DEUS É O MEU VIZINHO

Viver retiradamente é escolha de poucos. Talvez pelo fato de promover penitências ou então ser caseiro de algum sítio ou fazenda, nos “cafundós” do país, esconder-se completamente de algo ou alguém, ou ainda ter experiências mais profundas com a natureza. Enfim, seja lá qual for o motivo, normalmente é uma opção individual e íntima.

Todavia, Pedro não escolheu tal condição: nasceu no fundão do lugar mais ermo do Brasil. Desde seu nascimento, morava em uma caverna, juntamente com seus pais. Seu pai, homem forte, descendia de escravos. Entretanto, sua mãe era filha legítima, não reconhecida, de um poderoso coronel de fazenda.

Pedro crescia entre as cercanias da floresta. Seu pai plantava mandioca, milho, alguns cereais, somente conhecidos pelos povos indígenas e grupos de quilombolas, seus amigos de vivência. As dificuldades impunham união entre eles. No entanto, era muito bom viver ali: pescar seu próprio alimento, caçar perdizes, diferenciando a mistura... Frutas, então? Nem se fala... carambolas naturais, abacaxis da terra, gabiroba do mato... têm um montão... assim, ó!!!...Desse paraíso terreno, Pedro diz a todos que Deus é seu vizinho mais ilustre, pois Ele mora naquela colina, onde o arco-íris é o batente do portal de entrada. Coisa magnífica!

Já adulto e bem vivido, Pedro viu a natureza cumprir o seu curso. Enterrara sua mãe juntinho ao seu pai, num lugar que, anos atrás, escolheu como santuário de descanso merecido, pois ambos foram generosos com ele para sua subsistência.

Despediu um a um daqueles que, como caravanas em meio às trilhas da densa mata, acompanharam o desfecho natural de qualquer ser que vive e também testemunharam o início da vida solitária de um homem, em uma caverninha cuidadosamente arrumada, que até ontem abrigava uma família a dois.

E os anos foram passando...

Vida monótona para muitos, mas para Pedro, preciosa! Amava aquele lugar! Conhecia até os remédios que ficavam nas “prateleiras” das árvores e arbustos!.. Cobra?! É só respeitar seu território, como quem respeita a distância de uma colméia. Assim, não tem perigo!

Pedro não possuía televisão, rádio, água encanada (pra quê? A cachoeira de cristal matava-lhe a sede!). Seu microondas era o fogãozinho feito pelo seu pai, de pura argila, retirada do lamário, encostado no bracinho do rio Dourado.

À noite, sentava-se Pedro na pedra alta, vizinha “de muro” de sua caverna, a saborear a luz sertaneja do luar, a qual iluminava todo o vale que ele também podia avistar. As estrelas cintilavam, fazendo coro com os curiangos, cantores noturnos, cujos gorjeios ecoavam, como sinfonia, ao ouvido acostumado à melodia suave da natureza!

Então, já com os cabelos molhados de sereno, Pedro entra em sua caverna, deitando-se, e em seguida, tendo sonhos não tão maravilhosos como a realidade vivida por ele.

De manhãzinha, ainda com o brilho da “estrela-d´alva”, Pedro vai até o curral, cercado de bambus, onde a vaquinha, ruminando ainda o capim da noite, esperava, como que sabendo, a retirada do leite, o qual, naturalmente quentinho, Pedro tomava.

O rio Dourado fornecia não só os peixes, como também transporte de canoas feitas à mão, por experientes pescadores sertanejos.

Saindo Pedro do curral, viu encostando uma dessas canoas no barranquinho que servia de porto, em frente à gruta de sua moradia. Nela estava Joaquim, pescador amigo de longas datas de Pedro, e de carona, um mancebo.

- Bom dia, Pedro.

- Diiia... – respondeu-lhe Pedro.

- Tô trazendo este homem do povoado da aldeia. Ele quer conversar com vosmecê.

Desceu, no portinho improvisado, o desconhecido viajante. Era um rapaz bem vestido, carregando uma pasta preta na mão.

E já se despedindo Joaquim, virou a canoinha e foi-se, rio abaixo.

- Bom dia. O senhor é Pedro de Tal? – inquiriu o apessoado jovem.

- Sim. “Seu criado”. – respondeu-lhe Pedro.

