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Eu Estou Morto!

Minha cara Lucy, minha amada Lucy, venho por meio desta carta te informar sobre o que aconteceu comigo desde o meu primeiro caso, que foi bem recente, recente e mal solucionado, ainda continua sendo um mistério o meu primeiro caso, mas vamos para o que importa, o meu segundo caso, mais um caso para o detetive Chrystian White.

Estava em meu escritório particular dando uma bela refeição para o mestre Doodles, quando o telefone toca... Era uma mulher que falava de modo desesperado...
- Tem um fantasma em minha casa, senhor White, me ajude, por favor...
- Calma, calma, não se preocupe, me passe o seu endereço que irei à sua casa.

Fui à casa da dona, Miranda. Ela me recebeu de braços abertos, literalmente, me abraçando ela dizia que estava apavorada, que havia um fantasma em sua casa, me convidou para entrar e me ofereceu um café, aceitei de bom grado e ouvi sua história. Ela disse que toda vez que ia dormir, ouvia uma voz que sempre dizia: “Eu estou morto! ”. Ao ouvir essa voz, ela dizia que era um fantasma, um espírito atormentado que não conseguiu atravessar para o “outro lado”, e vou ser sincero, não acredito em fantasmas e espíritos, mas aceitei ajudá-la e desvendar esse mistério.

Voltei para casa e mestre Doodles estava em cima da minha mesa de trabalho, brincando, como sempre, eu peguei o gato da mesa e coloquei-o no chão. Liguei o rádio e logo uma notícia falava sobre um homem que foi baleado...

“Um homem foi baleado esta manhã, um pai de família que voltava de uma caminhada, foi surpreendido por um bandido que queria roubá-lo, ao reagir, esse pai de família levou um tiro no peito, ele foi levado para o hospital e passa bem...”

Por um triz a morte não leva mais um pai de família, que sorte! Já era noite e como de costume eu peguei um dos meus livros sobre detetive para ler: “Agatha Christie: Cai o Pano. ”
- Vamos ver o que acontecerá com Hercule Poirot nesta história...

Peguei no sono e ao acordar já era de manhã, escovei meus dentes e tomei um café reforçado, precisava estar bem ativo nesse dia de trabalho... Peguei o jornal e comecei a ler, várias notícias e os esportes, muitas vagas de trabalhos diversos. Li o jornal por um bom tempo antes de ir trabalhar.
Ao chegar à casa de minha cliente, Miranda, ela já abrira a porta, mesmo antes de eu bater.
- Nossa! Senhor White, está aqui a essa hora tão cedo! – Disse Miranda.
- Sim. – Respondi. – Eu gosto de trabalhar neste horário. (Era às 11:00)
- Eu estava indo à feira, gostaria de me acompanhar?
- Se não for nenhum incômodo.

Eu acompanhei dona Miranda até a feira, e lá, nós conversávamos sobre sua vida, seu marido, Guilherme, estava em uma viajem de negócios, e ela ficara cuidando da casa, ela é professora de histórias e português, e atua no turno da tarde. Ela comprou algumas frutas e legumes, depois fomos à sua casa para conversar sobre o “fantasma” que a assombrava.
- É sempre à noite, em voltas das 22 hrs, quando eu vou dormir, eu ouço aquela voz: “Eu estou morto! ”.
- Você já foi a algum médico, um que cuida desse lado psicológico?
- Não, eu não estou doida!
- Não estou dizendo isso, mas é que é sempre bom conversar com um especialista.
- Eu chamei um detetive, e não um psicólogo.
- Tá bom, tá bom... Vamos fazer o seguinte, eu durmo aqui hoje para ver se eu também ouço essa voz misteriosa, aí a gente vê o que acontece, tudo bem?

Miranda concordou, e eu dormi no sofá dela essa noite, dormi como um bebê, mas não ouvi nenhum ruído.
- Eu não ouvi nenhuma voz.
- Estranho, eu também não ouvi nada essa noite. – Disse Miranda.
- Tá vendo, é como eu disse, é coisa psicológica, coisa da cabeça, não tem nada do que se preocupar, você deve estar preocupada com seu marido que está viajando, e assim, sua mente cria essas coisas...
- Mas eu tenho certeza que eu ouvi essa voz, não pode ser só coisa da minha cabeça.
- Se você continuar ouvindo essa voz, chame um médico.

Me despedi dela e voltei para casa, passei o dia inteiro assistindo a série do Sherlock Holmes, o meu detetive preferido. Mas quando à noite chegou, eis que recebo uma ligação...
- Alô, detetive White, é a Miranda, estou ouvindo aquela voz de novo, é sempre a mesma voz: “Eu estou morto! ”...
- Eu já te avisei, quando você ouvir essa voz, chame um médico.
- Por favor, senhor White, estou desesperada e meu marido não está aqui para me ajudar, eu te imploro senhor White, me ajude...
- Ok, ok, ok... Eu vou te ajudar, mas só amanhã porque agora eu vou dormir, boa noite.

Parece que eu fui meio rude com a cliente, coisa que geralmente não acontece, mas a essa hora da noite, receber uma ligação quando já está quase dormindo é um insulto. Quando amanheceu, eu fiz o que sempre fazia rotineiramente, dentes, café, jornal... E trabalho! Hoje eu entrevistei alguns vizinhos que moravam perto da dona Miranda e todos eles disseram que não ouviam nenhuma voz à noite. Não consegui entrevistar a senhora que morava ao lado, pois ela havia saído e só voltava à noite, então, à noite, eu, Chrystian White, esperei até que ela chegasse para poder falar com ela. Ela chegou com um garoto, um carinha meio peculiar, abriu a porta para ele entrar e me perguntou o que eu queria com ela...
- A senhora...
- Pode me chamar de Bia.
- Então senhora Bia, eu recebi uma reclamação de alguém que mora por aqui, dizendo haver ouvido uma certa voz, a senhora, por acaso, não tem ouvido nenhuma voz ultimamente, à noite?
- Senhor...
- White, pode me chamar de White.
- Então senhor White, eu sou mãe solteira, eu trabalho todos os dias e só volto à noite, em volta das 22 hrs, preciso cuidar do meu filho que está doente, não ouço voz nenhuma e não tenho tempo para ficar conversando, então, se me der licença, preciso ir que amanhã é outro dia...

