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O Último Natal dos Santiago - ´Série contos de Natal 2


     Realmente o Natal que passou foi memorável para a família Santiago. Não que tivesse sido muito alegre, absolutamente não foi, com isso não querendo afirmar que tenha sido triste o acontecido, ou pelo menos parte dele, de tão esperado, desgastara a tristeza em anos. Foi apenas um Natal inexplicável e as coisas inexplicáveis costumam deixar marcas profundas no espírito humano, muito mais do que as facilmente explicáveis. O homem não aceita ser ludibriado por algo que não consegue atingir.

     Rosa Santiago se recusava a morrer. Era só pele e ossos e seus momentos de lucidez, pelo menos os percebíveis, mínimos. Acordava poucas vezes de uma dormitação sempre intranquila e, mais que falava, balbuciava coisas como "onde está Lucas?"," não posso ir embora deixando Lucas sozinho", tudo o que dizia não passava de variáveis dessa cantilena.É fácil perceber que Lucas era o seu filho, só um filho muito amado poderia prender a um corpo morto um espírito intranquilo. Sempre Lucas, nenhuma palavra era dirigida aos outros, aos filhos que estavam sempre por ali, alternadamente, o tempo todo, ou quase todo. É evidente que os Santiago de tudo fizeram para encontrar o irmão ausente, mesmo que para suas reputações (e carteiras) fosse melhor que nunca o achassem. Quem os conhece não tem dúvidas a esse respeito, e sabe que, se não o acharam, não foi por falta de procurar. Tentaram até enganar a velha Rosa, com a melhor das intenções, é claro. E, por casa e comida e alguns trocados, poucos, a irmã solteirona levou para o aconchego do lar um vagabundo que encontrara na rua, semelhança grande com o irmão. A irmã casada foi contra, temia a língua dos vizinhos, mas capitulou depois que lhe expuseram as vantagens. E ele ficou por lá um tempo enorme, comendo do bom e do melhor, tal qual um bispo; foram-lhe dadas as roupas de Lucas, para que ele, estando presente, tentasse tranquilizar a velha e ela enfim pudesse resolver  a sua indecisão. Tudo inútil. Puseram-no para fora quando o irmão advogado o pegou roubando, contra a vontade da solteirona, queria tentar mais. "Tal e qual o irmão, disseram, podia bem ter enganado a mãe." A velha, depois que o moço se foi, riu, riso de canto de boca descarnado," queriam me enganar", balbuciou.Ouvindo assim, contado, até parece que estavam querendo matá-la, já há anos a velha se consumia à espera do filho, se finando sem nunca findar, mas acabando pouco a pouco com a vida ao redor. Quem conhece os Santiago sabe que isso não é verdade. Tinham amado muito a mãe, agora queriam libertá-la e, se libertando-a libertavam-se também, não tinham culpa, toda boa ação merece um prêmio.

     No Natal que passou as coisas começaram a sair dos eixos muito cedo. Mesmo falando pouco a velha mandou que todos viessem e os planos feitos para aquela noite foram trocados por uma esperança. Pediu que a colocassem assentada na desgastada poltrona  em volta da qual costumava reuní-los naquele tempo em que ainda eram imaculados, por qualquer coisa, às vezes por nada,pelo simples prazer de estarem juntos. Sentou-se lá, com um ramo de violetas na mão, flores artificiais, já desbotadas pelo tempo, as últimas que fizera. "Para Lucas, dissera, enfeitarei seu quarto quando voltar, darei a ele, gosta tanto, o único que gosta delas, as minhas flores." e assim ficou o tempo todo, o dia e parte da noite que  já meiava, prendendo-os com os olhos, não os deixando partir. Um  milagre, murmuravam várias vezes, sentindo a mãe renascer e o espírito daquela noite envolveu seus corações, enchendo-os de recordações felizes. A certa altura a mãe disse: "Vou me embora hoje" e mais não falou. Ficou só olhando. Um por um e a porta. Assim, um tempo incontável, até que a chave girou na fechadura e ele entrou. Não olhou para ninguém. Foi direto até onde ela estava e ajoelhando-se, abraçou-a. Estava ensopado e a água molhou o tapete esgarçado. Não está chovendo, pensou a irmã cientista. No céu tem estrelas e lua. De onde vem ele? Pensou e não se preocupou mais com aquilo, só algum tempo depois, quando teve a resposta que teima em não aceitar. Ficaram lá abraçados, uma eternidade, a mãe e o filho perdido. Uma eternidade que poderia ter sido medida em minutos, talvez segundos, se alguém tivesse marcado no relógio. O irmão advogado se lembra de tê-lo ouvido dizer "vamos ficar juntos agora, para sempre, mãe."  Depois se levantou, pegou o raminho de violetas, fechou-lhe os olhos, beijou-a e partiu. " Ela está morta", disse o irmão médico.Enterraram-na no outro dia, logo cedo, e continuaram a vida interrompida.

      Dois dias depois, um telegrama chamou-me ao Recife. Na noite de Natal, um barco naufragara na costa pernambucana e, dentre os mortos, supunham que um fosse um antigo terrorista político, com o qual eu mantivera contato há algum tempo atrás. Queriam que eu o reconhecesse. Farejando uma boa reportagem me dirigi para lá imediatamente. Fui, com o delegado de polícia, ao encontro do corpo. Cinco corpos estavam estendidos lado a lado. "São os ainda não identificados no acidente, mas só quero que você reconheça este", disse-me o delegado. Não, porém não foi ao fitar o corpo apontado pelo delegado que meus olhos se petrificaram: foi ao olhar o mais jovem, o que não poderia pelas leis da física ter estado lá naquela noite. Foi no mais jovem, que trazendo ainda nas mãos um ramo de violetas desbotadas, mais que morto, parecia dormindo numa tranquilidade que eu, um Santiago como ele, nunca tive na vida.    
Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 29/11/2007
Reeditado em 09/12/2007
Código do texto: T758555

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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