TROVULINO FINAL
 
     PEÇO DESCULPAS, DEVERIA DIVIDIR EM MAIS ALGUNS CAPÍTULOS, MAS VOU TER QUE DAR UMA PARADA ESTRATÉGICA DIFÍCIL DIZER POR QUANTO TEMPO ESPERO QUE EXISTA ESTE TEMPO. ASSIM COMO TENHO ALGUNS AMIGOS E AMIGAS LENDO POSTAREI O RESTO DO CONTO E ASSIM ELES PODERÃO SABER COMO TERMINA ESTA PARÓDIA. ABRAÇÃO GALERA, SEMPRE FOI BOM ESTAR AQUI, SE VOLTAR, QUANDO VOLTAR POSTAREI OUTRO LIVRO TAMBÉM ESCRITO NESTA ÉPOCA E QUE SE CHAMA “DESEJO QUEM EXPLICA". ESPERO QUE SEJA BREVE, MAS SE NÃO FOR PACIÊNCIA. SEI QUE JÁ SE ACOSTUMARAM COM ESTE POETA CAIPIRA.


 
RECORDANDO O ÚLTIMO EPISÓDIO

Acordou com o pio do gavião carcará estridente e que estava à caça de alguma presa ou companheira. Levantou-se e como um cão molhado sacudiu o corpo para livrar-se da água, esperou um pouco até o corpo ficar seco e vestiu as roupas. Sentou-se numa pedra com boa altura onde se sentiu confortado e enrolou um cigarro de palha que fumou com prazer. Sorriu por se aperceber que os acontecimentos passados já não o estavam incomodando tanto e se perguntou se este não seria de fato o seu destino. “Ser um cangaceiro matador e estar do lado do capeta em vez de ficar do lado dos que vão as missas e rezam para conseguir um cantinho no céu”.

 
                                                                                                                   TROVULINO FINAL

     Permaneceu onde estava até que o sol se pôs e quando a noite começou a chegar, voltou ao pé de jequitibá. Com o facão marca corneta, novo, que havia tirado do armazém do finado compadre, limpou o local usando-o a guisa de enxada fazendo uma raspagem das folhas e sentou-se com as costas apoiadas no tronco volumoso. Atravessou a cartucheira sobre as pernas e esperou. O tempo transcorreu lento, mas sem que ele se incomodasse, não tinha nada para fazer e sua mulher onde se encontrava, não iria precisar que ele segurasse a lamparina para ela por chifres nele, ela agora estava bem iluminada pelas chamas do inferno.

     Quando a lua cheia estava quase sobre sua cabeça e seus raios iluminavam o regato deixando-o parecido com um filete de prata, ele ouviu um pisar cauteloso de pés se aproximando. Permaneceu como se fizesse parte da paisagem que cercava o ambiente, viu quando um veado campeiro com chifres bem desenvolvidos apareceu e lentamente, parando, escutando, farejando, foi-se aproximando da água, o cheiro dela o fez menos cauteloso. Curvou a cabeça e começou a beber, o caçador que estivera apontando a arma na sua direção, agora mirava com cuidado a anca da pá dianteira do animal, estava pronto para puxar o gatilho. Sabia que um tiro naquele lugar era fatal. Os caroços de chumbo grosso entrariam no couro e atingiria o coração do animal, raramente eles não caiam no mesmo lugar, e quando isto não acontecia, ele não ia muito longe, pois, os grãos de chumbo quebrariam sua perna e a hemorragia interna o enfraqueceria. Depois disto o caçador o alcançaria e terminaria o serviço com a peixeira.

     Talvez por ser um animal que não faria mal a ninguém, ou quem sabe, os belos chifres do bicho o tenham comovido e feito trovulino pensar que de certa forma eles eram iguais. Certo é que quando tinha o veado na mira e a certeza de que não erraria o tiro, ele abaixou a arma com cuidado para não espantá-lo e ficou apenas admirando-o até que ele se afastou. Puxou a capa gaúcha que tinha tomado do finado pistoleiro e apoiando a cabeça no embornal onde carregava os apetrechos de caça, dormiu. Sonhou que era um gavião voando a grande altitude. Sonho típico de quem quer fugir de uma situação de desespero e o pavor de uma desgraça sofrida e que tenha vindo tão fora de propósito, quando ele pensava que já era dono de um pedacinho de céu e já tinha garantido à salvação da alma.

