FAROESTE -Cap 9. Final.

Capítulo Nono.

“A hora decisiva”

Faltavam poucas horas para o Chambord Bank abrir. Do lado de fora havia uma imensa fila. Marlin Chambord passou por todos. Mentalmente, os agradeceu por estar ali, na porta do seu banco, trazendo seus dólares para seu cofre.

— Senhor Chambord — disse o xerife antes que ele entrasse pelo banco.

— Alguma novidade para mim? — perguntou Chambord.

— Sim. Tenho um presente para o senhor. Alguém lhe mandou um presente — apontando para o coche depois de virarem a esquina da rua.

— Meu coche! — exclamou Chambord. — Quem o devolveu?

— Não conheço senhor Chambord. Mas disseram que a pessoa se identificou como um Ranger do Texas. Disse que o Ranger estava apressado e pediu que chamasse o xerife para devolver o coche ao seu legítimo dono... O Ranger deve estar por aí. Eu não estava na delegacia na hora.

— Como ninguém viu nada! Ninguém sabe onde o encontraram? O senhor vai verificar isso para mim! Quero saber onde esse coche estava e o que foi feito dos meus dois empregados e do meu irmão! Vai ficar aí parado!

Um rancheiro passou numa carroça pela rua e acenou a Chambord:

— Obrigado, senhor Chambord! Que Deus lhe pague!

— Quem é ele? — perguntou Chambord, não entendendo aquela gratidão.

— Eu não o conheço! Estava agradecendo por alguma coisa...

— Não me lembro de...

— De ter feito nada para que alguém o agradecesse, não é mesmo! — comentou o xerife.

— Esta me deixando nervoso! Resolva isso logo para mim ou...

— Ou vai fazer o quê! Pode trazer minhas hipotecas a hora que o senhor quiser. E de agora em diante... pare de ameaçar e ande na linha, senhor Chambord, pois eu estarei como sombra atrás do senhor. Dê um passo em falso e eu e os Rangers o colocaremos numa forca. Passe bem!

Que diabos estava acontecendo... — pensou Chambord.

Voltou para o banco, apavorado, encontrou mais apavorados ainda seus caixas. O gerente o chamou delicadamente.

— Estava rezando para que o senhor chegasse senhor Chambord...

— O que esta havendo? — perguntou Chambord percebendo que alguma coisa estaria mesmo errada. Seu gerente estava muito nervoso.

— Todo dinheiro que estava nos caixas já se foi! Houve muitos saques... estamos precisando de mais dinheiro...

— O que esta havendo nesta cidade... Por que tantos saques assim...

— Eu não sei senhor Chambord. Todos estão inquietos por aí. Todos estão sacando dinheiro.

— Senhor Chambord... eu estou com pressa! Preciso do meu dinheiro — reclamou alguém na fila dos caixas.

— Isso mesmo! Estamos com pressa... — reclamou uma senhora.

— Senhores... dê-nos alguns minutos! Eu já vou liberar mais dinheiro para os caixas — apaziguou Chambord rumo à tesouraria juntamente com o seu gerente.

— Se continuar assim... — murmurou o gerente.

— Esta acontecendo alguma coisa... Stanfort. Alguma coisa esta no ar.

— O que, por exemplo? — perguntou novamente Stanfort.

— Stan... Pague... Quero dizer, supre os caixas e volte aqui depois.

— Sim senhor — disse Stanfort saindo com uma sacola cheia de dólares.

— Ah, Stan... quanto já sacaram até agora?

— Cerca de vinte mil dólares, senhor Chambord.

— Meu Deus!

— Se continuar assim... ficaremos sem provisões até ao final da semana. Ninguém esta depositando.

— Tudo bem! Volte aqui depois.

Sozinho pela sala Chambord começou a refazer suas contas. Realmente estaria sem um centavo se as premonições do seu gerente se confirmassem.

Depois de algum tempo, seu gerente voltou.

— Às suas ordens — sentando-se do outro lado da mesa.

— Stan... estou precisando de você.

— Pois, não, senhor Chambord.

— Se continuar... estaremos sem provisões...

— Isso pode até ser passageiro... um caso atípico!

— Não! Creio que não! Vou lhe confidenciar um segredo... espero que fique apenas entre nós dois. Alguém entrou em meu rancho, eu sempre mantive uma boa reserva por lá. Precaução! Se assaltassem meu banco, não levariam todo o meu dinheiro... sempre mantive um caixa em separado em meu rancho.

— Entendo...

— Não esta entendendo... Alguém levou esta reserva! Não temos mais reserva alguma... Stan! Não teremos como cobrir os caixas se isso continuar!

— Isto é ruim, senhor Chambord. Esta cidade vai cair em cima do senhor. Mas ainda pode vender o rancho que comprou da senhorita MacGreen... ainda tem propriedades para vender... Daria para cobrir... num caso emergência!

— Eu não vou fazer isso!

— Terá que fazer! Ou eles o colocarão numa forca. Desculpe, mas é verdade. Segundo dizem... há alguns Rangers do Texas por aí... investigando sei lá o quê! E o xerife esteve aqui fazendo perguntas...

