Eu e minha “Borracha Mágica”
 
     Já não sabia mais o que se passava em minha cabeça e em meu coração naqueles dias em que minha avó esteve internada em um hospital por motivos de saúde. Naquela época eu tinha sete anos. Depois que minha mãe morreu, minha avó cuidava de mim e de toda a minha família. Quando ela retornou, fiquei tão feliz e abracei-a dizendo:
 
     — Vovó querida... Vovó adorada, eu te amo tanto Vovó!
 
     Isso fazia o rosto de minha avó ficar ainda mais rosado, seus olhos azuis cintilavam de alegria e ela parecia tão bela quando se sentia feliz. Porém, no dia seguinte estraguei tudo ao sair da escola, queria ficar brincando com meus amiguinhos e minha avó me obrigou a voltar com ela para casa. A partir daí eu não quis mais beijá-la, dava-lhe safanões, esperneava, chutava e lhe falava gritando:
 
     — Tu és a pior avó do mundo e eu nunca mais te darei meu carinho, vais ver só!
 
     Eu gritava tanto que as outras mães e pais que foram buscar seus filhos na escola ouviram e me olhavam com olhares de reprovação diante do que eu fazia. Foi uma grande vergonha que fiz para minha avó.
 
     Não sei o que foi que me deu naquele dia, era como se uma trovoada forte tivesse se apoderado de mim, sentia que minhas lágrimas pareciam uma tinta negra escorrendo em meus olhos de tanta fúria que havia em minha alma ainda de criança.
 
     Minha avó não disse mais nada, ela estava vermelha de raiva e vergonha, seus olhos não cintilavam mais, pois não havia alegria naquele momento para que eles pudessem cintilar. Fiz-lhe tanto mal e algo ruim em mim não permitia que lhe pedisse perdão.
 
     Voltamos para casa, como eu continuava com aquela birra, minha avó me olhou bem dentro dos olhos e disse:

     — Ou vais te acalmar agora ou...

     Revidei gritando:

     — Nunca mais eu vou me acalmar, eu te odeio sua velha má, eu...
     
     Não tive tempo de terminar o que ia lhe dizer, ela pegou-me pelos braços e me levou direto para o banheiro e deu-me um banho de água fria. Naquele dia fazia muito frio e ela nem se preocupou em ligar a água morna, a água estava tão gelada que me acalmou de uma vez.
     
Senti-me depois envergonhada e com muito frio, era como se o meu céu tivesse desaparecido com todas as estrelas. Percebi que estava muito errada e que era preciso reconstruir o meu universo inteiro.

     Naquele entardecer, o barulho da chave na fechadura da porta não me pareceu nada bom, eu sempre ficava feliz ao ouvir aquele barulhinho, pois era hora que meu pai voltava do trabalho, mas naquela tarde tudo me parecia estranho, não sabia qual seria a reação dele.
     
Tive vergonha de mim pela segunda, pois teria que enfrentar meu pai, afinal, eu bem que merecia uns bons corretivos. Entretanto, nada acontecera durante o jantar, já era noite e meu pai estava com o semblante tão calmo; notei certa diferença em seu jeito de falar comigo, mas ele estava muito carinhoso, talvez minha avó não tivesse lhe contado nada sobre o que acontecera.

     Após o jantar, papai a cada noite nos contava como foi o seu dia e depois contava histórias que eu adorava ouvir. Mas nessa noite ele chamou de forma hilariante sua história de “Eu e minha Borracha Mágica”. É uma história que eu jamais vou esquecer. Apesar de minha avó e meus irmãos estarem todos na sala, ele dirigiu seu olhar a mim e começou a história assim:
    
 “Você sabe quando a professora pede para você colorir um desenho que você coloriu e ultrapassou os limites das linhas do desenho? Simplesmente, você pega uma borracha e apaga o que ultrapassou não é mesmo?

     Caminhou de um lado para outro sempre sorrindo e parou diante de mim, tomou minhas mãos nas suas e me levou até a sua poltrona e fez-me sentar em seu colo para continuar a história. Comecei a ficar preocupada quando ele novamente fixou seu olhar em meus olhos e me falou exatamente assim:
     
     — Agora escute bem: Eu quero lhe falar daqueles desenhos lindos que temos em nosso interior e que chamamos de ‘sentimentos’. Muitas vezes, a gente fere os nossos próprios sentimentos, nossos limites. Nesse momento, nosso desenho interior não fica nada bonito, fica feio... HORROROSO!