     No outro dia quando os pássaros iniciaram a algazarra matinal, ele já tinha aberto os olhos e esperou assim até as sombras da noite se afastarem e ele pudesse ver com clareza entre as sombras da mata. Quando ia levantar-se escutou um guincho e barulho de dois animais pequenos, engatilhou a cartucheira e esperou, avistou duas pacas a menos de quinze metros do lugar onde estava, escolheu um que lhe pareceu o maior e mirando na cabeça puxou o gatilho. O guincho de susto e dor se elevou no ar, o outro animal fugiu em seguida e ao aproximar-se notou que tinha calculado corretamente, o animal era um belo exemplar macho. Após amarrar os pés do roedor com um fiapo de cipó caboclo que era dúctil e resistente, deixou-o junto da árvore e os apetrechos de caça. Fez suas necessidades fisiológicas. Depois foi até o regato lavou o rosto, bebeu água e pegando a pesada carga, voltou ao acampamento caminhando sem pressa e olhando a beleza do lugar.


     Ao chegar Juca perguntou se o veado não tinha aparecido, ele disse simplesmente: - acho que meu cheiro espantou o bicho. Tire o couro e limpe a paca, vamos assá-la no espeto, a carne é bem mais saborosa do que carne de veado. Faça uma água de alecrim, pegue dentes de alho e sal no meu embornal é tempere a carne que vamos comer e beber da cachaça do compadre, com a vantagem de ser de graça, ele não precisa mais de dinheiro, riu com gosto acompanhado pelo irmãos: “Juca e o Pedro que acabara de chegar”. Sentou num banco improvisado, depois de se servir de café tirado do bule que ficava sempre quente no fogão de pedras também improvisado. Enrolou um cigarro de fumo picado, numa palha de milho e fumou com prazer.

     Quando terminou o almoço que tinha arroz, feijão e farinha. Procurou uma sombra, e ficou conversando com os irmãos e fazendo planos para o futuro. Sua idéia era montar um bando numeroso, e fazer justiça no sertão. Os dois dias esperando nas ruínas foram lentos e iguais, quando finalmente na manhã do terceiro dia os dois irmãos partiram e trovulino ficou aguardando o anoitecer, pois, iria a cavalo e chamaria mais a atenção se viajasse durante o dia. À noite quando a lua minguante ainda iluminava o sertão ele chegou ao local combinado com os outros.

     Depois do relatório feito por Juca que era mais velho do que Pedro e sempre tomava as rédeas da situação perante Trovulino, este resolveu descer acompanhado de Pedro, deixando Juca de prontidão para responder a fogo caso fosse preciso. Ao se aproximar do casebre, mandou Pedro ficar atrás de uma pedra, Acenou com a mão que segurava o cigarro aceso para Juca, que respondeu ao aceno e depois com calma se aproximou e empurrou a casa da velha moradia, que rangeu quando abriu. Acendeu um velho lampião e com o facho bem baixo se dispôs a examinar as coisas do velho pai falecido. Num antigo baú que estava escondido num canto debaixo do fogão e que os macacacos não encontraram, ele abriu e encontrou o que procurava. Um velho chapéu de cangaceiro todo enfeitado com peças de ouro, e quatro estrelas de prata, além de algumas moedas patacas que era feita de prata com algumas percentagens de ouro, bem polidas eram um belo enfeite.

     Desde o dia da desgraceira, ele ainda não tinha tido um pensamento bom para nenhum ser humano, mas rezou algumas palavras em intenção da alma do seu velho, valente e finado pai. Não chorou, até sorriu ao se lembrar do velho, o mundo não produzia muitos homens com a sua coragem e senso de justiça como foi o velho Raimundo Pereira famoso por suas afrontas aos macacos. Matou muitos homens, até resolver assentar pouso e criar família naquele lugarejo que ele desbravara e tomara posse fincando a primeira casa que permaneceu mais de dez anos sozinha até que outros atraídos pelo rio também foram se achegando e invadindo a terra devoluta. Terras que o governo mantinha sem distribuir. Exatamente pelo valor estratégico que representava o rio Girondé de águas perene e cristalinas.

