Um menino e seu símbolo

UM MENINO E SEU SÍMBOLO

Setembro/2009.

Newton Schner Jr.

Um símbolo o atraia. Era ainda criança quando começara a desenhá-lo. Desconhecia sua origem, seu significado. Com esforço o traçava. Nos instantes em que se encontrava debruçado sobre os papéis seus, e junto das cores dos seus lápis prediletos, era seu próprio profeta: aquele símbolo nunca mais o abandonaria.

Entre os gregos e persas este símbolo foi estampado. No Tibet fez-se supremo. Alguns o relacionavam com o sol; outros o acreditavam ser seu filho. Ibéricos o pintavam em suas igrejas e templos espirituais. Entre os germânicos, desde os tempos de Thor fez-se altivo. Mas o menino a tudo desconhecia. Queria apenas rabiscá-lo. E assim o fez.

Tinha doze anos. O mundo era incapaz de causar-lhe indignação. Tudo lhe soava como um grande espetáculo, no qual ele não tão cedo pretendia estar inserido. Um passo errado o levou a uma experiência mística. Tendo desrespeitado as ordens de sua mãe, apanhou um pedaço de bolo sobre o qual havia sido alertado horas antes: "Não o experimente pela noite, pois poderá causar-lhe enjôo".

E enjoado, colocara a pequena mão sobre o estômago. Tontura. Suor. Que arrependimento tê-lo feito! Se aquilo era fruto de uma punição, de um descumprimento, ele não sabia. Aterrorizado estava. Suas pernas tremiam como se estivesse em jejum. De modo moderado, o ar começara a faltar-lhe. Que sufoco! Mas queria resistir. Queria, também, não envergonhar sua mãe. Bom menino, era sempre bem visto aos olhos não apenas de sua criadora, como também daqueles com quem ela convivia. Avermelhava-se-lhe o rosto quando vozes femininas pronunciavam-lhe palavras de intimidação e desapontamento: "Como foi possível?", dizia uma voz velha, rouca, como se regada à fumaça de vários cigarros baratos, "Não posso acreditar que um menino tão bom, honesto e quieto foi capaz de desrespeitar as ordens de sua mãe... Ah, coitada! Coitada se o souber! Ah, o que será dela, quando tiver de levar seu filho ao médico e disser-lhe: 'Não pude fazer nada, Doutor... Eu confiava tanto nele, mas ele me desrespeitou!'".

E como que em um transe, quando mil vozes das mais diversas entonações encontravam-no de modo perturbador, sentou-se à beira da cama e sem que tivesse controle sobre seu próprio corpo, dormiu sobre a colcha amarrotada.

Não sabia como havia chegado até ali. Tudo era mágico. Encantava-o cada detalhe daquele lugar místico e abençoado. Estava ao chão e nele meditava. Dele brotava uma temperatura agradável, da qual jamais poderia adquirir um resfriado. Sonhava, na realidade. Mas tudo se compunha de uma beleza que mesmo sendo inigualável, parecia imensamente real. O símbolo do seu inconsciente estava estampado no solo, em simetria consigo. Estava logo abaixo de si. O menino não meditava para fugir da realidade, mas para sentir-se tal qual um componente, por menor que fosse, daquele mundo que o cercava.

Dos corredores brotavam as mais diversas vozes. Todas flutuavam ao encontro de seus ouvidos. De início, pareceu-lhe tudo muito confuso. Foi necessário que se concentrasse mais a fundo para entender que os mestres de cada povo ali presente dirigiam-se uns aos outros em sânscrito. Um monge tocou-lhe o ombro e dirigiu-se em sua própria língua: "Levante-se e venha, meu amigo! Venha participar do culto que costumamos realizar ao sol, pedindo-lhe para que forneça energia ao nosso mais recente plantio. Você foi convidado para uma ocasião especial. Tornou-se um escolhido, pois o símbolo da nossa prosperidade vive em si e em todos nós – nos é uma benção em comum". Lentamente nosso amigo se levantou. Do mesmo modo como adentrara com paciência à meditação, deveria, portanto, fazê-lo também ao deixá-la.

