Uma Nova Chance Para Silvana - Final

- É mesmo tão engraçado? - uma voz conhecida e, há muito, esquecida perguntou.

Ela, sobressaltada, olhou para a direção de onde vinha aquela voz. Não podia acreditar. Aline! Aline ali, ao seu lado, em carne e osso, vestida com a mesma roupa que usava há quinze anos, quando se jogou na frente de um ônibus.

- Não. Não me joguei. Eu estava muito triste, abalada com a nossa briga. Não vi o ônibus vindo. Mas foi mesmo um acidente. - argumentou Aline, serenamente.

- Você pode ouvir meus pensamentos?

Ela assentiu, calma e triste.

Aline! A mesma linda mulher que a seduzia com um sorriso, uma piscadela. Os mesmos lindos olhos verdes que ela podia ver no escuro, de tantas vezes que os fitara, embevecida. Os mesmos lábios cheios e bem definidos que ela beijava sôfrega. Olhou as mãos. As mãos de Aline que sabiam todos os caminhos e mistérios de seu corpo, que conseguiam levá-la ao Nirvana em carinhos suaves e carícias afoitas. Olhou o corpo de Aline. O corpo perfeito, as curvas, os seios, as coxas, os quadris, a delicada forma arredondada da virilha, onde ela tantas vezes mergulhara o rosto, a boca, a língua ávida por beber-lhe os sumos. Sentiu ímpetos de abraçá-la, mas teve medo. Lembrou-se. Quinze anos haviam se passado desde aquela tarde em que ela pediu à amiga para não mais procurá-la. Lembrava-se de ter-lhe dito: "Saia da minha vida. Você me é nociva." Lembrava-se de ter ficado ensaiando essa frase por horas para dizer a ela, uma última punhalada de rancor por tudo o que os outros a estavam fazendo sofrer.

Saboreando o prazer da dor provocada na outra por sua vingança cruel, não se moveu ao vê-la sair, cabisbaixa da faculdade onde estudavam, em direção à pista em frente. Só ouviu a freada, o baque seco. Depois, a movimentação das pessoas, tentando socorrê-la, o desespero de colegas, professores. Ao sair, bem depois, ainda pode vê-la caída, numa posição estranha, como se braços e pernas pudessem estar dobrados no sentido contrário. Foi embora sem se deter, sem um novo olhar para a amiga. Amiga! Eram muito mais que amigas. Recém tornando-se mulheres, os hormônios transbordando pela pele e juízo, entre um bilhete e outro, começaram a perceber que o que sentiam uma pela outra não era apenas amizade. Começaram a beijar-se escondidas, trocavam carícias cada vez mais ousadas. Até o dia em que não mais resistiram aos seus desejos enlouquecidos e fizeram amor. O mundo parou. Ambas já haviam tido experiências heterossexuais, mas nada se comparava aos momentos de intensa paixão, quando se entregavam à luxúria de seus corpos jovens, sequiosos, não pelo seu próprio prazer, mas pela busca do prazer proporcionado à outra. Viveram essa paixão proibida por quase um ano, até que foram descobertas. Colegas, pais, professores, todos condenaram aquele amor.

Aline ainda lutou por ele. Por ela, desesperadamente. Mas ela, por mais que amasse Aline não estava preparada para suportar a pressão de todos os outros. Seu mundo inteiro, como ela o conhecia, ruindo à sua volta. Tentou romper de forma madura e tranqüila como achava certo fazer. Tentou manter a amizade, mas a namorada não aceitava. A situação tornou-se insustentável e culminou com a discussão, naquela tarde nublada e triste.

Naquele dia, ao chegar em casa, estava absolutamente serena. Nem parecia ter acabado de assistir a morte da pessoa que mais amava no mundo. Ninguém diria que, a cada fechar dos olhos, o corpo de Aline jogado no asfalto sobre uma escura mancha de sangue surgia, com cada vez mais detalhes, luz e cor. Jantou com a família, assistiu TV e foi dormir, como se nada tivesse acontecido. No meio da noite, porém, acordou angustiada, brutalmente atingida pela culpa e pela dor da perda. Chorou, convulsivamente, acordando os pais e irmãos que invadiram seu quarto procurando socorrê-la. Expulsou-os todos, aos berros. Queria poder expulsar igualmente tanta hipocrisia de sua vida, queria retomar seu romance, queria ser feliz, fazer Aline feliz, mas era tarde. Durante dias, andou pela casa como um zumbi. Não falava com ninguém, nunca se perdoou pelo que houve. Certamente, jamais iria perdoá-los também.

O tempo passou e trouxe outras amizades, outras mulheres a quem ela amou e, da mesma forma, rejeitou, com medo do preconceito, da desaprovação da família e dos amigos. Ninguém com a mesma intensidade que Aline. Aline foi sempre uma sombra em sua vida, uma dor sentida de saudade, tristeza pelo que poderia ter sido, pelo que poderiam ter vivido. Uma dor de remorso por ter sido tão dura com ela, a ponto daquela menina linda, atirar-se na frente de um ônibus naquela tarde de quarta-feira.

Quando conheceu o marido já não tinha mais esperanças de construir uma vida a dois. Ele, porém, apaixonou-se inocente, desconhecendo o peso de seu passado, e fez de tudo para conquistá-la, até que, cansada e solitária, ela o aceitou. Para ela, ele nunca foi mais do que um bom amigo, com quem ela às vezes se deitava e com quem teve dois filhos. Ele, frustrado com a indiferença dela, tinha outros relacionamentos, aos quais ela fazia vistas grossas, em prol das crianças. Uma vida medíocre e infeliz, para alguém que nunca quis dar uma chance ao amor.