     Assim nasceu o povoado de nome Pereira uma homenagem ao velho sem que alguém pensasse nisto. Quem morava lá dizia, - eu moro lá no Pereira e foi ficando, um dia seria uma cidade e talvez ninguém se lembrasse que se chamava assim, por que este era o sobrenome de Raimundo seu pai. Mas isto não tinha mais importância, seu pai se fora e ele não voltaria mais ali. Dentre as coisas guardadas no baú, havia uma velha baioneta, mas sem desgaste, certamente tomada de algum macaco que ele matara, trovulino apoderou-se dela e saiu. Nada mais tinha qualquer valor para ele e o que restara ali, seu irmão Zequinha se encarregaria de tomar conta, assim como das terras em volta do casebre que eram bastante produtivas.

     Reuniu-se com os irmãos e se dispôs a sair nos caminhos do mundo para desassossegar o sertão. De manhã entraram no povoado de Sariróca menor ainda e mais pobre do que Pereira, mas com a mesma vantagem, era difícil macaco aparecer ali, só se fosse chamado em caso de mortes. Quando as pessoas reconheceram o grupo, um bando de mais de vinte homens apareceu e após as saudações, pediram para se juntarem ao bando de Trovulino. O homem que falava pelos outros, era conhecido como bala doce e seria companheiro fiel de trovulino por muitos anos, até sua morte. Mas isto ainda demoraria muitos anos, aquele era o ano de mil novecentos e doze, o mês era agosto e era uma quinta feira.

     O bando era composto na maioria por jovens, mas contava com três bons mateiros que tinham servido em tropas da volante e tinham experiência em viver na inóspita caatinga e mais o bala doce, que já vivera no cangaço e depois de tentar viver no sossego, estava pronto para voltar. Afastaram-se para uma região serrana de difícil acesso e lá, comandados por Trovulino e treinados pelos mais experientes, o bando foi aos poucos ficando com músculos rijos e o corpo bem treinado para a luta. Algumas vezes, eles já tinham feito incursões em fazendas não muito grandes em busca de víveres, munição e tudo de valor que podiam roubar.

     Nestas ocasiões o bando ainda composto apenas de homens, fazia todo tipo de maldade sem que Trovulino interferisse, os quatro chefes de bando, sendo: perna curta- cospe fogo, língua presa e bala doce, respondiam a Trovulino caso ele não aprovasse algo. Numa noite de lua cheia, onde a cachaça corria solta e comiam carne de uma novilha assada, Trovulino pediu a atenção e falou alto e sem deixar margens à dúvidas: - quem andar comigo tem que respeitar as minhas leis e já fica estabelecido que quem matar criança, quem fizer mal a menina com menos de treze anos a força, se o chefe não matar eu mato e mato quem for contra mim, se ela tiver mais de treze e quiser atracar tudo bem, mas nunca a força.  Se um cabra arranjar mulher e trouxer para viver no bando, ela será respeitada por todos, se alguém desrespeitar e o chefe não matar, eu mato. Seja quem for e de qual bando for. O resto, é da cabeça de cada um, desde que obedeça as ordens do chefe de bando.

     Os bandos começaram a se separar cada um dominando uma região pré estabelecida por Trovulino, Se tinham uma empreitada maior, ele reuniam as forças e partiam para o ataque, a fama do bando se espalhava e o governo começou a aumentar as volantes para perseguir os já chamados: “terror do sertão”, neste tempo melhor organizados, os homens de trovulino eram sempre vitoriosos, trovulino, era fechado e quase nunca sorria, uma de suas peculiaridades era seu ódio a lamparinas acesas, nos acampamentos ele não as admitia, seus irmãos sabiam o motivo, mas não tocavam no assunto, as vezes quando em ataques a fazendas ou pequenos povoados, ele treinava a pontaria atirando nas lamparinas acesas.

     Os chefes mais chegados, alguns já compadres dele lhe perguntavam e ele respondia: “é só para treinar a mão na pontaria” Cangaceiros sempre se davam bem com as mulheres. O apelo poético de uma vida sem eira nem beira onde o individuo tinha o destino dos mais fracos na mão e as mulheres conseguiam alguma liberdade maior do que ficarem casadas cuidando de marido e filhos e ainda ajudando na lavoura. Poucas acompanhavam o bando em suas empreitadas, só as mulheres dos chefes, ou as sem maridos que se juntavam ao cangaço, por provarem ser tão ou mais valentes do que um homem, estas eram tratadas como igual e com o mesmo direito de partilha de todos. Às vezes ficavam gostando de um cabra do bando e chegava a embuchar, mas logo que ficavam livres da barriga, entregavam o rebento para uma comadre criar e voltava à ativa.

