Da planta à pizza (conto sem sentido, mas conto)

Apresento-vos essa história, sem pé nem cabeça, ou qualquer coisa que faça muito sentido. É um fato que agora vos digo, ou melhor, vos escrevo, e aconteceu comigo.

Algo extraordinariamente intrigante na minha adolescência foi uma planta aparentemente imortal de um vizinho. Sinceramente nunca entendi muito sobre plantas, apesar de gostar delas de qualquer jeito. Lembrei-me agora que certa vez ganhei um vaso minúsculo com uma plantinha a qual ninguém sabia identificar, me apeguei com a tal planta sem preconceitos , a regava, conversava com ela, e ao contrário das muitas plantas ornamentais a minha não era tão bonitinha, nem tinha flores, ou algum diferencial exuberante, enfim, descobri que era mato. Sim, uns matinhos apenas, eu já suspeitava, mas na verdade nunca me importei, cuidava como se fossem gérberas, lisanthus, e o matinho crescia no jarro pequeno, até que certo dia, acordei e vi que ele havia sumido, ninguém assumiu o ato, tive que me conformar. Já outra vez minha mãe ganhou flores, cravos brancos lindos, eu adotei-os de imediato, cuidei deles quase que rigorosamente, até que os dias foram se passando e a cada dia um ia partindo. Mas enfim, esses relatos são apenas para contar minha efêmera experiência com plantas, flores e derivados que me causaram apego e me levaram a especular como uma planta(calancoê, verbena, nunca soube o nome) sobrevive por tanto tempo como a tal planta do meu vizinho. Com ele, literalmente, funciona o ditado de que “a grama do vizinho sempre parece ser mais verde”.

A princípio eu pensei: “ Ele é um senhor que beira os 80 anos de idade, deve ter tempo e conhecimento o bastante pra cuidar muitíssimo bem dessa plantinha.” Então me esforcei uma semana em observar a planta para captar o método de cuidado aplicado por ele. Mas nada acontecia... Eu não o via nem regar! E a planta estava lá hiper colorida, cada vez um pouco maior, gritando beleza.

Então não resisti. Fiz uma cartinha sucinta:

“Caro senhor Fulano de tal, eu tenho o observado esses dias.

Não, não se envaideça, não sou uma admiradora secreta.

Nem se preocupe, pois também não sou seqüestradora, ou coisas afins.

É que especulando mais precisamente o senhor e a sua planta, essa de cor indecisa, roxa, lilás, meio avermelhada, rosa, enfim, percebi que ela não envelhece, os raminhos estão virando galhos maiores, e eu não vejo o senhor regá-la em nenhum momento que seja.

Diga-me senhor, essa planta é auto-suficiente? Tem algum adubo que eu não conheço?

Esclareça-me o que ocorre com esta planta, pois nem mesmo tenho olhado do mesmo jeito para as saladas, todo o mundo que portou, algum dia, raízes me deixa intrigada!

Espero uma carta-resposta atrás da porta no térreo do 2° bloco do condomínio. E não tente saber quem eu sou.”

Dois dias após ter mandado a tal carta fui de encontro à minha resposta, desci com um macacão preto folgado e uma máscara de vaquinha ( não me pergunte o por que). O porteiro noturno do prédio me flagrou de longe, agachada procurando a carta atrás da porta, ele ainda me chamou a atenção, deu berros, eu obviamente peguei o envelope e corri (crianças, não façam isso em casa!). Imagino que ele jamais vai esquecer o dia em que viu uma vaca desviando-se das colunas do andar térreo, descontrolada às 2 da manhã.

Ao subir li a carta, que dizia:

“Querida estranha. Minha planta é um elixir da juventude, auto-suficiente. Ela se mantém bela e cresce gradativamente durante 3 gerações da minha família. Por favor não conte a ninguém, sabe como seria, em pouco tempo meu apartamento receberia mais visitas do que a torre eifel, ou a estátua da liberdade, acho que até mesmo os ets que provavelmente fizeram os moas na Ilha de Páscoa passariam por aqui. Então sigilo absoluto. Só lhe revelo esse segredo pois sei que você deve ser alguém de uma mente absurdamente inteligente e logo descobriria sozinha. Até mais ver.

Senhor Fulano de tal.”

Eu sorri. Como poderia ser verdade? Não poderia! Fiquei pensando o que eu faria, a história tinha se tornado extremamente inusitada. Pensei tanto, inúmeras coisas ilógicas, até que dormi.

Quando acordei nem mesmo lembrei a que conclusão eu tinha chegado, certamente a nenhuma. Fui à sacada e ainda estava lá, a planta exuberante do vizinho. Fiz as coisas de praxe pela manhã e desci para a piscina do prédio. Pensei: “ Vou ter uma idéia descente de cuca fresca.” Logo que cumprimentei a jovem senhora zeladora do condomínio ela comentou comigo: “-Camila, querida, você não sabe o que aconteceu, o seu Valdomiro, o vigia da noite, disse que ontem tinha alguém tirando com a cara dele. Disse ele, que a pessoa desceu com roupas daquele povo do olho puxado, tudo igual...”

“-Ninja.”

“-É deve ser isso aí, e com uma máscara de boi de chifre e tudo. Ele disse que não sabe, se tão querendo por medo nele, ou tão querendo troçar da cara do coitado porque a Lucíola o traiu. Não sei, mas contaram isso aí pelo condomínio.”

