O QUARTO 37

O quarto estava trancado por dentro. Eduardo batia à porta com mais força, gritando para saber se os hóspedes estariam lá dentro. Fazia duas semanas que não saiam. Quem ia visitar a cidade de São Sebastião, no litoral de São Paulo, não se daria ao luxo de perder um dia sequer de sol e mar.

Aquela noite os trovões ecoavam como gatos no cio quando Eduardo, o dono da pousada Luz do Amanhã, resolveu subir ao quarto 37.

-Senhor David, senhora Magie? Está tudo bem? Vocês estão aí? –ninguém respondeu.

Eduardo encostou seu ouvido na porta para tentar ouvir algum sinal dos dois. Nada. De súbito, as luzes do corredor do terceiro andar apagaram por completo, talvez com a queda de um forte raio.

O empresário olhou pela janela, apavorado, e viu a luz de outro raio, agora, sem nenhum trovão, cruzar o céu. Era uma verdadeira tempestade de luzes lá fora. Dentro de seu hotel, porém a mais absoluta escuridão.

Precisava descer e tentar consertar o disjuntor que, talvez, desarmara. Era necessário descer até o porão para tanto. Havia alguns hóspedes no primeiro e segundo andares que tinham saído para jantar fora e logo chegariam, com certeza. Tudo precisava ficar em ordem, tudo em ordem...vinte anos de hotelaria, tudo em ordem, progresso, progresso.

Tudo certo, mas algo estava fora de ordem. Os jovens do quarto 37. Saíra do normal. E agora?

De súbito, ouviu um rangido de porta. Olhou para trás. A porta do quarto dos jovens se abrira. Devagar...

Mas não havia ninguém.

Eduardo deu um passo, cuidadoso. Espreitou no canto direito do corredor.

-Tem alguém aí dentro?

Silêncio.

Eduardo não tinha escolha. Alguma coisa tinha saído de errado com aquele casal. No momento em que olhou novamente para dentro do quarto viu outra luz de raio iluminar o seu interior, vindo da janela, escancarada. A cortina branca parecia estar rasgada, com algumas manchas vermelhas. Sangue, sangue. Oh, meu Deus. Desordem, desordem! Não, não. Polícia não!

Hesitou por um momento. Poderia resolver aquilo sem alguma autoridade? Não, isso não era bem sensato. Desarmado. Não.

Mas e se os dois tivessem só brigado? Sim, tensões eram as maiores causas da desordem! Ou quem sabe um assalto? Isso sim, provável ter ocorrido, ainda mais em janeiro, galera bebendo...

E, tinha um detalhe que os jovens do quarto não tinham percebido. Quase Eduardo podia sentir o gosto amargo do arrependimento subir à boca. Do lado da janela daquele quarto tinha uma árvore enorme que praticamente entrava no interior dele. Já lhe passara pela cabeça desativar aquele quarto. Duas tentativas frustradas de assaltos já haviam ocorrido lá. Ai, ai.

Enfim, afastou esse pensamento. Meramente instintivo, não positivista. (Que o teólogo, o santo Comte, me perdoe, por favor meu senhor!).

E resolveu: entraria. Ao colocar um pé dentro do ambiente, um vulto saiu pela janela. Ele correu atrás e viu o que era: um gato escuro descia se agarrando nas paredes, para não se espatifar no chão.

- Meu Deus, que gato é esse? Parece uma bola de pêlos – sorriu, aliviado.

A chuva começou a cair mais forte, naquele instante. Algo parecia se mover dentro do banheiro. Eduardo foi caminhando, sorrateiramente e, graças à outra luz da tempestade, viu uma grande e asquerosa lagartixa subir a parede. Não era nada, novamente. Sua mente estava lhe pregando peças. Passou a mão na sua testa, atemorizado. Percebeu uma pequena gota de suor escorrer. A tensão, provocada pela sensação de medo tentava o dominar. Precisava se controlar. Mas não podia ficar parado, vendo o mundo se mover. Alguém estava o colocando naquilo, seja lá o que fosse.

-Droga, o que é isso? Cadê esses dois? Estou encrencado. Preciso avisar a polícia.

Tremendo, olhos repassando o ambiente, Eduardo arrancou o celular do bolso. Não conseguiria digitar e olhar ao mesmo tempo.

Um estrondo impediu-o de qualquer coisa, agora vindo do teto. A televisão, que ficava em um suporte, ligou sozinha. Ela estava fora do ar e muito alta. Ela se desligou, em seguida.

“Como isso pode acontecer, está sem luz? Droga, estou vendo coisas”.

Tinha que sair dali.