     Muitas morriam nas escaramuças com os macacos das volantes, ou eram apanhadas vivas e sofriam toda sorte de abusos antes de serem mortas, quando isto acontecia, recrudesciam os ataques violentos, pois nunca evitavam combates na sanha de vingar a companheira ou um cabra valente que tinha morrido nas mãos dos policiais. Trovulino sempre procurava as quengas, mas nunca ficava mais de uma vez com uma mulher, cachorro mordido de cobra tem medo de lingüiça. Só que o homem está fadado a se apaixonar por um rabo de saias e mesmo tendo experiências ruins com algumas, a sua plena realização só pode acontecer junto a uma mulher.

     Um dia quando seu bando se reuniu com os bandos dos seus primeiros comandados, resolveram fazer algo grande e partiram para atacar uma cidade pequena, mas com muito movimento e riquezas. Era Capoeira do Barão, cidade com vários entroncamentos importantes, mas pouco vigiado, contando com uma delegacia e uma cadeia que ficavam sobre a guarda de um destacamento de oito homens, por que devido à movimentação constante no local, as autoridades não acreditavam na possibilidade de um ataque.

     Num domingo antes de clarear o dia, os oitenta cabras tomaram posição nos principais pontos de fuga e entrada da pequena cidade. Enquanto o bando principal comandado por Trovulino, tomava a delegacia, a cadeia e aprisionaram os policiais dentro das celas. O delegado sem qualquer tipo de reação também foi colocado em uma cela. Alguns dos presos antigos e que agora estavam libertos, resolveram ficar com os cangaceiros, outro pediram permissão para voltarem para suas famílias. Partiram com a promessa de qualquer coisa que Trovulino e seu bando precisassem estariam prontos a fazer. Trovulino e seu bando, o bando de bala doce e o bando de língua presa estavam quase todos montados em bons cavalos, o restante dos homens estavam a pé o que era normal, na maior parte do tempo os cangaceiros andavam assim na caatinga, local as vezes de acesso difícil para os cavalos e com o agravante de consumir muita água, o bem mais precioso no sertão e as vezes difícil de encontrar.

     Foi assim que uma linda mulher que estava na janela da única casa que não estava fechada por medo dos cangaceiros, viu o garboso chefe de cangaço. O chapéu estrelado, suas botas de cano alto o cinturão cartucheira cheio de balas formando um xis no seu peito largo e os olhos com brilho de faca. Ele olhou para ela e fez a montaria se aproximar encostando a montaria bem próxima à janela fazendo-a sentir seu cheiro de suor. Sem falar nada estendeu o braço direito, enlaçando-a e colocando a linda morena na garupa do seu cavalo e saindo a passo em direção a um terreno baldio, onde parou e depois de segurar as mãos da mulher, deixou-a escorregar para o chão e apeou a seguir. Em nenhum momento ela esboçou medo ou desejo de fugir.

     Antes de falar qualquer coisa ele ficou por um bom tempo observando a figura magra, mas de porte que deixava transparecer resistência, saúde e coragem. Depois de se dar por satisfeito falou - quero você para me acompanhar na vida, mas se não quiser, não será forçada e pode voltar para sua casa. Ela respondeu: no momento que sentei na garupa de seu cavalo, eu decidi que aquela não era mais minha casa, vou onde você for eu irei, minha vida começa agora. Foi assim que a mulher do sapateiro largou sua casa e sem olhar para trás ligou seu destino ao mais famoso cangaceiro do sertão. Quando terminaram o trabalho de saque no povoado, desta vez com poucas mortes e nenhuma do lado dos bandoleiros. Eles ganharam as caatingas e como por mágica desapareceram nas grotas sem deixar rastros.

