APARECIDO DESAPARECEU

Duas semanas de ausência do seu lugar de convívio favorito bastaram para alguém perguntar:

— Vocês têm visto o Aparecido? — Faz mais de mês que ele não aparece por aqui.

—Tem razão – disse outro – já estamos no fim de setembro e desde o começo de agosto que Aparecido não aparece.

— Em agosto ele veio sim – gritou alguém nos fundos do bar – lembram da discussão dele com o “Lingüiça”?

“Lingüiça” e Aparecido são inseparáveis. Dizem os amigos que um não é visto sem o outro nem em foto três por quatro, portanto uma discussão entre os dois é um evento raro e inesquecível.

Aparecido tem algumas idéias pouco convencionais. Enquanto o mundo aposta no desenvolvimento do veículo elétrico como um paliativo para o impacto ambiental, Aparecido pensa diferente.

— Imagine – provocou “lingüiça” – um carro sem barulho e sem fumaça que a gente abastece na tomada da própria garagem.

—Com o dinheiro de um litro de gasolina nós vamos andar de carro o mês inteiro!

— Só você mesmo para não querer! – finalizou olhando para Aparecido.

— Ai é que está! – Aparecido falou – você só está pensando no próprio bolso, o abastecimento vai ser barato? Ele mesmo respondeu levantando um dedo simbolizando o número um. — Vai! — Não vai ter fumaça e nem barulho? — Não! – Mostrou dois dedos. — Vai ser bom para o meio ambiente? – Desta vez ele fechou a mão sem mostrar número nenhum e continuou:

— Eu não acho! — Para produzir baterias potentes e em grande quantidade vamos ter imensos campos de extração de minérios e indústrias altamente poluidoras.

— Quem já viu documentários sobre garimpos na TV?

Aparecido fez a pergunta, mas não esperou a resposta e continuou falando: — Eu assisti na TV caminhões gigantes carregando milhares de toneladas de terra e pedras que foram trituradas, lavadas e misturadas a reagentes químicos para sobrar no fim alguns míseros quilinhos de metal.

— A paisagem do lugar então!

—Nem parece que é do nosso planeta!

Ora Aparecido! – aparteou “Lingüiça” – você gosta mesmo é de ser “do contra”, aposto que se eu falasse que prefiro os carros á gasolina você ia ser a favor do carro elétrico.

— Você é que está a fim de discordar de mim – disse Aparecido – eu não falo de carros à gasolina eu falo de motores à explosão.

— Pelo menos aqui no Brasil nós temos outros combustíveis além da gasolina, e por anos e anos motores e combustíveis foram aperfeiçoados e estão mais eficientes e menos poluidores.

— Você mesmo vive falando que aquele seu carrinho com “motor mil” faz 18 km por litro na estrada e eu acredito. Afinal nós somos amigos e ser amigo é acreditar nas mentiras do outro.

— Reconheço que a mineração destrói e polui, mas o carro com motor a explosão também é feito de metais e usa bateria – insistiu “Lingüiça”. — Muitos agricultores deixaram de cultivar alimentos para plantar cana e fabricar álcool para os motores.

— Além disso, até a poeira das estradas rurais em regiões de cultivo de cana por onde tenho passado tem cheiro de veneno. — Fenômeno que não combina com o que dizem os documentários sobre melhoramento genético, variedades resistentes a pragas, controle biológico e etc.

— É verdade – admitiu Aparecido –, mas cada vez mais os fabricantes de carro reduzem a quantidade de metais, usam plásticos e borracha onde podem e com a eletrônica os carros pegam mais fácil na partida e isso aumenta a vida da bateria.

— Sem falar que a bateria para dar a partida no motor á explosão é bem menor que uma bateria para mover um carro elétrico e se a cana não for utilizada na produção de álcool para os carros ela será usada na produção de açúcar e pinga, Portanto não deixará de ser plantada.

— A bateriazinha de computadores e de telefones tem levado o mundo a fazer campanhas de descarte consciente, porque eles sabem do perigo que elas representam, agora aumente o tamanho delas até poder movimentar um carro e depois multiplique pela quantidade de carros existente e verá o resultado.

— Sinceramente – disse “Lingüiça” – alguma coisa do que você falou faz sentido, mas “na real mesmo” você está parecendo apresentador de programa de receitas quando vai provar a comida e antes da porção chegar á boca já faz aquela cara de quem está provando uma coisa deliciosa. Não importa se for sorvete de jiló, caramujo flambado ou pastel de chuchu sem sal assado no forno de microondas porque fritura faz mal á saúde.

— Você não tem carro, anda de bicicleta e mora perto do serviço então o gasto com combustível não faz parte da sua realidade. — Quem gasta todo mês a metade do que ganha só para ir trabalhar é que sabe.