Desceu ao porão, correndo. Na escada, entre o terceiro e segundo viu alguém entrar no quarto 23. A porta bateu com força. Eduardo parou. Ficou imóvel. Sentiu suas pernas retesarem. Ouviu um grito feminino e apavorado.

Um miado de um gato, em baixo de seus pés. Quando abaixou o olhar percebeu o gato cinza esfregando-se em seu tornozelo direito. O comerciante tentou abaixar para pegá-lo no colo, quando o gato se esquivou. Os olhos dele pareciam chamas de fogo, brilhando na escuridão do corredor silencioso. Ele se foi, correndo.

Novos gritos interromperam o silêncio. Eduardo decidiu que não entraria lá. Não podia fazer nada. Teria algo a fazer. Descer para telefonar. Descer para telefonar. A polícia traria a ordem à tona. Só ela, só ela.

Mas, no hall de entrada da pousada a escuridão.

A infame escuridão!

Pegou uma vela na gaveta. Olhou para trás para ver se havia alguém. Tudo tranquilo. Sim, como iria ficar, já. Ordem, ordem!

Mas...

Uma fumaça começava a descer as escadas.

Na, não. Minha pousada. Não!

Tremendo de ódio, acendeu a vela, segurando-a na altura de seu ombro.

Controle-se, tem que ligar! Quando pegou o aparelho do telefone em sua mesa, sentiu algo na mão. Era um verme rastejando e subindo por seu dedo indicador. Eduardo gritou de susto e sacudiu a mão até ele cair no chão.

Ao descer com a vela para iluminar o solo, teve uma visão assustadora, a garota do quarto 37 estava estirada no chão. O corpo dela em estado de decomposição avançada.

O coração de Eduardo era o símbolo do caos. Não, não, não! Veio a falta de ar.

E, para piorar, a fumaça que descia aumentava ainda mais.

Eduardo correu dali. Precisava fugir.

"O celular. Posso sair daqui e chamar a polícia do lado de fora".

Mas, quando colocou a mão no bolso, não sentiu o aparelho. Não estava mais lá. Ouviu uma música conhecida. Era de seu celular, com certeza. Ela vinha da escadaria.

-Preciso sair. Droga! (Fica aí essa porcaria, preciso fugir, ao assassino está aqui. Está perto, perto, muito perto. E eu desarmado. Não posso estabelecer a ordem. Droga!).

Quando desceu para pegar seu carro, viu que não tinha trazido a chave. Resolveu que não subiria para pegar, era muito arriscado. Tinha que ir correndo mesmo.

Correu. Sentiu que não tinha mais controle de suas pernas. O suor agora escorria em todo o seu corpo.

A tensão não tinha mais limites. O terror penetrava no fundo de sua alma. O vento forte empurrava as grossas e doloridas gotas de chuva contra seus olhos.

Não conseguia enxergar mais nada à frente. Suas pernas não paravam mais, fluíam como a água da chuva escorrendo pela terra barrenta, lamacenta.

As imagens do verme e da moça inquietavam a mente. Desregradas, elas sempre voltavam, o caos era assim, um inimigo íntimo, rastejante! Não! Ele apertou os olhos para ver se enxergava melhor. Aquilo era o real, ao estaria enxergando e resolveria aquele pequeno detalhe.

Mas, não adiantou. Nada era simples. Droga. Nada se resolvia. Nem pequenas coisinhas.

Porém, ainda que quase sem visibilidade, subitamente, percebeu um clarão à frente. A chuva tinha parado. A noite se aquietado. A paz queria retornar.

Então, conseguia ver melhor. Era um carro que acabara de parar à frente.

-Senhor Eduardo! Tudo bem? Está ferido? –disse a moça do quarto 23, ao lado do marido, o senhor Valcir. Era o casal que havia saído, tinham voltado do passeio, pensou Eduardo.

-Sim, agora está –a voz saiu como um sussurro.

-Entre, lhe daremos uma carona, para onde está indo, cadê seu carro?

-Olha vocês não podem ir à pousada agora, estão me entendendo! –(o desespero o tomava. Novamente? Droga). – Tem um assassino na pousada! Um bandido!

- Como assim? – Disse Valcir. – Peraí – E sacou um revólver do porta-luvas do carro.

-Vamos até lá, venha. Entre no carro –Disse Valcir.

A moça desceu e abriu a porta traseira.

-Está bem – Eduardo concordou. Tinha que resolver aquilo. E agora, em três talvez tivessem uma chance.

Entrou tremendo no carro e, arqueou-se próximo ao ouvido do motorista.

-Devemos ficar longe da pousada, ok? À espreita, observando. Vamos pegar aquele canalha assim que ele sair. Que tal?

-Ok. Mas o que houve? –perguntou a moça.

-Não sei, mas, uma das hóspedes está morta. Eu não sei o que aconteceu, mas, alguém quis me expulsar de lá à força.