     Trovulino estava vivendo dias, antes nunca vivido por ele. Quando era casado com Juva, ela não lhe dava carinho, talvez por que ele era o marido e a coisa conquistada muitas vezes perde o valor diante de novos desafios; Principalmente para pessoas bem sucedidas na arte da conquista! Com a nova companheira que o bando passou a chamar de Carinha Bonita, já que ela recusou-se a dizer o nome alegando que: se ia começar nova vida, que fosse com novo nome. Ele sentiu que estava sendo apreciado e admirado ela fazia questão de se dedicar a ele tempo integral, nunca dizia estar cansada e sempre que estavam juntos e sozinhos, partiam para a atracação onde ele se realizava e sentia que ela também estava sendo feliz.

     Um dia conversando com a mulher de Bala Doce, já sua comadre! Falou da tristeza que havia nos olhos do seu homem. Joana que sabia através da mulher de Juca da desgraça de Trovulino, contou à Carinha Bonita todo o acontecido e pediu a ela que nunca tocasse no assunto, pois Trovulino mataria até o irmão se soubesse que falavam dele. Carinha Bonita não se conformava de ver seu amado sofrendo e vivia matutando um jeito de livrá-lo da tristeza, com isto mais ainda se dedicou a ele dando-se por inteira e nunca o deixando sozinho, para evitar que ele se lembrasse da tragédia. Certo dia depois de uma luta desgastante com uma volante e tendo sido difícil fugir gastando três dias de desabalada carreira pela caatinga e custado algumas vidas dos cabras, o bando se aproximou de uma casa onde muitas pessoas estavam festejando o são João. Trovulino após ver todos o bando posicionados e prontos para a luta caso fosse preciso, se achegou e depois do alvoroço habitual com as mulheres tentando fugir ele disse – pessoal sou Trovulino, eu e meu bando estamos precisando de diversão, por isto tratem de trazer comida e bebida para todos e rápido, senão eu começo a matar todo mundo. Para não ficar só nas palavras quase sem fazer mira, apontando a papo amarelo como se fosse uma extensão do seu braço, atirou e destruiu a lamparina, deixando só os fachos de bambu cheios de querosene acesos e mandou os festeiros se sentarem em volta da fogueira.

     No mesmo instante o caseiro providenciou tudo o que tinha de comida e bebida para os homens sedentos e famintos que se fartaram com bolos, mandioca cozida e frango fritado. Quando todos estavam satisfeitos e a cachaça já fazia seu efeito provocando nos homens a vontade de desabafar as tensões e já ensaiavam alguns passos de danças, Trovulino pediu educadamente a atenção de todos e falou: - Sanfoneiro organize os pares para dançar quadrilha, quero todo mundo, só as meninas e meninos é que vão pra dentro da casa, tranque as portas e manda-os ficarem deitados no chão e ficarem quietinhos senão eu mando capar todo mundo. Bala Doce caiu na gargalhada e Trovulino perguntou de que ele estava rindo, ele disse – (cumpade, cumé que capa muié?) - Ô chente, capa de rodela compadre e aí todos riram inclusive os moradores das casas, descontraindo o ambiente.

     Organizados os pares, alguns cangaceiros quiseram entrar no meio dos dançarinos, mas Trovulino disse – não! Todos do bando só vão apreciar. Os dançadores serão apenas o povo da festa. O bando ficou meio descontente, mas o chefe falou, não cabia nenhuma discussão. Trovulino mandou o sanfoneiro tocar e quando ele começou, o marcador da quadrilha deu as ordens, - organizar os pares, os homens se colocaram na frente das mulheres e ele falou de novo, balanceia, Trovulino gritou, - pode parar, deixe que eu mesmo marco. – Espiche o fole sanfoneiro, Os homens em frente das mulheres, balanceia, olhem a recuada, os homens se afastaram um pouco e ele deixou o povo marcando passo. Gritou podem parar!

     Não está bom, vamos fazer assim, todo mundo tira a roupa, o pessoal começou a demorar, ele puxou o parabello e deu um tiro para o alto, no mesmo instante, todo mundo ficou peladão. O povo com as mãos tentavam tapar as vergonhas dependuradas, mas Trovulino já mandou o sanfoneiro tocar e recomeçou a marcação, quando gritou balanceia, foi uma gargalhada geral da platéia. Alguns homens tinham o chicote muito grande e quando balançavam, era motivo para o delírio dos cangaceiros e as mulheres com os seios caídos, completavam o quadro. Trovulino deixou os pares batendo os pés enquanto comandava, olha a cadência, balanceia, de repente mandou parar de novo, - não está bom falou, tem que melhorar, faça assim; um dedo na boca, outro no tobróis... Não sabem o que é tobróis? Tobróis é o que se diz na linha do vento em repente é: “rusguento, fedorento, catinguento, bexiguento e fazedor de vento”. Tem mais! Por exemplo: na linha do bambu, tem jaburu, fuzu e o... Melhor não escrever aqui, os leitores podem pensar que este é um livro, de besteiras.