Deprimida, Silvana olhou para Aline, parada ao seu lado. Ela também a observava, melancólica e terna, enquanto assistia o desfile de lembranças por seu pensamento.

- E você? - perguntou Silvana. - O que houve? Onde está? No céu?

Aline sorriu:

- Não existe esse lugar chamado céu. Mas, para que você consiga compreender, vamos fazer de conta que sim. Não, não estou no céu. Quando morri tive o direito de escolher entre ficar no céu ou ficar aqui, cuidando de você. Resolvi ficar.

- Cuidando de mim?

- Sim. Todos nós temos anjos. O seu era sua avó. Foi difícil convencê-la a me ceder o lugar, mas quando ela viu o tamanho do meu amor por você, achou que era hora de descansar um pouco. Se ela soubesse o quanto fracassei... Às vezes me arrependo tanto... Eu devia saber que não conseguiria...

- Calma, Aline! Você está balbuciando... Agora tudo ficará bem, não? Estamos juntas de novo. Você me perdoou, não perdoou?

- Sim, meu amor. Perdoei no mesmo instante. Sabia que tudo o que você me disse era reflexo do seu medo, da pressão que você enfrentava em casa... Mas...

- Não tem "mas". Não pode haver "mas"! Não depois de tudo o que passamos... Quando eu me livrarei desse corpo de gelatina e poderemos ir juntas para o céu? Como é lá e...? Ei! Espera! Não era pecado nós nos amarmos? Como você pode ir pro céu?

- Não era pecado. É isso que eu estou tentando lhe dizer. Toda forma de amor vem de Deus. Amor nunca é pecado. Ódio é. Covardia e preconceito são.

- Então?...

- Então que, apesar de todos os meus esforços, de todas as oportunidades que lhe dei de amar de novo, de todas as pessoas lindas que coloquei na sua vida, eu fracassei vergonhosamente na salvação da sua alma.

- Eu vou pro inferno?

- Também não existe inferno. A danação eterna, com cheiro de enxofre e diabinhos espetando nosso corpo é apenas uma alegoria. Mas o "não céu" é muito pior do que isso. Ainda é cedo para afirmar para onde você vai. Quando seu tempo na terra acabou e sua sorte foi lançada, eu intercedi por você. Apresentei sua defesa aos juízes do seu destino, expliquei-lhes que você não era culpada pelos seus erros, que eles foram provocados pela sua criação equivocada. Tentei imputar aos seus pais, aos nossos amigos a sua dívida.

- Conseguiu? - perguntou Silvana, animando-se, embora temerosa pelo preço que isso custaria àqueles a quem também não queria mal, apesar de tudo.

- Não se preocupe por eles. Os anjos deles também lutam pela salvação de suas almas. Quanto à você, em parte, eu obtive sucesso.

- Mas... se eu não vou pro céu e nem pro inferno, tenho até vergonha de perguntar: existe purgatório? É pra lá que eu vou?

Aline riu. Era a primeira vez que Aline ria de verdade, desde que se reencontraram.

- Não, meu amor. Também não existe purgatório. Na verdade, esses conceitos surgiram por erros na tradução das escrituras... Mas isso não importa muito. Você também não irá ao purgatório. Você ganhou direito a uma segunda chance.

- Uma segunda chance?

- É. Você nascerá de novo. Não sei muito mais detalhes.

Silvana sorriu. Estava feliz pela oportunidade, estava feliz por saber que Aline havia lutado por ela, apesar de tudo.

- E você? Continuará comigo?

- Sim. Todo o tempo. Mas você não lembrará nada deste nosso encontro. Nem de sua vida passada...

- Nem com hipnose?

Aline riu:

- Nem.

Silvana baixou os olhos, encabulada.

- O que foi? - Aline perguntou.

- Me deu vontade de beijar você. Mas eu devo estar repugnante... velha... e rosa!

Aline aproximou-se. Deu-lhe um beijo sutil. Apenas um roçar de lábios.

- Não está repugnante. E eu nunca esqueci nossos momentos. Nunca parei de desejar revivê-los.

- Por que eu fiquei assim, enquanto você é você mesma?

- Ah! Eu não sou eu mesma. Sou só uma espécie de energia concentrada. Assumi esta forma para que pudéssemos conversar. Você ficou assim por toda a carga de culpa e infelicidade que carrega consigo. Em breve você deixará esse casco também. É necessário que o faça para sua reencarnação.

- Como faço isso?

- De certa forma você já fez. Observe como você está menos densa, mais transparente... nossa conversa parece estar ajudando.

- Faz sentido... Se grande parte da minha culpa devia-se ao que fiz a você.

- Agora, esqueça isso. Precisamos partir. Daqui a pouco os homens voltam. É melhor que não a vejam novamente. – dizendo isso, ela aproximou-se, deu-lhe mais um beijo, desta vez, um pouco mais intenso, provocando um arrepio.

Silvana começou a sentir muito sono, as pálpebras pesadas insistiam em fechar-se. Queria ainda olhar Aline mais uma vez. Queria mesmo tocá-la, desejou-a, ansiou por fazer amor com ela. Mas um torpor incontrolável a invadiu completamente, forçando-a a deitar-se.

Ela teve lindos sonhos, onde voltava com Aline ao período de enorme felicidade e prazer que viveram. Sentia-se protegida, acalentada, envolta em calor amoroso. Podia ouvir um coração batendo à sua volta, um coração além do seu. Até ser empurrada com força para fora de sua nova mãe e berrar, ao mundo, sua enorme ânsia de viver.

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Texto inscrito no Concurso de Contos Lésbicos, uma iniciativa da Instituição Coisa de Mulher, Projeto Olhares Diversos.

Aberto apenas para mulheres, homo ou heterossexuais, o tema deveria retratar o lesbianismo, buscando o combate ao preconceito.