     E o que é que podemos fazer para mudar esse quadro? Você pensa: Ah se eu pudesse passar uma borracha no que é feio, no que transbordou como passamos a borracha nos desenhos escolares para deixar tudo bonito ou apagar as palavras que escrevemos errado!

     É minha filha, isso serve também para as más palavras, para as birras, obstinações, raiva, rancor tenaz, etc. Sim, seria maravilhoso se pudéssemos apagar tudo isso de uma vez e fazer com que nossos sentimentos ficassem belos e bem desenhados.
   
     Pois bem, vou lhe dizer uma coisa extraordinária: isso é possível sim, pois essa borracha existe! Ela é tão eficaz que a chamamos de “Borracha Mágica”. Mas não vale a pena ir às lojas para comprá-la, pois ela não está à venda em nenhum comércio e é verdadeiramente gratuita. E você sabe onde guardamos todas as coisas boas que amamos da vida?

     E batendo levemente sua mão em cima do meu coração como se quisesse fazer-me entender que a sua história não era nada mais do que um sermão, ele continuou falando:

     — Bem aqui, no cofre do nosso coração! Mas essa borracha mágica também tem vários nomes e um deles se chama PERDÃO.
     
     Pois é minha filha, é bem melhor a gente apagar de uma só vez um desenho mal feito, pois nem sempre somos um desenhista perfeito, muitas vezes erramos e a única solução é pedir perdão; aí nossa borracha mágica apaga tudo o que quisermos esquecer para ficar com o coração em paz, e sabias que PERDÃO também significa:

     “Obrigada por continuar a me amar mesmo que eu nem sempre seja amável”!

     Aquelas palavras soavam em meus ouvidos como chicotadas na alma. E meu pai finalizou dizendo:
 
    — E agora vamos meu pequeno tesouro, eu sinto que todos estão cansados e que agora é hora de ir dormir! Papai levantou-se imitando os passos de um palhaço e dizendo de um jeito muito engraçado:
    
      — E prestem atenção: Eu sou o Fiscal dos Sonhos de todos vocês! Mas subitamente, voltou-se outra vez para mim dizendo:
    
 — Você não tem nada a declarar antes de partir para o mundo dos sonhos minha linda? Quase desmaiei naquela hora. Eu que já estava tão deprimida por todas as desobediências feitas à minha avó naquele dia e por todas as chicotadas que levei na alma por causa da sua história, timidamente respondi:

     — Sim pai... Eu... Eu queria falar com a vovó!

     Meu coração batia aceleradamente. Minha avó se aproximou de mim, olhei em seus olhos para que ela me olhasse com o mesmo amor de antes e disse:

     — Vovó... Eu queria, eu queria...
     
     Não conseguia pronunciar uma só palavra, era como se o diabo tivesse amarrado a minha língua e dado um nó em minha garganta. Aquele nó era tão grande que meus olhos começaram a ficar marejados de lágrimas, mas de repente, as palavras saíram e tranquilamente me ouvi dizer:

     — Per... Perdão por toda a vergonha que lhe fiz passar hoje, Vovó!
     
     Essas palavras saíram do fundo do meu coração e por trás delas duas enormes ondas do mar de lágrimas que eu não conseguia controlar... Vi naquele mesmo instante que meu pai tinha razão. Eu também tinha mesmo a minha “borracha mágica” porque minha avó me tomou em seus braços e disse baixinho em meu ouvido:
    
     — Oh... Não chore mais minha querida, esqueça isso tudo sim? Pois eu já esqueci e amo você agora ainda mais que antes, viu minha princesinha linda! A sua vovó sempre vai lhe amar meu coraçãozinho!!!

     Naquele momento senti que todo o universo conspirava a meu favor, meu céu voltou subitamente trazendo-me de volta a lua, as estrelas e todos os astros do firmamento. Senti-me como que partindo num carrossel para o país dos sonhos e me sentindo a princesa mais feliz do mundo!

Fim.


 
Aronedla
Enviado por Aronedla em 13/08/2014
Código do texto: T4921586
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