Minha cara Lucy, eu achei que não fui muito bem recebido pela senhora Bia, esta que me parecia estar bem cansada e preocupada com seu filho, mas claro, como sendo mãe solteira, tem que carregar a responsabilidade sozinha nas costas. Nessa noite, fui dormir novamente no sofá da casa de dona Miranda, esta que, ao ouvir a voz, deu um grito! Corri para o quarto dela e lá estava ela, encolhida num canto.
- O que aconteceu? – Perguntei.
- A voz, está acontecendo de novo...
- Eu estou morto!
- Quem disse isso? – Indaguei.
- É o morto! É o morto! – Disse Miranda, desesperada.
- Eu estou morto!
- Outra vez. Quem está fazendo isso?
- Eu estou morto!
- Óh espírito atormentado, atravesse, atravesse... – Dizia Miranda.
- Eu estou morto!
- É sempre em volta das 22 hrs, sempre em volta das 22hrs. – Dizia Miranda.

“Em volta das 22 hrs”, pensei...

- “É sempre à noite, em voltas das 22 hrs, quando eu vou dormir, eu ouço aquela voz: “Eu estou morto! ”.

- “Então senhor White, eu sou mãe solteira, eu trabalho todos os dias e só volto à noite, em volta das 22 hrs, preciso cuidar do meu filho que está doente...”

Eureca! A voz é ouvida só por volta das 22 hrs, a mesma hora que a senhora Bia chega com seu filho doente. Logo, essa voz é ouvida através das paredes, e a frase: “Eu estou morto! ”, é proferida pelo filho doente da senhora Bia. Xeque-Mate! Um mistério desvendado.

Agora só precisava saber o porquê do filho da senhora Bia proferir exatamente essas palavras: “Eu estou morto! ”.
No dia seguinte, à noite, fui à casa da senhora Bia para encerrar este caso. Ela me recebeu muito bem, me pedindo desculpas pela falta de cordialidade da noite anterior. Ela me ofereceu um café enquanto eu ouvia a sua história...
- Meu marido, Nikkolas, morreu há 3 meses, depois que ele morreu, meu filho teve um surto, e ficava falando coisas desconexas, um garoto tão jovem com 24 anos, já tinha feito faculdade e tudo... – Ela começa a chorar. – Depois de um tempo, ele começou a repetir essas palavras: “Eu estou morto! ”, e ficou repetindo assim, sem cessar, até hoje. Já levei a tudo quanto é médico, até que descobri que ele tem uma doença que o faz pensar que está morto. Essa doença está ligada ao surto que ele teve depois que seu pai morreu. Essa doença é chamada de “Síndrome de Cotard”...

Eu ouvi toda história que a senhora Bia contou, e pedi a ela para falar com seu filho, assim poderia analisar o caso mais a fundo, ela permitiu levando-me para o quarto do seu filho, ele ficava repetindo a mesma frase: “Eu estou morto! ”.
- Filho, esse aqui é o detetive Chrystian White, eu vou deixar vocês dois conversando.

A senhora Bia me deixou à sós com o garotão e eu pude bater um papo um tanto estranho com ele...
- Oi carinha, como se sente?
- Eu estou morto!
- Ãh... É, acho que você deve curtir filmes de zumbis, essas coisas...
- Eu estou morto!
- Como pode estar morto se está aqui? – Perguntei.
- Como pode estar vivo se não está aqui? – Ele disse.
- O que te faz pensar que está morto?
- E você, detetive, o que o faz pensar que está vivo?
- Penso, logo existo. René Descartes.
- Palavras de um morto!
- Um morto que estava vivo quando disse essa frase.
- Ninguém está vivo, todos já nascem mortos... Já nascem derrotados pela morte...
- Garoto, deixa disso, você é jovem, é forte, é inteligente, vai viver sua vida e viva feliz...
- Que vida! Como um morto pode viver? Vida, isso é uma ilusão, a vida é uma ilusão morta!
- A vida é bela, entenda uma coisa garoto, a vida é breve momento, é da existência, um segundo de eternidade, viva como se fosse morrer amanhã, porque, talvez, você pode mesmo morrer amanhã, e quando você perceber, já está enterrado e não tem como voltar atrás, se vai ficar aí se lamentando então você não merece essa vida que você ganhou de presente, acorde pra vida! Antes que você não possa mais acordar...

Minha cara, o caso foi solucionado, e era previsto, não existia e não existe esse negócio de fantasma e afins. Não demorou muito para que o garoto de 24 anos voltasse a ser o que era antes, isso com muita terapia, remédios e uma pequena ajudinha moral de Chrystian White. Minha cliente, a senhora Miranda, me congratulou e me ajudou de forma bem generosa, agora, eu posso pagar o aluguel e comprar a comida do gato.

Com abraços, minha amada (suspiros) Lucy...

Atenciosamente de seu grande amigo, o detetive, Chrystian White.

28 de julho de 2019.
Lucas José
Enviado por Lucas José em 29/07/2019
Reeditado em 29/07/2019
Código do texto: T6707153
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lucas José
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