Minha Vida de Cão

Só consigo lembrar vagamente do dia em que cheguei àquela casa levado pela minha dona. Eu saíra de um canil de proporções gigantescas, onde centenas de cachorros, como eu, espremiam-se e disputavam a ração servida não menos do que duas vezes por dia. Eu me sentia em desvantagem pela miudeza do meu tamanho e meu jeito desengonçado. Parece-me que aqueles homens não tinham a mínima consideração pelo nosso bem estar. Eram muitas as baias. Os sacos com a comida eram esvaziados sobre as tigelas; cinco a seis em cada baia e corríamos, com a saliva escorrendo por nossas bocas e respingando para todos os lados. Para minha sorte, os desastrados funcionários não se importavam em deixar cair, em volta das tigelas, boa parte da preciosa ração. Enquanto os grandalhões abocanhavam gulosamente os recipientes, eu aproveitava esse tempo para me fartar do que havia em volta. Fazia-o o mais rápido de que era capaz, pois sabia que logo ficaria sem nada. Era assim que conseguia saciar minha fome e me manter vivo para narrar agora a minha história.

Enquanto o elegante automóvel seguia em disparada eu era envolto pelas mais estranhas emoções. Não me deixava a curiosidade de querer conhecer minha nova morada. A mão macia de minha dona passeava gostosamente sobre meu pelo branco aveludado, causando-me arrepios de prazer. Nunca sentira antes tais sensações. Mas, o que eu queria mesmo era chegar logo e, ao abrir-se a porta do veículo não esperei que me conduzissem; saltei para o chão de grama. De tão desajeitado que sou, nem percebi que estava preso a uma corda e o repuxo se deu logo à frente, numa cambalhota que me fez bater o focinho e soltar um gemido de dor. Um casal de crianças veio em dispara em minha direção, arrebatando-me das mãos da mulher. Correram comigo por toda a casa, exibindo-me para os que ali se encontravam. Depois, no enorme quintal, nas árvores ao redor da piscina até que, enjoados da brincadeira, como é comum entre os pequeninos, deixaram-me para iram em busca de novas travessuras.

Vi-me no interior de uma casota, ao lado de uma refeição generosa que não hesitei em devorar. Uma tigela minha, exclusivamente; isto me encheu de alegria. Quando terminei o último bocado dei conta da velocidade com que o fizera. Não tinha mais razão de ser a pressa nem a preocupação em ficar sem o meu alimento. Vi também que já não me prendiam coleiras nem cordas. Eu era livre e dono das minhas ações. Passei por todos os cantos da propriedade, não me deixavam entrar na casa, mas isto pouco me importava. A área externa, grande e privilegiada. O playground afastado, na parte traseira, ali onde eu me encontrava; o solo; o caramanchão, com seus bancos de pedra e o solo musgoso; os poços artesianos com as caçambas a se balançaram pala ação do vento do fim de tarde; as cercas vivas a enfeitarem os muros laterais. Tudo isto para o meu deleite. Achava-me no paraíso.

Os anos se passaram. Tornei-me um imponente American Terrier de cor preta, mas com o peito e o pescoço branquinhos como a neve e o meu charme especial que era um linda faixa branca sobre a cabeça, alcançando a boca, além de umas orelhinhas miúdas, sempre de pé e alertas. Eu era uma mistura de força e nobreza; de uma energia selvagem e ilimitada. Não havia melhor guardião e animal mais fiel na face da Terra. Eu possuía a ferocidade de um tigre, o faro de um coiote e a velocidade de uma gazela.

Vivia sob o mais atencioso tratamento que um animal da minha espécie poderia obter. Nos meus passeios matinais era o centro da atenção da vizinhança. O casal de filhos, agora adolescentes, intercalava-se na tarefa de me levar para a rua. O menino era um pouco preguiçoso e não dava mais do que uma breve caminhada comigo até o fim da rua e logo estava de volta. Mas sua irmã era muito generosa e eu adorava quando conduzido por ela. Vou explicar porque.

Havia, na rua ao lado da que eu morava, uma residência muito elegante onde três cães faziam a ronda noturna, mas, como meus passeios se davam nas primeiras horas do dia eu ainda os via antes que a proprietária, ao sair da garagem, retornava para recolher os animais ao canil nos fundos da casa. Menciono isto porque, entre aqueles seres havia uma cadela que se tornou o colírio dos meus olhos, a razão da minha existência. Eu já aguardava, com uma ansiedade louca, o turno da minha patroazinha de sair comigo e, quando ela esboçava o gesto de me conduzir de volta sem ter passado pela casa da minha paixão, eu firmava no chão minhas fortes patas e entortava o pescoço, fazendo toda força do mundo para que ela não fosse capaz de me arredar do lugar. Aí ela entendia a minha rebeldia e me conduzia ao meu local predileto.

Éramos da mesma raça, mas minha princesa apresentava detalhes especiais que me fascinavam, tais como um pescoço amarronzado, liso e sedoso, feito um tapete persa; marcas também marrons, em todas as patas e uma pelugem esbranquiçada, muito mais rica e saudável do que a minha. A coleira preta, com facho prateado que refletia a luz solar em belos flashes toda vez que ela se movimentava era um charme a mais. Aqueles segundos que me detinham ali, na frente da casa, desejoso de congelar a cena em que ela, aos poucos, se afastava, enquanto minha doninha apertava firme na mão a corda que me impedia de correr até minha doce amada passaram a ser tudo na minha vida. A mulher, já dentro do automóvel, ao me ver ainda ali debatendo-me, alucinado, sorria, talvez por ver, na cena, algo pitoresco e promissor.

Abati-me. Fiquei sem comer por dias, o que preocupou minha família. Tentei e fui feliz na artimanha de convencer minha patroazinha a sair comigo uma noite. Não parava de gemer e incomodá-la, abocanhando e puxando sem parar a barra do seu vestido. Ela entendeu e lá fomos nós. Não posso descrever minha fúria ao presenciar a cena que passo a descrever.

Ao ganharmos a frente do portão da casa de minha amada, o que vi cegou-me a ponto de quase tirar uma vida. Pelas brechas do portão eu via a cena que ali se passava. Um dos machos, um policial preto, avantajado abusava de minha deusa. Ela procurava, de todo em vão, esquivar-se dos seus assédios. Mas ele, mais forte e ágil, montava insistentemente sobre ela, procurando consumar a penetração. Numa das tentativas, em que vi-o em seu dorso, envolvendo-a completamente não suportei a cena e parti com tudo, deixando no chão minha doninha, após arrancar, com minha ira descomunal a corda de suas mãos.

De um salto, ultrapassei a altura do muro, que não era tão alto e caí por cima do cafajeste. Atracamo-nos, dentes contra dentes e rolamos, trocando mordidas que nos marcaram profundamente. Até que, na primeira oportunidade, acertei seu pescoço com um golpe, suficiente para acabar com a luta, mas não com a sua vida.

Deste dia em diante ganhei o respeito dos machos e o amor que tanto almejara. No fim de muita discussão acalmaram-se os ânimos e iniciou-se dali uma grande amizade entre as duas famílias e um lindo romance entre dois cães, resultando em filhotes que se espalharam por lugares que eu desconheço. Mas, meu amor e eu continuamos em nossos lares respectivos e nos vendo e namorando sempre que surgem as oportunidades. E elas têm surgido com muita frequência. Para nossa felicidade.

Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 05/05/2016
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