Então o rapaz apresentou-se a ele, da seguinte forma:

- Seu Pedro, sou Robson, oficial de justiça, e tenho a grata satisfação de informar-lhe que o senhor é herdeiro de grandes posses, na cidade de São Paulo. Herança essa, correspondente ao descobrimento do parentesco de primeiro grau, ou seja, sua mãe era filha única e legítima do industrial e fazendeiro, Sr. Gregório de Tal. Com o seu falecimento, o juiz, analisando o processo do testamento deixado por ele, observou que, com a morte de sua mãe, o senhor é o único direto beneficiário, e portanto, mandou-me encontrá-lo e citá-lo para fazer cumprir o desejo do seu avô, sr. Gregório.

(Subentende-se aqui que o fazendeiro arrependeu-se, mesmo que tardiamente, pois nunca tivera um contato com sua filha, reconhecendo a paternidade daquela menina, fruto de um relacionamento com uma das empregadas da fazenda, reparando assim o erro de anos, incluindo-a em seu testamento).

- Não tô entendendo nada, mas deve ser uma coisa boa pra mim, né? – com tal simplicidade, Pedro discorreu sua narrativa.

Analisando a inocência do eremita, e condoendo-se com sua situação de extrema pobreza (isso em comparação com a vida “civilizada”), Robson prometeu ajudá-lo.

- Seu Pedro, irei com o senhor até São Paulo, pois amanhã entrarei de férias e minha mãe mora lá. Fique tranqüilo, apesar do local não ser da jurisdição em que trabalho, vou assessorá-lo em tudo o que o senhor precisar.

Ajuda vinda em boa hora. Além de ser oficial de justiça, Robson também era Bacharel em Direito, portanto, conhecedor dos trâmites legais da situação de Pedro.

Chegando à “cidade grande”, Pedro, com o olhar curioso feito radar, girava sua cabeça em ângulos de quase trezentos e sessenta graus, querendo, como faminto, alimentar-se com toda aquela novidade.

Avenidas movimentadas, mais perigosas que as cobras, aviões gigantescos, bem diferentes dos passarinhos coloridos do matagal, arranha-céus maiores que os montes com os picos nublados de sua região, rios mal cheirosos, sem peixes, etc, etc, etc.

Pensava Pedro: “Como será que este povo todo come, se não tem nem terra pra plantar?!”

Também estava abismado com toda aquela poluição visual e sonora.

Depois de dois dias na casa da mãe de Robson, foi então com ele conhecer sua mansão no Morumbi, a qual, nem de longe lembrava sua protetora e humilde caverninha. O dia todo foi de curiosidade, conhecendo sua nova residência. Entretanto, a noite não diferenciava das novidades diurnas.

Indo de madrugada para o parapeito da mansão, observou gente estranha na avenida lateral: mulheres nuas, com vozes grossas, acenavam insistentemente para os carros apressados da via, e do outro lado, grupos de garotos esquisitos amontoavam-se no breu da esquina, fumando, sem parar, "cigarrinhos" que, para ele, eram de palha. Em seguida, correram todos eles, ao avistar um dos carros, o qual “gritava”, desesperadamente, com luzes vermelhas piscando, em seu teto.

Pedro então continuou vendo toda a cena, na qual alguns daqueles “garotos”, com um negócio na mão, apontavam na direção dos homens uniformizados que, ao descer daquele carro com luzes vermelhas, foram recebidos por estalos, parecidos com taquara rachada ao vento, só que o som dez vezes mais alto!

Inocentemente, ignorando aquilo tudo, fechou a janela e tentou dormir, debaixo de um tremendo falatório que ocorreu logo após o final dos estalos barulhentos.

Amanhecendo o dia, resolveu passear um pouco pela redondeza, e, ao sair do monumental portão de ferro de sua mansão, deparou-se com aqueles uniformizados homens do carro que “gritava” circulando por ali, e também com um daqueles garotos (os do cigarrinho de palha), deitado ao chão, estando ele mais furado que peneira. Chocado com a cena, e com toda a parafernália da cidade grande, voltou à mansão, pegou o telefone, o qual, um dia atrás, Robson, seu “advogado”, o ensinara a usar, e com o número do celular do amigo que guardara de cabeça, ligou para ele, dizendo-lhe:

- Robson, aqui é o Pedro. Eu estive pensando... Pode ficar com tudo isso “que você me deu”. Em troca, por favor, me leva de volta pra minha caverninha, vai???!!!