—Apesar de que em parte você está certo – admitiu “lingüiça”– eu soube de uma cidade e seu entorno que foram destruídos por um acidente com rejeitos de mineração e de vez em quando temos notícias de bairros inteiros declarados inabitáveis próximos a fábricas de baterias.

—Mas o desenvolvimento do veículo elétrico não está em nossas mãos e acontecerá independente da sua vontade ou da minha – finalizou “Lingüiça”.

— Eu vou fazer a minha parte – disse Aparecido – eu tenho um dossiê mostrando com detalhes tudo o que eu disse aqui e pretendo enviar para as autoridades lá de Brasília. Não custa nada tentar “é ou não é?”.

Foi a última coisa dita por Aparecido antes de se despedir e deixar o bar a caminho de casa naquela noite.

Agora, a ausência prolongada de Aparecido no bar do “Seu João” preocupou “Lingüiça”.

—Eu vou a casa dele – falou – se ele ficou chateado comigo eu pedirei desculpas, e se ele estiver doente ou com algum problema familiar eu ajudarei no que puder.

— “Seu João”! Guarde uma bem gelada aí! Eu já volto com Aparecido e vamos tomar juntos.

Vinte minutos depois “Lingüiça voltou: — Não tem ninguém lá! A casa está fechada!

—Perguntei aos vizinhos e nenhum soube informar nada, disseram apenas que faz duas semanas que a casa está fechada e não se vê ninguém por lá. — A “dona Cida” da casa em frente recolhe a correspondência e os folhetos de supermercado que jogam no quintal, mas também não sabe de nada.

A família de Aparecido é formada por ele, Raimunda a esposa, e Sebastiana a sogra que foi morar com a filha e o genro logo depois do falecimento do marido em um acidente. Raimunda faz bolos e salgados por encomenda e Sebastiana ajuda como pode, portanto os vizinhos já se habituaram a ver sempre alguém na casa mesmo quando Aparecido está no trabalho ou no bar do “Seu João”.

São moradores antigos e queridos na vizinhança e certamente alguém saberia se algo acontecesse, mas além do estranhamento geral nada se apurou com os vizinhos.

— Aparecido desapareceu – concluiu “Lingüiça” – Ele a mulher e a sogra.

— Será que ele enviou o tal dossiê e por causa disso sumiram com ele? –Falou “Seu João” – Vai ver ele estava certo e para impedirem dele espalhar as suas idéias por ai alguma dessas organizações poderosas seqüestrou nosso amigo e a família na calada da noite.

— Sardinha nunca deve nadar em águas de tubarão – disse “Lingüiça” – Aparecido devia apenas aceitar as coisas como são e pronto. “Tá na cara” que deram um fim nele e na sua família.

— O resumo da nossa existência é assim, o governo conta, a imprensa divulga e a gente acredita ou apenas aceita e se conforma calado. — Esta é a ordem natural das coisas.

— Vai ser do contra é nisso que dá!

— Calma – falou “Seu João”– nós não sabemos o que aconteceu, vamos procurar saber primeiro.

— E depois, esse negócio de ser contra o carro elétrico é só mais uma conversa de bêbado. — Vê lá se alguém ia “dar bola pra isso”! — No meu balcão todo dia tem gente querendo mudar o mundo e a única conseqüência disso é a ressaca no outro dia. — O único caso mais sério até hoje foi quando o “Tião” uma madrugada dessas ao ir do bar para casa encontrou a casa vazia e um bilhete de despedida da mulher, mas dizem por ai que ele mereceu. Ele sempre chegava bêbado em casa e ainda batia nela se ela reclamasse.

— O “Tião ficou ainda alguns meses na casa até ser despejado pelo senhorio por não pagar os aluguéis e agora vive na rua. — Ouvi falar que antes quem pagava as contas da casa era a mulher dele.

—Mas “Seu João” – interrompeu ”Lingüiça”– e o Aparecido? — Precisamos procurar o nosso amigo, se alguma coisa aconteceu com ele precisamos saber e ajudar se ainda der tempo.

— Não quero nem pensar no que estou pensando! — Ele saiu por ai falando mal do carro elétrico e “silenciaram ele”. E certamente a esposa e a sogra viram alguma coisa e “dançaram” também para não sobrar testemunhas.

— Talvez o tal dossiê que ele falou envolvia algum figurão – Disse uma voz na ponta do balcão.

