MULTIDÃO DE LOUCOS SEM HOSPÍCIO

Faz muito tempo, descolei a idéia de encontrar lugar calmo no

meio destas milhões de cabeças loucas, costumes turbulentos e pen-

samentos eróticos. Comportam-se como baratas tontas, correndo em

diversos sentidos, dando cotoveladas e soltando faíscas como que,

procurando oxigênio que areje ou lave os pulmões contaminados.

O chão estremece ao furor das máquinas que empurram a mul-

tidão em nuvens, comprimida nas beiradas dos postes,soltando "urrros"

de pavor, por não exercer mais o instinto humano de andar incólume

sem que os pulsos não lhe sejam roídos pelos ladrões ou as juntas não

lhe sejam torcidas pelos buracos do asfalto quente, ou o sangue suga-

do pelos portadores de mensagens oficiais impressas, detectando-lhe

o suor, enfiando antenas no crânio, guiando-lhe os passos e traçando-

lhe o destino.”É uma multidão de loucos sem hospício:” asquerosa, in-

controlável, desprovida do direito de ser ou ter; apenas, cambiada como manada, despejada em imensos vagões, onde chove e faz frio, ao mesmo tempo em que o calor da fúria ultrapassa os vergalhões e alcança o enxofre na fornalha ardente do inferno em brasa.

“A bravura de quem quer que seja, não imprime vaidade nos corações”, o poder estremece em reclames de paredes e muros, controlado pela cegueira dos senhores que, como mexilhões grudam-se nos cascos dos navios que transportam petróleo, diluindo o facho da população sonhadora. São tantos os que derramam seus pesadelos e estórias contundentes, como que aliviando os grampos, cujas âncoras proliferam a ferrugem arcada no psiquismo, como bicho-de-pé que penetra espalhando as lêndeas até alcançar os ossos. Não é comum encontrar alguém com ar de anjo ou anjo com ar de semelhante – “a escrita inicial não reza mais o estado real das pessoas”. Somos como fios elétricos ou galinhas que não

chocam mais: ora checamos a validez da lâmpada; ora inválidos acendemos a chama. As verminoses que outrora só amarelavam as faces das crianças barrigudas, do chão lamacento dos quintais cercados de varas; das choupanas e palhoças, onde as cobras pretas desciam pela parede de barro cru para mamar no peito das mães, que nem ao menos sentiam a leveza das línguas sugando o leite! Hoje habitam paredes intestinais de medalhões- gente de altos salários, ditos patrões protetores da plebe esfomeada, que tenta sobreviver aos solavancos dos seus gestos covardes e salvadores.

Diversos fazendeiros patrões, cujos servidores recebiam ração de farrinha e feijão, o suficiente para levar a panela ao fogo apenas uma vez, muito destes, quando sepultados são rejeitados pelos bichos da terra, fugitivos, ao sentirem o mau-cheiro das carnes podres. – Geralmente, o sertanejo fustigado, beira aos noventa e se entrega a Deus com a mais perfeita tranquilidade e paz de espírito. Dorme eternamente, e sua alma não é dessas que desencarnam em terreiro de macumba, ou ficam aparecendo amortalhadas pelas esquinas, nas noites escuras. Ela não é alma penada... vai direto para o céu

e são Pedro não impõe restrições: quando ouve a campainha tocar, manda soar as trombetas, estender o tapete e acender os candelabros. Entra cantando Salmos e entoando “Te Deum”; senta à direita do Pai, como manda a reza. Por aqui, residindo em pequenos caixotes que chamamos de apartamentos, colamos borracha nos ouvidos, para minorar o desprazer de escutar a rotineira lamúria do“disse-me-disse”- briga de comadres que ora se arranham como gatas no cio, ora desconversam, tecendo elogios e gentilezas entre si. Como exemplo, uma amante do prazer sexual, transparece verdadeiro vexame: Berra, reclama, deixa a todos perplexos, como se estivesse sendo amordaçada na cama, mesmo sob protesto de uma desquitada que interfere no referido ato do obcecado casal com ameaças, pseudônimos como: vaca, vagabunda, puta-de-zona; todavia, as ofensas não chegam à cama dos amantes, que mais ouriçados ficam, desprezando as interferências. –Este caso já chegou à reunião do condomínio; posto em discussão, decretou-se o direito de exacerbação no momento do ato de procriação. A síndica alimentava um namorico na delegacia, compartilhando com outra moradora, os dividendos; no auge da competição mostrou sua superioridade, expulsando do prédio a rival, que convidada a comparecer à delegacia, apresentou para testemunha outra precursora coincidentemente, por armação do destino, amante do mesmo delegado. Como a questão desenvolveu-se muito bem relacionada dentro das paredes da delegacia, não sei por que levar à frente o tal mexerico; foi o que aconteceu: Dado tudo por encerrado, todo mundo ficou na sua. – Em outro andar um morador bate na mulher diariamente e já o faz até com hora marcada; tanto assim, que outra moradora ao escutar os gritos de socorro, fala para a empregada: “ Joana já está na hora de preparar a mamadeira do Fernandinho!... O morador do décimo andar ao atender a porta às quatro da manhã, detonou o revólver contra um descontente, que demonstrava insatisfação com o canto do seu passarinho aos trinados exatamente à hora em que retornando do trabalho, recolhia-se

para dormir.- mais a baixo duas bichas se batiam em ciúme, assanhando o papagaio da vizinha que às gargalhadas se divertia. – Na mesma instância uma donzela uniu-se em matrimônio a uma figura da alta sociedade apenas com o objetivo de garantir a herança; ao falecimento do cônjuge, insuportável surpresa a envolveu, ao saber do seu deserdamento, pelo simples fato de ter como profissão o ato de tocar violino, profissão avessa à dignidade dos importantes cargos da família. Desiludida, passou a alugar vagas para moças – método que encontrou para esvaziar os bolsos dos amantes da boa reputação, satisfatoriamente, deixando-lhe vultosas somas por segundos de desenganos das esposas inocentes.. Há ainda a expectativa da moradora que cria gatos e cachorros no apartamento, oferecendo-os em aluguel na época do cio e uma segunda que tem como meio de vida, o ato de saciar sexualmente, presos nos presídios e penitenciárias. Cada qual estabelece para si, um sistema de sobrevivência, dentro das fórmulas que a sociedade oferece para as loucuras cotidianas.

Zecar
Enviado por Zecar em 15/05/2005
Reeditado em 17/10/2007
Código do texto: T17038