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IEMANJÁ

A morte é igualmente propensa a acabar com os outros na tocaia.
OSMAN LINS, Retábulo de Santa Joana Carolina


Estrepitosa, wagneriana, apocalíptica, a bateria de fogos me encontrou à beira-mar sozinho, assustado, hirto, as mãos ocupadas com um copo de cerveja e um cigarro -- casal clichê --, decerto não as calientes carnes de um corpo feminino, brutalmente feminino...
Um roçar de gato nos calcanhares ao ritmo das marolas -- ida, vinda --, flores afogadas em homenagem à deusa dos mares, esposa espiritual da humanidade mística em polvorosa.
Os olhos marejados de sal e solidão, bêbado, abraço e beijo os estranhos mais próximos: três argentinos de quem já havia filado doses de uísque; um homem gordo, sua esposa e suas crianças bocejantes; um grupo de universitárias que me oferecem champanhe e devaneios...
Enquanto caminho em meio às trincheiras de detritos festivos, os fogos estouram e reboam qual pipoca na panela quente da Baía de Santos, lembrando-me mais o ra-tá-tá de metralha numa guerra contra o devir do que propriamente comemoração pela passagem do tempo,

wasted time...
bye, time of mine...

pois está na hora de pular as sete ondas, ao abaixar para fazer a bainha da calça, noto que a camisa que me deveria escorregar do ombro não está mais ali, está perdida em algum ponto do rastro de pegadas que pisam o ano nascente (pois só há movimento real no tempo; no espaço caminha-se em círculos). Num disparate romântico, imagino uma bela mulata vestida de branco apanhando a camisa e saindo do mar para devolvê-la...
Quando me levanto, a calça pronta para pescar caranguejo, ela está na minha frente, sorrindo seu sorriso alvo e largo de mulher negra. Oferece-me a camisa que encontrou logo ali, boiando na água.
Antes que seus olhos se desviem dos meus, antes que se desfaça seu sorriso, agarro-a pelo braço e, sem dizer palavra, beijo-a. Ela deitada, eu sobre ela -- somos lábios colados, nossos corpos uma ilha, as marolas mares, o mundo apartado, em seu rosto prazer e medo, fazemos um amor perfeito -- nosso sexo não é minimalista.
Adormece; penso num coma alcoólico; observo sua face; nosso amor é prolixo: seus olhos puxados, seus longos cílios; suas sobrancelhas feitas, sua testa curva; suas maçãs salientes, suas covas profundas; seu queixo rente, sua boca, seus lábios... impressão que se abrem na linha que os une, que engrossa mas não -- escorre para a ponta inferior, transborda em fino fio rubro
Pelos detritos ao redor, adivinho que terá caído sobre um caco de vidro
não a toco;
levanto-me;
não posso tocá-la
Mesmo agonizante, talvez mesmo por se saber agonizante, não terá privado a si mesma nem a mim de nosso verdadeiro momento. Virgem ou prostituta, presenteou-me com sangue, com sangue manchou suas vestes claras, salgou sua pele escura. Virgem ou prostituta, amou-me em meio à dor, sabendo que para ela não haveria mais; e eu, que nem lhe soube o nome, o nome do meu amor...
Pergunto a Deus: e se eu não a tivesse evocado, sequer imaginado que pudesse sair do mar e vir ao meu encontro, teria vindo? teria existido? Olho para o mar e procuro entender, com despeito metafísico, esse presente de grego que me ofertaram. Ou que terei invocado? por quê? e por que não poderei esquecê-la, àquele seu sorriso? Talvez eu enlouqueça...
cometa suicídio...
Volto a caminhar, quer dizer, parto. Antes que alguém perceba este crime.
Vital Romero
Enviado por Vital Romero em 30/10/2007
Reeditado em 30/10/2007
Código do texto: T716238

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Sobre o autor
Vital Romero
Santos - São Paulo - Brasil, 37 anos
41 textos (510 leituras)
1 e-livros (8519 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/12/17 16:01)
Vital Romero