— Sobre...

— Se eu conhecia outras atividades do banco...

— O que disse a ele?

— Bem... disse a verdade! Que havia sido promovido à gerente e faz pouco tempo e não sabia de nada.

— Esse xerife esta me enchendo...

— Quando o senhor chegou aqui, ele entrava em casa com um cocheiro.

— Filho da mãe — murmurou Chambord. — Cuide de tudo por aqui Stan. Tenho que resolver algumas coisas.

— Eu disse alguma coisa demais!

— Não, não! Cuide do banco, por favor!

Quando saiu de sua sala, percebeu que a fila nos caixas havia aumentado mais ainda. Mal chegou à rua, foi interpelado pelo xerife.

— Como vai, senhor Chambord?

— O que é agora...

— Pode passar na delegacia depois...

— Posso saber do que se trata?

— Esta sob investigação... Não se esqueça — respondeu o xerife — Chambord ficou pensativo no meio da rua. Entendeu que o xerife o seguia. Foi até ao saloon. Iria contratar alguns homens.

— Hei Brandon — gritou um homem junto ao balcão —, esta sabendo que há alguns Rangers em Santa Fé?

— Eu ouvi esse comentário pela cidade — respondeu o barman. — Há alguma coisa por aí...

Chambord ao ouvir a conversa, voltou novamente para a rua. Olhou rumo ao seu banco. A fila estava pela rua. O xerife entrava em seu banco. Tinha que fazer alguma coisa. Montou em seu cavalo e saiu da cidade.

*****

Dois dias depois...

— Senhorita MacGreen — disse o xerife ao entrar em sua casa — Chambord deve ter saído da cidade. Não o vejo há dois dias. Não foi ao banco e o gerente esta aflito por lá. O banco dele nem abriu as portas hoje.

— Acha que ele esta preparando alguma coisa para nós?

— Se o conheço bem...

— Os Rangers... ainda não chegaram xerife?

— E nem vão chegar! Eu inventei esta história para ver se punha um pouco de medo nele. Ele acreditou! Meus Rangers nunca chegam e ninguém vê Ranger algum por aí... somente boatos.

— Xerife, venha cá... — chamou MacGreen olhando pela janela. — Quatro forasteiros pararam no saloon e Chambord esta entre eles.

— Não os conhece — murmurou o xerife, aproximando-se mais da janela.

— Não! Nunca os vi por aqui xerife.

— Não parecem amigáveis... Esta chegando mais três... Chambord esta montando seu exército.

— Podemos nos preparar, xerife.

— Vamos para a delegacia, minha querida. Chegou a hora decisiva! Temos que agir e rápido antes que cheguem mais homens de Chambord.

— Espere-me colocar uma roupa mais apropriada e tirar este vestido.

Já na delegacia vistoriaram os revólveres. Cada um apanhou um rifle Winchester e os entupiram de balas.

Olharam um para o outro.

— Tem certeza que sabe manejar isso, senhorita? — perguntou o xerife ao vê-la ajeitar melhor um cinturão de dois coldres. Ela sacou os revólveres simultaneamente e os girou nos dedos várias vezes para frente e para trás.

— Eu sou melhor do que muitos homens nesta cidade, xerife. Atiro muito bem com as duas mãos. Serão dois revólveres meus e o do senhor sacando ao mesmo tempo contra eles... Valemos por três homens! Preocupe-se com três na frente do senhor e deixe os outros comigo, pois eu tenho dois revólveres... e, deixe seu revólver engatilhado, os milésimos de segundos do primeiro tiro poderá nos salvar a vida... três deles hipoteticamente já estarão mortos.

— Esta com muita fome de vingança. Tem que manter a calma e a pontaria.

— Saberei me cuidar — resmungou apanhando o rifle.

—Tome! — jogando a ela uma estrela. — Ficará mais charmosa com esta estrela no peito.

— De todas as maneiras eu iria ajudá-lo.

— Assim é melhor. Isto lhe dará mais confiança. Nunca tire os olhos da ponta do nariz de seu desafiante!

— Da ponta do nariz!

— Sim! Ele sempre achará que estará olhando para os olhos dele e você não receberá o olhar mortífero de seu inimigo. Dá a impressão de que estará encarando seu inimigo firmemente nos olhos e você não recebe o olhar dele! Nunca olhe ninguém olhos nos olhos. Nossos olhos não mentem... e podem demonstrar que estamos com medo ou mentindo... Se olhar para a ponta do nariz de alguém... ele nunca conseguirá perceber o que esta pensando no momento.

— Eu não sabia disso.

— Vamos!

*****

— Onde esta o xerife da cidade, senhor Chambord? Estamos loucos para conhecê-lo — disse um dos homens virando um bom trago pela garganta.

— Vamos visitá-lo agora mesmo. Primeiro... tomem uma rodada. Quero ver aquele xerife se borrar de medo — debochou Chambord.

Todos riram.

— Não precisam procurar muito... Eu estou aqui! — falou o xerife já na porta do saloon.

