Sem título

Ele chegou assoviando sua melodia meio prepotente, convencida, que saía dos seus lábios extremamente soberbos. Cantou a música, me cantou. Se aproximou e ao meu lado veio se sentar.

- Dia bonito, né? – ele dizia como se nada estivesse acontecendo.

Mas eu sabia que ele via como eu desviava o olhar, como eu respirava tão tão rápido... até pelo vestido, as batidas do meu coração agitado se sobressaíam. Beiravam o ridículo as reações que eu sempre tinha com ele.

- Não acha perigoso? – eu disse apertando os olhos fechados, para que não me rendesse aos seus encantos.

Ou pelo menos não assim, de uma vez.

- Não me importo. Ouço meu coração. E ouço até o seu. - Ele olhou sorrindo pro meu peito.

Corei. Ele reparava mesmo cada gesto, cada reação minha. Me conhecia tão bem.

- Não ouça – eu disse abrindo os olhos, um pouco severos. Mas logo depois me deixei levar pela situação.

- Sinta.

Era quase palpável o fogo que vi nos seus olhos.

Peguei sua mão, a levei ao canto esquerdo de meu peito. O vento me trazia o perfume que ele exalava e eu tinha vontade de ali, naquela colina, bem debaixo daquela árvore tão carregada, poder beijá-lo incessantemente.

Senti o toque de sua pele com a minha, seu calor me acalmou imediatamente, como se meu coração se tornasse são.

- Percebeu agora o porquê de eu precisar de você aqui? – eu disse com os olhos suplicantes.

Com sua mão firme, pegou a minha, que parecia tão incerta, e a levou até seus olhos, desceu até seus lábios, num movimento circular.

Fechou os olhos.

- Já percebeu que só tenho olhos pra você?

Assenti com a cabeça. Ao som da sua voz meio rouca e muito certa, meu coração acelerou ainda mais e senti um ar quente brincando em minhas costas.

- Acho que não sou normal do seu lado – eu disse, acanhada.

- Acha mesmo que eu sou?

E ele me beijou. Com força, como se fosse a última vez que nos veríamos, que nos sentiríamos. Mas não podia ser verdade. Não pra mim. Aquele beijo me trazia sentimentos estranhos de insegurança e ao mesmo tempo a certeza de que nos veríamos de novo, sem nenhuma alma que pudesse atrapalhar... Mal podia esperar para me entregar a ele de novo.

Oak
Enviado por Oak em 14/04/2009
Reeditado em 31/10/2022
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