-Certo. Temos que manter a calma – disse Valcir.

De súbito, um carro colidiu na lateral deles. Eduardo foi lançado para a esquerda e bateu com a cabeça no vidro. Olhou e percebeu um pouco de sangue escorrendo pela testa.

Quando Eduardo olhou não avistou ninguém dirigindo o veículo. Talvez tenha sido solto por alguém da ribanceira.

Então o Valcir saiu do carro.

-Não saia, amor, é perigoso.

-Calma Cintia, fique tranqüila só vou ver quem fez isso. Ele vai se ver comigo.

-Não vá, meu amorzinho!

Eduardo e Cintia seguiram Valcir. Ele subia a ribanceira rapidamente. Já ao seu lado, Eduardo viu algo se mexer dentro do matagal. O que ou quem fosse já havia ido embora.

Quando voltavam ao carro, uma explosão.

Vinha da pousada.

Quando se viraram viram-na arder em chamas. O fogo consumiria a construção de madeira em segundos, pensou Eduardo.

-Não, não, não!

O sonho construído há anos estava indo pelos ares. Tudo estava perdido.

Em total desânimo, Eduardo resolveu descer do carro. Abaixou a cabeça, e ao olhar para o chão percebeu um bilhete. A letra estava corrida, o papel manchado com sangue.

“Desculpe-nos pelo que fiz. Pelo susto que lhe dei, mas, não tive outra alternativa para tirá-lo daqui. Você não saía de jeito nenhum, então tive que fazer tudo isso. Quando estiver lendo esse bilhete saiba que estou longe. Muito longe. Não quero que fique com raiva. Mandarei um dinheiro para cobrir as despesas da construção de uma nova pousada, um hotel, quem sabe, para evitar incêndios, não é? Enfim, para que saiba, tive que matar minha esposa porque ela tinha descoberto minha traição com uma garota levada aí dessa pensão. A moça do quarto 23. Cuidado com ela, ela é uma safadinha. Casada com esse senhor de idade por dinheiro. Bem, eu também casei com minha mulher por dinheiro. Mas eu, pelo menos, assumo, não é? Sou safado mesmo! Mas, enfim, não deixaria que minha esposa ferrasse comigo, droga. Você me entende? Ela era rica, minha esposa. Muito rica, mesmo. Eu perderia tudo, tudo! Sei que sou culpado, mas não tinha outra alternativa. E, para aliviar minha culpa, só pensei nisso. Em escrever essa carta para que um dia você a divulgue. Um crime por dinheiro, para se manter uma vida de luta. Ela não tinha que me ver, não! Então sofreu. Assim é com quem quer buscar a verdade. Ela dói muito. Essa é a mensagem que quero passar às gerações. Sou um profeta, eu sei. São Sebastião, 15 de setembro de 1945”.

Um mês depois, Eduardo estava acabando de passar a última mão da pintura que fazia com um rolo afixado num cabo de vassoura. Alguém lhe tocou por trás.

Era uma jovem garota, ruiva.

-Olá, tudo bem, senhor?

-Sim. Posso ajudá-la?

-Acho que sim. Sabe, vim procurá-lo porque queria saber onde está minha mãe. Ela veio para esse lugar com meu pai e sumiu. Meu pai também. E o dinheiro também.

-Hum...certo...

-Pode me dizer o que houve aqui?

-Nada, querida, você tem certeza que sua mãe veio pra cá?

-Tenho, ela tinha uma mensagem em seu correio de email que visitaria essa pousada. Tinha até pago a reserva conforme verifiquei.

-Certo. É verdade, moça. Eles estiveram aqui sim, mas foram embora. Pareciam dois pombinhos!

-Ah, tem certeza?

-Sim.

Eduardo virou-se para as paredes do agora hotel construído rapidamente com as verbas do homem generoso do quarto 37.

Continuou a sua tranqüila pintura no doce e ameno fim de tarde, daquela primavera. Os pássaros entoavam uma canção bela e contínua. A vida, mesmo com um lapso, continuava. Sorriu, muito aliviado, olhando a filha do casal do desastre subindo em um carrão de gran fino.

Sim, tudo estava em ordem.

Ouvia o ronco do motor se afastar e o som da tranqüilidade reinar novamente. Paz, paz, paz!

A carta estivera guardada no meu cofre.

Eu escrevi essa história e guardei a carta como prova de tudo o que aconteceu. Senão colocariam a culpa em mim. Não isso, não! Então, já que o que importam são as mensagem, que ela fique registrada a todos de gerações futuras, a quem possa importar!

Alexandre Scarpa
Enviado por Alexandre Scarpa em 01/10/2018
Código do texto: T6464508
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