“Suave Milagre” 
                                          (Eça de Queiroz)
 

     A tarde caía.  O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha.  A mãe retomou o se canto, mais vergada, mais abandonada.
  
     E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. 

     A mãe apertou a cabeça esgadelhada:

 
         --- Oh filho! E como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura do Rabi da Galiléia?  Obed é rico, e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Chorazim até ao país de Moab.  Sétimo é forte, e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hebrom até o mar!  Como queres que te deixe? 
      Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora conosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende.  E mesmo que O encontrasse, como convenceria eu o Rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

 
         A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
 
         --- Oh mãe!  Jesus ama todos os pequeninos.  E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
 
         E a mãe, entre soluços:
 
         --- Oh meu filho, como te posso deixar?  Longas são as estradas da Galiléia, e curta a piedade dos homens.  Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais.  Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi.  Oh filho!  talvez Jesus morresse...  Nem mesmo os ricos e os fortes O encontram.  O Céu O trouxe, o Céu O levou.  E com Ele para sempre morreu a esperança dos tristes. 
 
         De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
 
         --- Mãe, eu queria ver Jesus...
 
         E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
 
         --- Aqui estou.

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O SUAVE MILAGRE, de Eça de Queiroz.  11ª edição.  Editora Clube do Livro, RJ, 1973.  
Jô do Recanto das Letras
Enviado por Jô do Recanto das Letras em 21/03/2010
Reeditado em 10/12/2010
Código do texto: T2151628
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