conclui dizendo:
- Eu tomei conhecimento do massacre por um armeiro, que os havia encontrado antes deles terem chegado ao rancho. Quando ele chegou, somente pode ver os corpos. Quando perguntei pelos gêmeos, ele disse que não havia  o mínimo sinal deles, o que me levou a concluir que tinham sido levados pelo bando. Passei a procurar um bando de mexicanos que tinham dois gêmeos idênticos. Como eles eram pequenos, ninguém me deu notícias deles. Finalmente, obtive informações sobre o paradeiro do bando. O resto vocês já sabem. Sou tio de Billy e Joe.
Mercedes jurou que nunca soubera de nada, apenas sabia que ele os tinha trazido para serem criados por ela.
Após alguns segundos de silêncio, Wanth disse:
- Vou deixá-los sozinhos, para que julguem o caso como melhor lhes aprouver, estarei dando água para os cavalos lá fora.
Mercedes estava inconsolável, chorava aos prantos, dizendo que nunca soubera do acontecido. Após dialogarem por mais de meia hora, eles chegaram à  conclusão de que Wanth tinha razão em enfrentar em duelo Dom Castilho.  Joe foi buscar Wanth, que, ao retornarem para a casa, lhe disse:
- Você colocou Billy em uma má situação, e contou-lhe o ocorrido, sobre o impedimento do duelo com o irmão de Ringo.
- Tenho que retornar lá e enfrentar o pistoleiro.
-  Você sabe que eu não posso aparecer como o pistoleiro Wanth, pois este já está morto.
- Não é necessário, posso dar conta do recado sozinho.
Ambos adentram na casa onde estava Mercedes e Billy. Mercedes, de mãos postas, pede perdão a Wanth, pelo que fizera seu homem. Os rapazes se abraçaram nele e assim ficaram por alguns segundos. Wanth, tomando a palavra, disse:
- Joe terá que desfazer um mal-entendido com um pistoleiro, irmão de um morto em duelo. E deve partir imediatamente, antes que sua fama de covarde o anteceda.
No dia seguinte, Joe entra na cidade de Laredo, vai até o saloon e pede um Whisky. O barmann lhe diz:
- O Ranger lhe esperou ontem pela manhã, disse que você tinha se acovardado e fugido do encontro.
- Na verdade, tive que ir a El Passo atender a um chamado urgente. E aqui estou.
Nesse momento, Ranger está na barbearia, quando recebe a notícia da chegada de Billy Joe à cidade.
- Já estou indo ao saloon, e dessa vez ele não vai fugir de novo.
Estava Joe encostado no balcão, tomando o seu Whisky, quando entra Ranger, que diz:
- Que houve? Fugiu do encontro?
- Não! Mas nada tenho contra você. Na verdade, quem matou o seu irmão fui eu, e não o meu irmão gêmeo, Billy. Como ele nada tinha a ver com o caso foi me chamar, e aqui estou.
Ranger viu que eram verdadeiras as afirmações que acabara de ouvir. O outro usava duas armas, uma em cada lado, ao passo que este utilizava apenas uma arma atravessada no centro da cintura. Fisicamente, ambos eram iguais, mas as roupas eram totalmente diferentes, assim como o jeito de se posicionar no balcão.
- Como é, vai querer que o duelo seja agora ou quer que junte mais gente?
- Pode ser agora. - respondeu Ranger.
Ambos se posicionaram, afastando-se do balcão. Quando Ranger movimentou a mão direita para alcançar o revólver, Joe já tinha sacado e atirado, a bala achou o peito do desafiante, que tombou com a mão no peito.
Joe passou pelo corpo tombado no solo, colocou o chapéu na cabeça e saiu do saloon, montou em seu cavalo e partiu para o rancho.
Lá chegando, do alto de uma colina, vê o rancho sendo atacado por bandoleiros mexicanos. Faz uma volta, chega pelos fundos, esconde o cavalo no meio de uns arbustos e, rastejando, chega até os fundos da casa e entra no porão. Pelas janelas, Mercedes, Wanth e Billy, rechaçam o ataque. Ao entrar na sala, Joe diz:
- Que está acontecendo?
Billy responde:
- É o bando do papai! Eles querem Wanth, pela morte do antigo chefe.
- Mas como eles souberam?