“-Ah, dona Ana, nem se preocupe com isso, deve ser brincadeira de alguma criança. Férias e uma imaginação infantil é o bastante pra fazer aparecerem essas coisas.”

“-Deve ser minha filha, antes seja! Vezenquando acontece essas coisas estranhas mesmo né.”

“-Verdade. Bem, tenho que ir dona Ana, bom trabalho pra senhora. Até mais.”

“-Certo, filha. Até.”

Pobre seu Valdomiro, atribulado com aquela cena estranha. Mas talvez seria mais saudável às mentes alheias antes pensarem que era isso do que toda essa minha história louca.

Boiando na piscina, com o cérebro fervendo de idéias, veio-me algo de supetão: “ Ora, eu experimento a planta, se ela realmente for o que ele diz, eu vou sentir alguma diferença significativa na hora, dos 17 passo pros 9 anos!” Coloquei o roupão, as havaianas, e lá fui eu. Em casa, primeiramente, trocar de vestimentas. Após isso, esperei o vizinho descer as escadas e então subi. Toquei a campainha do seu apartamento, e a secretária atendeu.

“-Olá.”

“-Oi! O seu patrão disse que tem uma planta doente aqui. Ele entrou em contato comigo, sou do “plantas pedem socorro”, e pediu para que eu viesse avaliar o caso.”

“-Oxe, mas tão novinha assim, tu já trabalha?”

“- É que é meu primeiro emprego, e eu sou mais velha do que aparento. Sou um prodígio em assunto de plantas. Agora posso entrar?”

“- Mostre um crachá menina, um documento, mostre aí.”

Eu estava na minha casa, obviamente não estaria levando qualquer documento que fosse.

“- Mas que conversa é esta? Eu vim aqui ajudar, e sou submetida a essa humilhação, ter que apresentar documento. E a minha palavra? Palavra não se vale mais de nada nesse país, tem-se que andar com todo tipo de documento agora aí pelos cantos? Quer dizer que pra eu entrar pra ver uma planta tem que ter documento, a planta exige o meu documento, eu não existo para a planta se eu não tiver esse documento? Que bobice é essa? Tenho documento logo existo. Então é isso? (Sim, é isso! Pensei comigo mesma.) Eu não quero mais saber de ajudar seu patrão. Vou é embora.” Fiz todo esse drama, realmente.

“Ei, moça, espere, você até parece os políticos amigos dele que vêm por aqui.”

“Ah, seu patrão é político?”

“ Oxente. Se tu trabalha pra ele como não vai saber?”

“-É que é meu primeiro emprego, com meu primeiro cliente, não perguntei muitas coisas.” Respondi, com um sorriso amarelo.

“- Tá certo mocinha, pode entrar. Mas veja isso logo.”

“- Sim senhora. Ah... Desculpe qualquer exagero, sabe como é, primeiro emprego...”

“- Sim, sim, se não sei! Tu já me disse essa história uma trocentas vezes. Deixa eu cuidar do meu feijão. Veja logo isso aí. E avise quando tiver saindo.”

“-Tudo bem, claro.”

Lá estava a planta, tão próxima. Corri em direção a ela e... Bati na porta de vidro da sacada.

“- O que houve aí?!”

“- Nada, nada senhora. Eu só bati a cara na porta.”

“- Vixe, não é uma surpresa, eu a lustro que é uma beleza, ninguém ia vê ela tão fácil.”

“- Pois sim, eu não vi. Mas pode ficar tranquila já vou começar meu trabalho.”

Eu peguei umas 5 flores, olhei pros cantos e enfiei goela a baixo.

“-Ei!”

Virei com o coração batendo a mil. Era um garoto.

“- Você está comendo as flores?”

“-Não! Claro que não!”

“-Está sim. Por que? Meu avô te contou sobre o elixir?!”

“- É... Na verdade foi algo do tipo. Então é verdade?”

“- hahahaha. Claro que não! Ele me disse isso quando eu tinha uns 9 anos, com outra planta, já faz 8 anos que isso aconteceu.”

“ – Sim. Mas o que ele põe nessa coisa?! É uma aberração, ele nem a rega!”

“- Rega sim. Como ele tem o sono complicado, ele a rega em horários estranhos, geralmente lá pelas 3 da madrugada.”

“- Não me diga... Mas ainda assim, como ela sobrevive por tanto tempo?”

“- Banana.”

“- Banana?”

“- Sim.”

“- Minha nossa, nem vou perguntar mais nada. Ele me enganou, bonito...”

“ – Imagino, aqui tudo é meio estranho mesmo. Mas, prazer, me chamo Emílio.”

“- Prazer, Camila.”

“- Bom, se você me permite, gostaria de provar a pizza da dona Maria? E acabar com essa história esquisita?”

“- Você não estranha essa situação toda?”

“- Sim, mas enquanto comemos você me explica.”

Eu aceitei, e desde então me convenci totalmente de que político é mesmo demagogo, e até em casa de político tudo, literalmente, acaba em pizza.

*Conto parcialmente fictício.

Camila Trideli
Enviado por Camila Trideli em 17/08/2009
Reeditado em 17/08/2009
Código do texto: T1759080