O ESCRAVIZAMENTO DO SACI

Era fim do ano passado, entre a avaliação final de Estudos Sociais e o espírito natalino, que nascia naquela segunda-feira de dezembro, último dia de aula para Diego e sua turma.

A chuva fina, que caía escorava manha na janela da escola envolvida nos dins dons do sino da catedral de São José, que anunciava o dia e apressava à entrada dos alunos de 2º série da Escola Princesa Isabel.

Pés ante pé, em indiana chegavam à sala de aula, como procissão do círio de Nazaré.Ficando pasmos, quando adjacente à porta de entrada, estava em pé, inexorável, a professora Nair, que não era titular da turma.

Para os meninos, aquela morena clara, de estatura mediana, cabelos lisos esbranquiçados, olhar sério e voz firme, com fama de austeridade, não passava da sexta-feira treze.

O impacto da visão dos meninos, fez a fila um amontoado de empurrões e desesperos, que calaram, sob os olhos frios da professora.

Logo depois começou o frio na barriga, quando ela disse que a prova iria começar e de ante mão já se sabia que ninguém iria colar.

Diego lá no fundo olha os seus amigos e via todos envolvidos no mesmo silêncio de filme de terror.Quando alguém perguntou pela professora Ana Rita e em resposta professora Nair disse:

- A aninha foi ganhar bebê!...

Sob tensão, olhares arregalados fitavam o quadro, que professora Nair começava a escrever.

Naquele momento, os Picassos, Newtons e Drumons da criatividade de bolso, carteiras e paredes esmaeceram e se frustram.O clima ficou tão constrangedor, que do seu lugar ninguém ousava levantar ou se atrevia a se mexer.

No quadro, após a sombra das mãos da professora segui-se a 1º questão: Quantos são os poderes da União; O nome do Presidente e cada representante dos Ministérios e como última questão, estranhamente a professora pedia para desenharem e pintarem um saci.

Surgiu uns murmúrios na sala e antes que ele fosse mais além a professora disse em tom amável :

- Meninos e meninas essa avaliação marca não só a evolução de vocês para uma outra série, mas o fim do meu ciclo como professora nessa casa.Não irei mudar o esquema da Aninha, apenas acrescentei a última questão, porque em agosto não homenageei o folclore brasileiro.E cada um de vocês é livre para escolhe uma questão, resolvê-la e essa será a sua prova.

Em silêncio cada qual fez a sua avaliação e saiu sorridente.

Na manhã seguinte, todos esperavam ansiosos pelo resultado. Mas as horas passavam e nada.Deixando uma pequena multidão assomar-se a outra, a outra e de repente já eram muitos cursando uma apreensão de almas penadas.

Lá pelas dez da manhã, para quem já estava desde as oito horas era uma afronta a cidadania, enfim saiu o listão contado pela diretora, Graça.

- Fulano;

- Fulano de tal...

E seguia o suplício, que deixou muitos com as suas unhas em dia.

-Beltrano; Sicrano!...

No meio do alvoroço, da alegria de muitos e da apreensão de poucos a lista ia findando, findando até que chegou ao fim.

A mãe de Diego quis saber o que aconteceu, pois o seu filho não saiu na relação.

Formalizou-se um conflito, generalizou uma confusão, que excitado por dona Paula mãe de Diego deixou a diretora sem saber o que fazer.

Aos berros muitos gritavam, empurravam, vandalizavam.Um escândalo, que pôs dona Maria no chão, que fez a ambulância vir e do nada surgir a imprensa, muitos outros professores e até a representante do Conselho Educacional do Estado.

De repente parecia uma rebelião, alguns funcionários reclamavam salários atrasados, merendeiras reclamavam de merendas estragadas e tantos outros sons vieram a tona.

Por uma vertente do alvoroço dona Paula, mãe do moço, entrou na secretaria para ver a prova do menino.

Tudo parecia normal.Ele escolhera desenhar o saci vermelho, com um saco de presentes, com uma perna só, um gorro azul e uma barba branca.Afinal era um desenho.

Absurdo ou não estava um imenso zero.O caso rolou nos jornais, foi comentário nas rádios locais e a escola, e a professora...Virou notícia nacional, mas o menino, enfim foi aprovado.

No ano seguinte, noutra escola, Diego com a sua nova turma e outra professora, quando, no dia das mães foi pedido com avaliação um trabalho em desenho de uma rosa.O menino, ainda sob o trauma, não hesitou em desenhá-la e pintá-la a rigor.

Alberto Amoêdo
Enviado por Alberto Amoêdo em 12/07/2008
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