ED RONALDO e DIANA HELENA (o fim da inocência)




  O final daquela calorenta manhã de primavera em outubro foi especialmente amarga para Ed Ronaldo. Seu Samsung A7 2017 o retirou de sua letargia provocada pelo calor excessivo. A cacatua Baretta alardeou: "eeeeed, eeeeed, ateeeende, ateeeende".

- Ed, é Diana. Fiquei sabendo de sua ajuda ao Kadu no resgate da bike dele, no alto da encosta encarnada. Fiquei orgulhosa, amor! Sabia que no fundo, no fundo, você sempre se importou com as pessoas...

- Não tenho tempo para sentimentalismos, Diana (Ed levantou o sobrolho esquerdo, tique que apresentava ao duvidar de si próprio). Mas quando você virá aqui para Pedra do Monte?

- É sobre isso Ed... bem... eh... queria te falar pessoalmente mas... não posso adiar... recebi uma proposta irrecusável de minha empresa... pós-graduação de 2 anos em Grenoble (França), tudo pago... tenho que partir em 3 dias... eh... es... espero que me entenda... sniiff.. sniiff...(suspiro!).

  Ed levantou o sobrolho direito (sinal de intensa frustração). Não fosse o ser humano quase impassível que era, seu mundo teria caído... Seu relógio espião russo marcava exatas 11h37min. Olhou para o tapete ao pé da cama e lá estava o cãozinho Bilau que logo latiu consternado (Ed sempre soube que os pets farejam tudo, inclusive as emoções contidas). Foi observando Bilau que teve a inspiração de seguir sua carreira de detetive, dando enfim vazão ao seu talento nato. Os tempos de ilusão estavam findos. O impacto do fim da inocência nocauteou de forma inexorável nosso investigador por 3h17 min. Às 15h54min uma nova investida do smartphone:

- Alô? Alô? Sr. Ederson Ronaldo? Aqui é de BH - Inspetor Pena falando... o Sr. ainda não me conhece... sei que é jovem... 24 anos certo? .... saiba que sua fama como detetive particular já chegou aqui na capital! Temos uma firma licenciada para investigações... se tiver interesse apareça aqui na segunda que vem... o endereço é Rua Bacon 221B, esquina com Afonso Pena, Edifício Sulamerica, Centro.

- Enfim, minhas habilidades despontaram. Também já não era sem tempo... o mundo tem muito a ganhar... Pedra do Monte já não me comporta mais.

  Uma quinzena depois, enquanto arrumava sua mala para viagem ABS Wilson Masters com rodas 360º (presente de Diana Helena, antes de partir para a França), Ed mentalizava ensimesmado: 

- Não poderei atender Diana no WhatsApp a todo momento. Ela terá que se virar por lá... Coitada!

  Antes de partir deu uma última olhada para trás, ao descer a rua inclinada em que morava: Baretta saracoteava no parapeito da janela e Bilau corria em círculos, atrás de uma cigarra. Virou-se rapidamente a tempo de conter os efeitos de uma irritação no olho direito.

- Diabos! Esta alergia está me perseguindo... 

  No ônibus da Viação Itapemirim se incomodou com uma passageira que cantava alto e desafinado (usava fones de ouvido) uma canção sertaneja da dupla Ederson e Emerson.

- "O silêncio é um espião", pensou...




                                 
                                               THE END ?
                                                            
                                                  (Outubro, primavera de 2020).







Obs 1: obra fictícia, com personagens fictícios, baseada na notícia "Intercâmbio: namoro resiste à distância?", publicada no Extra Notícias, em 10/03/10 12:25.

Obs 2: inspirada nas histórias de detetives, onde aqui rendo homenagem a
Mário Quintana, Conan Doyle e Luis Fernando Verissimo.

Obs 3: agradeço a todos que já leram, comentaram ou vierem a ler e comentar este pequeno conjunto composto por seis (06) contos de aventuras do meu detetive soberbo. Foi um prazer escrever estas pequenas histórias e espero que possam ter cumprido o papel de trazer um pouco de leveza a estes tempos sombrios de pandemia, que espero logo possa terminar.