     Mas é isto aí. Um dedo na boca outro no tobróis, aí a moçada mandou ver, quando o sanfoneiro começou a tocar, ele gritou pode parar. Ta errada é um dedo na boca, outro no tobróis do que está na frente, aí todo mundo mandou o dedo em quem estava na frente, depois de olhar que todos estavam endedados, ele recomeçou a marcação, balanceia, recuar, em frente.

     O pessoal morrendo de medo gingava, os cangaceiros rolavam no chão de tanto rir. E Trovulino comandava. Passar na pinguela, “pinguela é um pau lavrado de um lado e colocado em cima de valas ou córregos para travessia. "Foi aí que Trovulino inventou a tal de dança chamada xaxado, o povo só podia atravessar a pinguela com um pé à frente e o outro pé atrás em linha, dai em diante o povo repetia este passo e criou-se a dança". Fazer a volta, passar na pinguela de novo, ta chovendo é mentira, marcar passo. Todo mundo naquela situação difícil, mas o medo fazia com que ficassem dançando sem reclamar. Trovulino pediu uma dose de cachaça e depois de tomar, recomeçou a dança comandando, recuar, em frente, fechar a roda, a roda se fechou e ele gritou! Marcar passo, cadenciando, trocar de dedo... Aí tinha um caboclo que viu aquele dedo sujo de caca falou - ta danado! Trovulino ouviu e perguntou: - danado de que seu cabra? E o cabra apertado respondeu: - (danado de bão seu Trovulino). Nisto o vigia gritou, - macacos! Na mesma hora os cangaceiros correram para as posições combinadas e o tiroteio começou, enquanto atiravam, recuavam e aos poucos foram se embrenhando na caatinga até se perderem na noite.

     Carinha Bonita, quando o bando parou numa grota de difícil acesso e aonde os macacos não chegavam, resolveu acabar de vez com a tristeza do seu cangaceiro e pedindo a atenção falou: - Pessoal, quero propor um novo nome para o maior cangaceiro deste sertão, quero que Trovulino a partir de agora seja chamado de Lampião. Na hora que ela falou, Trovulino se levantou como um gato e pronto para acabar com a mulher pensando que ela ia fazer gozação com ele, mas ela esperta continuou, eu explico. Lá na casa das danças quando chegaram os macacos, este homem puxando a cordinha amarrada no cão da sua papo amarelo dava tanto tiro que a boca da arma parecia um clarão iluminando tudo. Esta valentia merece um nome que rime com sertão, “Lampião o maior cangaceiro do sertão”.

     O bando todo se levantou gritando viva Lampião! Trovulino vendo isto e pensando que de certa forma era uma promoção, “de lamparina para Clarião, melhorava bem e ninguém ia mais se lembrar do caso passado na sua terra”, falou: - Aceito a partir de agora eu sou o Lampião e mudo meu nome verdadeiro para Capitão Trovulino Lampião e dou meu nome a esta minha mulher que provou ser boa de tudo de “Carinha Bonita, para Maria Bonita rainha do cangaço”. Foi assim que acabou a tristeza de Trovulino que viveu até o dia que os macacos o emboscaram e crivaram-no e grande parte do seu bando de balas cortando-lhes as cabeças para exposição em praça publica.

     Foi o fim da vida e o começo da lenda que deverá viver enquanto o mundo sobreviver. Depois da sua morte, ele passou um tempo sem sentir, sem ver ou ouvir nada. De repente despertou e se viu num lugar tão belo que não havia como descrevê-lo, viu-se rodeado de seres que irradiavam luz e quando olhou para seu corpo espantou-se por se ver como os outros que ali estavam. Aos poucos foi recordando tudo o que tinha acontecido na vida passada e em outras das suas vidas como encarnado. Foi reconhecendo as pessoas que lá estavam, sentada no centro do círculo viu Juva, vestida como uma rainha, tão linda como nunca a vira antes, e reconheceu nela o anjo das luzes do arco íris, Com um gesto pedindo atenção, ela falou. - Meu amigo, não fique constrangido, a maior parte da missão era sua e a cumpriu bem. Todos os que saíram da missão, desencarnados por suas mãos, são seres de luz muito desenvolvidas e já partiram para outras missões que vão iluminá-los mais, e todos acrescentaram pontos de luz à sua existência.