— Entre as lendas não oficiais do Brasil – continuou “Lingüiça” – existe uma de um sujeito que fez um carro movido á água e quando quis apresentar a sua invenção ao mundo desapareceu misteriosamente e nunca mais se soube nada dele, do carro ou da família. — Eu mesmo não o conheço, mas parece que foi uma pessoa bastante conhecida e que gostava de viajar. — Todos os que ouvi contar essa estória afirmam tê-lo conhecido pessoalmente em locais diferentes e distantes.

— Eu tenho um plano – voltou á falar “Lingüiça” – a Rua de Aparecido é bastante tranqüila então amanhã bem cedo eu vou lá investigar. — Domingo poucas pessoas saem cedo de casa, então não vai ter ninguém bisbilhotando. — O portão está destrancado que eu já vi. — Então vou para os fundos do quintal e abro a porta da cozinha com a chave que ele esconde debaixo do vaso de samambaia.

— Como o muro é alto depois que eu entrar ninguém vai me ver e eu vou tentar descobrir alguma pista do lado de dentro da casa.

— Porque esperar até amanhã de manhã? – Perguntou “Seu João”. — Agora á noite quase não tem ninguém na rua. — Com este friozinho que está fazendo até o bar está vazio hoje.

— Sabe de uma coisa “Seu João” entrar em casas fechadas á noite dá certo no cinema, mas não na vida real – falou “lingüiça”. — Para enxergar á noite na casa escura eu acenderia uma lanterna ou as luzes e tanto uma como outra seriam vistas de longe na escuridão da noite pelos vizinhos que já sabem que não tem ninguém lá. Portanto eu acho melhor de dia quando poderei ver melhor e chamarei menos atenção.

— Vou de manhã sem fazer barulho e saio antes que algum vizinho acorde e me veja.

— Nunca pensei desta forma, mas você está certo– “Seu João disse” – eu vou junto, nós dois seremos mais rápidos e teremos uma chance maior de encontrar alguma coisa.

Foi assim que no domingo de manhã “Seu João” e “lingüiça” entraram na casa de Aparecido.

Dentro da casa não havia vestígios de luta nem cheiros estranhos.

Após uma rápida busca, retiraram alguns maços de papéis de uma gaveta na sala, puseram sobre a mesinha de centro e sentados no sofá começaram a examiná-los quando ouviram um barulho de chave sendo introduzida na porta da frente.

Não tiveram tempo para nada, Aparecido abriu a porta, entrou seguido da esposa e da sogra e deparou-se com os dois sentados no sofá, cada um com um punhado de papéis na mão e mais uma porção deles espalhados sobre a mesinha.

— O que é isso! — Logo vocês que eu considerava meus amigos invadindo e revirando a minha casa!

Os dois amigos não ouviram o que disse Aparecido, em vez disso se lançaram de encontro a ele e o abraçaram.

—Aparecido! – Exclamou “Lingüiça”– Você está bem? — O que aconteceu com vocês que sumiram de repente? – Ele perguntou após cumprimentar também as duas senhoras.

— Eu precisei viajar ás pressas e não deu tempo de avisar – esclareceu Aparecido. —Um tio meu que mora em Rio do Ouro faleceu e tivemos que viajar naquela noite mesmo para aproveitar o último ônibus para lá senão não dava tempo de acompanhar o funeral.

— Para encurtar a conversa, titio tinha posses e não tinha outros parentes. — Agora vocês dois estão olhando para um homem rico!

“Seu João” e “lingüiça” contaram aos recém chegados os acontecimentos que culminaram com os dois sendo flagrados na sala de Aparecido e este depois de rir um bocado dos dois disse:

— O tal dossiê nunca existiu e eu sei que não é este ou aquele veículo que vai fazer nosso mundo melhor ou pior. — Eu mesmo bebi tanto aquela noite que nem lembro as bobagens que eu disse.

— Loucura mesmo – continuou ele – é vocês desenvolverem uma trama imaginária com agentes secretos e espiões de multinacionais dando cabo de mim e da minha família na calada da noite e ainda por cima os dois invadirem minha casa para investigar.

— Agora se meus amigos “agentes secretos invasores de residência alheia” – disse Aparecido fazendo o sinal de aspas com os dedos levantados – derem licença eu gostaria de dormir um pouco porque viajamos a noite toda.

“Lingüiça” e “Seu João” abraçaram o amigo mais uma vez e despediram-se das duas senhoras.

Caminhavam pela calçada em direção ao bar quando “Lingüiça” perguntou:

— Já ouviu falar de Rio do Ouro “Seu João”?

— Eu? —Eu nunca, e você?

— Eu? —Eu não, eu acho que esse lugar nem existe!

— Como era mesmo o nome do tio de Aparecido?

— Ele não falou, Falou?

— Falou! — Não falou?

— Não, não falou.

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Enviado por zedebri em 15/12/2019
Reeditado em 16/12/2019
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