- Não sabemos. - respondeu Wanth.
- Um momento, eles pararam de atirar, um deles levantou uma bandeira branca, querem conversar.
Os disparos foram suspensos. O homem se aproximara e, quando perto da casa, disse:
- Não temos nada contra os garotos e a Mercedes, nós só queremos o homem que matou o nosso antigo chefe e um dos nossos. Entreguem-nos o homem que iremos  embora.
Vocês têm trinta minutos para resolverem, após isso vamos dinamitar a casa.
Wanth, dirigindo-se ao homem,  disse:
- Eu proponho outra coisa. Enfrento dois de vocês, simultaneamente, até que eu seja morto ou todos vocês derrotados. Mas quero uma garantia. Que o chefe de vocês permaneça à vista e ao alcance das armas dos garotos, caso alguém queira me alvejar de tocaia.
O mensageiro respondeu:
- Vou levar para o chefe esta proposta e retorno com a resposta.
Alguns minutos depois:
- O chefe concordou. Ele permanecerá à vista e ao alcance, enquanto durarem os duelos.
Dois bandoleiros se apresentaram, o chefe apareceu e ficou visível, ao alcance.
Wanth saiu pela porta, desceu os três degraus que do alpendre alcançam o solo. Quando ficaram frente a frente, Wanth sacou o único revolver que trazia no coldre, na parte frontal da cintura, e disparou duas vezes. Os oponentes tombaram ao solo. Ele retornou para o interior da casa, o chefe saiu da posição de alcance e foi ter com o bando.
 - Mirem muchachos, vamos mudar a estratégia, os próximos dois não ficarão juntos, manterão uma distancia de dez passos um do outro, aí vai ficar mais difícil ele acertar os dois. Pablo e Rodrigo, é a vez de vocês, se preparem, eu vou aparecer.
Wanth desceu o último degrau e ficou de frente para os dois bandoleiros, distantes um do outro em dez passos. Sacou o revólver.   Ambos tombaram sem dar um único disparo.
O chefe, furioso, retorna ao bando e diz:
- Os próximos dois, Rodrigues e Sancho, um ficará na direita e o outro à esquerda. Não esperem ele sacar, atirem antes.
Wanth desce os degraus vagarosamente, saca e atinge o da direita, quando se vira para a esquerda é atingido no ombro esquerdo, dispara e atinge o  peito do adversário, mas está ferido. Volta para o interior da casa. Joe vai ao seu encontro, faz com que ele sente em uma cadeira, examina o ombro, a bala se alojara debaixo da clavícula. Billy tira o lenço e amarra o ombro.
Enquanto isso, o chefe dá as suas ordens:
- Joanito e Ortega  é a sua vez, hombres. Mantenham o mesmo arranjo, um de cada lado, mas atirem no peito do hombre.
 Wanth, com o braço esquerdo na tipóia, desce os degraus e se coloca entre os dois. Mas antes mesmo de parar, saca e atira, em Joanito, que está à direita, e o atinge no peito, vira-se rapidamente e atira em Ortega, a bala aloja-se na cabeça, entre os dois olhos, e Ortega é lançado ao solo com o impacto.
Wanth adentra na casa. O chefe dos bandoleiros, enfurecido, grita:
- Antônio e Santos preparem-se. Tão logo ele tenha descido o último degrau, saquem e atirem.
Homens posicionados, Wanth, pressentindo que os opositores já estavam sacando, antes mesmo de eles estarem na posição, atirou-se ao solo de costas e, na queda, já estava atirando, primeiro em Antônio, que foi atingido mortalmente, mas quando disparou contra Santos, este, ao mesmo tempo, atirou. Santos foi atingido no peito e Wanth na cabeça, entrando a bala na altura do ouvido direito. Wanth cai mortalmente ferido.
O chefe grita:
- Hombres, peguem sus cavalos, vamos partir.
Nesse momento, Joe e Billy saem e vão socorrer Wanth, mas este já está morto.
O bando se reúne ao lado dos dois irmãos e o chefe diz:
- Muchachos, su padre foi vingado, enterrem os mortos. Hasta siempre.

Otrebor Ozodrac
Enviado por Otrebor Ozodrac em 04/08/2018
Código do texto: T6408978
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Otrebor Ozodrac