     O preço que você vai pagar, por ter cumprido a missão tão bem é a regressão na sua luz. Aí ele recordou tudo, ele era o anjo Felício, ainda não era um anjo muito iluminado, embora tivesse acesso aos grandes chefões era só um ajudante aspirando um cargo maior. A chance surgiu quando resolveram realizar uma missão de conscientização do povo Brasileiro de sua coragem e que eles podiam lutar e enfrentar os poderosos para isto fora elaborado aquele plano. O povo vendo um homem comandando um exército de bandoleiros criaria coragem para fazer o mesmo, mas repudiando a violência que fora usada pelos cangaceiros.

     Só não entendeu por que, se cumpriu bem a missão, ele tinha regredido na sua luz? Aí o anjos das sete cores, explicou: - a missão lhe foi dada por ser um anjo em ascensão e não muito burro, mas você extrapolou por ser muito atirado, exemplo: não era para você matar o português, eu e o pistoleiro, era para nos perdoar e ficar com os chifres, uma bobagem tola e você não aceitou, resolveu na violência. Quanto aos que você matou guerreando, estava previsto, mas aquela de marcar quadrilha e mandar os caras enfiar o dedão nos fiofós um do outro fez você perder cem pontos de luz. Por isto terá que reencarnar de novo. Vai renascer em vinte e nove de abril de mil novecentos e cinquenta e três e quando crescer vai ser trovador e será manso de coração e se levar chifre de novo vai ser corno manso. Terá que ser manso a vida inteira, só assim é que vai recuperar sua luz, ganhar mais pontos e a classificação de meio oficial de limpeza na casa dos anjos chefes. Como manda quem pode e obedece quem tem juízo... Vai Felício.

     Felício aproveitou para visitar os camaradas que tinham participado da missão com ele, fez questão de procurar por “Solsóia o anjo pequeno” que tinha atuado como Maria Bonita, mas ficou sabendo ter ela já se reencarnado e não pode vê-la, encontrou o anjo Jeeli que tinha feito o papel de S R S. Perdeu logo a calma com ele que era um anjo gozador e veio logo tirando uma com sua cara chamando-o de corno acostumado. Visitou outros camaradas que ainda estavam aguardando ordem de embarque para reencarnarem e depois andou vendo antigas namoradas até quando chegou sua hora de reencarnar.

 

     O galo cantou numa biboca chamada Pega Bem, “por que lá tinha muito ladrão de cavalos” uma jovem senhora loura de olhos muito azuis entrou em trabalho de parto, ao amanhecer nasceu Miro Perroud Berbeth de Mendonça, futuro trovador em missão de pagar pecados de outra encarnação. Cresceu na maior pobreza e só começou a ser notado, aos quinze anos, quando começou a namorar e se transformar em homem, até esta idade, já tinha expiado todos os seus pecados e sobrava crédito por viver numa pobreza total e sem se queixar, como a maioria dos brasileiros, que não deveriam ser obrigados a rezar, pois vivem para isto: “pagar pecados que outros cometem”. Outros tais que são ricos, têm tanto e tiram de quem não tem nada, para serem mais ricos e seus pecados ficam também na conta dos pobres que vão pagando, expiando, sofrendo, morrendo e renascendo, e morrendo de novo. Afinal, de qual lado estão os deuses?

FIM


A CACA DA VELHA

Os nomes escritos aqui são fictícios com exceção do Sr. Manuel Xavier a quem devo um grande respeito e que já não está entre nós. À viação Pássaro Verde e Viação São Geraldo, ambas criadas em Caratinga, Pioneiras dos tempos de estradas sem asfalto, certamente participaram de histórias incríveis. No entanto embora a viagem tenha existido ela não se passou exatamente assim, e são recordações de uma cidade que ainda amo muito
. xiiii esta até já contei, então e isto galerinha quem tiver tempo de ler. desculpem novamente escrever este tantão. Um abraço
Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 13/12/2018
Código do texto: T6526184
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