Estava descalço. Andava despreocupado, sendo acompanhado pelo monge de belas vestes. Havia quatro corredores de mesma dimensão. Todos davam para o mesmo destino: o centro do templo, no andar superior. Em silêncio ele foi conduzido. Sem que compreendesse seus instintos, seguia aquela passagem como se já a conhecesse, como se ela já tivesse estado em meio a outros sonhos seus.

Não havia energia elétrica naquele lugar. Um esquema de espelhos bem colocados era capaz de refletir a luz do sol e iluminar os mais longínquos cômodos do que lhe parecia nitidamente um castelo. Diante de si, por vezes a luz era forte o suficiente que ele acreditava que com ela poderia cegar-se.

Akhenaton estava diante de si e de todos os presentes. Ocupava o centro de um salão de teto aberto, através do qual provinham raios do sol. "É ele o Deus a quem devemos seguir e adorar?", perguntara baixo o menino ao monge que estava ao seu lado. "Não. Não há nada superior à figura do sol. Akhenaton hoje fora escolhido para conduzir esta cerimônia. Cada povo e cada civilização tiveram, durante uma época de glória, os seus mensageiros, os seus elos entre o humano e o divino". Mantinha-se de olhos fechados na pausa de cada palavra sagrada que pronunciava aos céus. Quando a luz os tocava, o pequeno iniciado notava aquela tonalidade de um azul do qual jamais imaginara ver em um egípcio. De braços esticados, com dedos quase que colados uns aos outros, Akhenaton oscilava a entoação de sua voz conforme adorava: "Tu ages no céu, mas teus raios estão na terra. Vê-los é o mesmo que sentir um sopro de vida nos pulmões. Oh, sol! Meus olhos se satisfazem diariamente só em contemplá-lo. Tu ages em nossos corações!".

"Está chegando o momento", disse o monge. "Prepare-se para o verdadeiro espetáculo do qual você jamais irá se esquecer", "O que irá acontecer? Apesar de encantado com tudo, o que vejo ainda é confuso", "O símbolo que tanto ocupa sua mente irá acompanhá-lo para o resto de sua vida. Ele representa a escolha que os deuses fizeram por sua pessoa. Cada mensageiro do sol fez brotar coisas em seu caminho para que você finalmente tivesse a oportunidade de compreender que foi um escolhido". E quando o sol atingiu o seu ponto máximo e seus raios tocaram o corpo de Akhenaton, o qual ocupava o centro do símbolo sagrado, uma luz forte expandiu-se de modo com que o menino teve diante de si apenas uma imagem branca.

Com isso acordara. Sua mãe estava próxima de si. Uma luz real tocava-lhe os olhos: era um Doutor que o examinava. E sem que pronunciasse uma só palavra sobre a experiência que tivera, relembrara os últimos instantes de sua presença naquele templo. O monge lhe havia dito: "Você deve voltar. Precisa partir. Não se pronuncie sobre sua experiência, até que os deuses o solicitem e que permitam fazê-lo. Lentamente você irá conhecer melhor a mística de seus instintos e compreenderá a grandeza do símbolo que eles desenharam em seu caminho. Prospere naquilo que achar correto seguir. Nunca deixe que o seu coração se distancie do encantamento que a arte é capaz de proporcionar. E quando olhar para o sol, independente de onde estiver, pense que você também é um mensageiro – um sol para aqueles que convivem e que hão de conviver consigo. Escolha-os com sapiência, estando isento da falsa piedade que corrói os homens. E se os fizerem por merecer, guie-os ao caminho da verdade, da vida aplicada às leis naturais".

Seguindo o conselho, o menino deu-se por consciente e apenas respondeu ao Doutor e à mãe sua que se queixava de enjôo, sem lembrar-se daquilo que havia sonhado. Nunca teria imaginado que um passo em falso poderia resultar em uma experiência mística, que o fizesse compreender melhor parte do instinto que o conduzia à criação das quatro pontas daquele símbolo simétrico e encantador.

Newton Schner Jr
Enviado por Newton Schner Jr em 14/09/2009
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