O gato e a Lua



Um gato malandro deitava-se todas as noites no telhado morno da igreja para contemplar o céu estrelado e a beleza da lua.
Sempre subia cedinho para ficar mais tempo olhando aquele espetáculo da natureza.

Todas as noites era o mesmo ritual. Ele espichava-se, rolava, ronronava, se lambia todo como quem se arruma para uma festa, mas na verdade estava se preparando para esperar a lua, e ficar somente olhando para ela.

Lá de cima, também a lua, paradona, parecia olhar para o gato. Era como se tivessem combinado. Sempre na mesma hora e no mesmo local. Eles não se falavam, claro, mas a linguagem dos gestos e olhares era tudo.

Era noite de lua cheia. A preferida do gato.

Entreolhavam-se como se conversassem um com o outro. O gato mexia-se, piscava os olhinhos, balançava a cabeça e o rabo e às vezes rolava de um lado para o outro.
O fato se repetia todas as noites de lua cheia, a ponto de chamar à atenção dos vizinhos próximos a igreja.
Bastava começar a escurecer e o gato já se aproximava.

Naquela noite, a lua demorou a aparecer, as nuvens estavam muito escuras, mas o gato não sabia o que estava acontecendo.
Então, no mesmo ritmo de sempre, lambeu-se, espreguiçou-se e rolou.
Subiu no muro da igreja, caminhou um pouco, passou embaixo da fiação, bem pertinho da torre do sino e chegou àquele telhado ainda quentinho do resto de sol da tarde.
Deitou-se e congelou os olhos no céu.

Um vento frio, esquisito, vindo não se sabe de onde fez arrepiar os pelos macios e penteados do gato.
Ele continuou ali. Imóvel.
Não arredou o pé...
Lambeu-se mais uma vez para pentear o pêlo assanhado, sem tirar os olhos do céu.
Esperou, esperou, e nada... andou de um lado para o outro...
Havia algo errado.

Lá do céu, a Lua parecia inquieta, e ensaiava aparecer por qualquer fresta que ficasse entre as nuvens. Sem chance. As nuvens estavam muito carregadas e, por mais que a lua tentasse, não conseguia.

A lua, que era amiga do vento, pediu que ele soprasse forte e mandasse aquelas nuvens para bem longe. E o vento até que tentou, mas de nada adiantou. Ia chover mesmo.

Lá no telhado, o gato cansou de esperar e, chateado foi saindo de mansinho.
Mal começou a andar, teve que parar perto da torre do sino para se proteger dos pingos fortes. Estava chovendo!
Ficou por ali, meio chateado... depois entrou na torre do sino para não se molhar.
A chuva demorou muito a passar, e, como não tinha escolha, ficou bem quietinho... adormeceu...

De madrugada, quando parou de chover o gato percebeu um clarão no céu e correu para fora para ver o que era.
Estava escorregadio, e um vento frio ainda mostrava sinais de chuva.
Olhou para o céu, e lá estava ela, a lua.
Parecia maior e mais brilhante do que jamais vira antes.

O gato se lambeu, ronronou, miou, deu voltas e mais feliz do que nunca, se acomodou e paralisado ficou por várias horas.

Umas nuvens escuras chegaram a encobri-la por instantes, mas a lua sempre voltava a aparecer e o gato sempre a achava cada vez mais bela.

Então, como se nada tivesse acontecido, aproveitaram cada momentinho único se olhando e se comunicando como só gato e a lua sabem fazer.

Não choveu mais, e o gato acabou adormecendo ali mesmo, anestesiado pela beleza da natureza.

Maria Amélia Do Nascimento Aragão
Camaragibe, 02/02/2010

Amélia Aragão
Enviado por Amélia Aragão em 01/04/2010
Reeditado em 23/03/2011
Código do texto: T2172089
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