— Vejo que tem bons ouvidos, xerife... Quero lhe apresentar meus amigos — disse Chambord, cinicamente, apontando-os junto ao balcão. Todos eles olharam para o xerife como se olhassem para um monte de estrume.

O xerife passou os olhos neles também. Todos encostados junto ao balcão.

— Se vocês estão de passagem pela cidade já esta na hora de partir — comentou o xerife postado no meio do saloon.

— Acho melhor o senhor fazer isto, xerife! Esta cidade vai ficar pequena para tanta gente — debochou novamente Chambord.

— Para o senhor fazer o que bem entender nela... como sempre fez! Vai continuar a praticar assaltos aos seus clientes de seu banco e continuar a matar pessoas inocentes por aí, senhor Chambord ¬—, disse desafiadoramente o xerife. — Esta cidade vai viver em paz de agora em diante, senhor Chambord. Não mais tolerarei facínoras vestidos de pele de cordeiro como o senhor. Seus crimes estão sendo apurados, como também os de seu irmão, nosso querido e falso médico doutor Smith... aliás, Terence Chambord!

Todos no saloon soltaram uma exclamação aos ouvir tais palavras.

— Vai engolir isso, xerife! — berrou Chambord. — Esta sozinho!

— Vai matar-me como matou a todos! Como obrigou a senhoria MacGreen a assinar a venda do rancho dela? O que fez com ela?

— Pode provar isso! Seu...

— Eu posso! — disse MacGreen entrando e postando-se junto ao xerife. — O senhor planejou o assalto ao trem e mandou matar meu pai e obrigou-me a vender o meu rancho e mandou dois homens me matarem!

Marlin Chambord a olhou mortalmente!

— Então, foi você quem roubou meu rancho! — exclamou Chambord

— O senhor não pagou pela compra dele, certo! Então... — debochou MacGreen.

— Sua miserável! Matem-na! — ordenou Chambord.

Helen MacGreen não tirava os olhos da ponta do nariz de seus inimigos, principalmente, de Chambord. Quando moveram o ombro para sacarem ela e o xerife havia feito isso alguns segundos antes. Os dois revólveres de MacGreen e o do xerife cuspiram uma saraivada de balas rumo ao balcão, ao mesmo tempo em que ambos mergulhavam pelo chão atirando sem parar.

Cinco homens ficaram pelo chão! Os que sobraram, se esconderam atrás das mesas e, mesmo baleados, atiravam desesperadamente.

MacGreen tombou uma mesa e se escondeu atrás dela também. Apanhou seu rifle caído ao seu lado e mirou nas mesas atrás das quais estava o restante dos homens de Chambord e a cada tiro de seu rifle... um gemido atrás da mesa.

Chambord sorrateiramente passou para trás do balcão e atirava com a mão por cima dele. O xerife dava cobertura a sua companheira atirando sem parar. Teve que recarregar seu revólver.

Uma mesa mais ao fundo foi perfurada várias vezes, pois a senhorita MacGreen manobrava rapidamente seu rifle e atirava sem trégua.

Os tiros inimigos pararam. Apenas, Chambord, ainda poderia atirar de por detrás do balcão. Deveria estar colocando munição em seu revólver.

— Só está faltando o senhor... senhor Chambord! Se entregue e terá um julgamento justo!

— Esta desgraçada roubou todo meu dinheiro! — berrou Chambord.

— Venda suas propriedades! — gritou MacGreen.

— Vai para o inferno... sua...

— Seu dinheiro esta na minha delegacia! Poderá pagar a todos... e talvez sobre algum dinheiro para recomeçar sua vida depois que sair da prisão, mas terá que devolver o rancho dela e pagar a todos, dólar por dólar... e se colaborar... prometo um julgamento justo e o livrarei da forca. Se entregue e viverá!

Um revólver voou para o meio do saloon. Duas mãos trêmulas apoiaram-se na borda do balcão. Lentamente Chambord começou a aparecer. Seu peito e seu rosto estavam ensangüentados.

— Acabou! — disse o xerife. Chambord continuava no mesmo lugar. Tentou se mover. Mas esborrachou-se pelo chão atrás do balcão.

—Teve o fim que merecia xerife. Algumas balas o acertaram — murmurou MacGreen.

— Vamos levá-lo daqui e pagar as pessoas que ele prejudicou. Vencemos!

— Eu quero somente o meu rancho de volta, xerife. Nada mais! Pode dar o restante do dinheiro para o pastor... ele saberá o que fazer melhor do que nós. Eu queria apenas justiça pela morte do meu pai.

— É difícil encontrar pessoas assim no Oeste, senhorita. Por aqui, todos são muito gananciosos. Vai ficar mesmo de mãos vazias? — ela sorriu maliciosamente.

— Quem rouba de ladrão tem cem anos de perdão... xerife. Vou mandar algumas rezes para enfeitar seu rancho... Afinal, o senhor ajudou muito a esclarecer tudo isso. É um bom xerife — e lhe deu um beijo no rosto.

F I M

Obrigados a todos pelas leituras e comentários.

Lucas Durand
Enviado por Lucas Durand em 11/02/2010
Reeditado em 12/02/2010
Código do texto: T2082053
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