FUGINDO DAS PROPAGANDAS

Se eu contar para vocês que sonhei com propagandas devoradoras de gente correndo atrás de mim, vocês talvez não acreditem... Eu corria de marcas, logotipos, jingles e slogans, que se multiplicavam cada vez mais e estavam em todos os lugares ao mesmo tempo! Mas a questão é que, então, logo que acordei, decidi passar o dia sem propagandas, para não sofrer com pesadelos novamente.

Acordei assustado, fui tomar um copo de água com açúcar. O açúcar do pote tinha acabado, fui obrigado a recorrer à dispensa. Abrir a porta: aquela chuva de embalagens e marcas! Fechei os olhos como quem prende a respiração, retirei o açúcar e jurei que aquela embalagem era o único contato direto com propaganda do dia... Acontece que eu havia esquecido de tirar a embalagem do copo, que era de geléia. Ainda paciente, pus o copo com açúcar e tudo na pia e resolvi tomar café. Procurei não olhar o que estava escrito e desenhado na cafeteira, comecei a retirar as outras coisas da geladeira (com o mesmo cuidado tanto com a geladeira quanto com as coisas) e liguei a televisão (idem) para me fazer companhia...

Não sei por que colocaram agora uma novela de manhã... Só sei (e a TV fazia questão de me lembrar sempre) que era “um oferecimento de...” Fui suportando o comercial – depois das propagandas de produtos, as do governo, as da própria emissora... Enquanto passava manteiga no pão (sendo obrigado a fazê-lo sem olhar, pois meu relógio estava no braço), começou o bloco: a mocinha estava se preparando (e eu também, há duas semanas) para o encontro (dela, okay?!) com seu amado. “Para dar certo esse meu grande encontro com Abelardo, só usando o creme rejuvenescedor...” e o resto vocês sabem bem... Vi tudo, mas como uma imagem vale mais que mil palavras, me benzi temendo já estar completamente contaminado... Outro contato com a TV e eu ficaria irrecuperável!

Mas... Rádio! no rádio nada se vê. Toca música! Vã esperança, até propaganda de “búzios, runas e tarô”...

Essas coisas artificiais... Não! não mais! Saiu meu amorzinho do quarto (coisa mais linda: aquele rosto, aquela voz – mas ainda não está a venda rs), acordada agora, me perguntando o que me tinha acontecido. Com aquele tom amigável, acolhedor, bem diferente do tom imperativo dos verbos publicitários... E depois: “mor, você precisa ir ao banco pagar isso e aquilo”, “você precisa ter mais tempo pra seus filhos”, “nós precisamos de uma cortina nova pra sala”... Nada é perfeito, né? Mas por falar em cortina, pra quê, se vivia aberta? E iluminava a casa... Mas, estranho, estava tudo tão escuro... Fui resolver minhas coisas na rua, aproveitaria e olharia o que houvera com o sol.

Chaves do carro em mãos, dei a partida – isso tudo sem olhar, claro. Mas o trânsito requer atenção e “o governo federal está fazendo uma campanha de conscientização...” Ah! Não era o que queria dizer... Tudo esburacado, desvendado o mistério: uma enorme placa do governo alardeava a obra e, como detalhe, tapava completamente a fachada de minha casa. Com meu nível de tranqüilidade da hora, só não fui arrancar essa placa com os dentes porque o banco fecha quatro horas e o engarrafamento era grande. Desviando o olhar do logotipo em meu volante, segui, guiado por placas de trânsito e bombardeado por outdoors. Minha velocidade aumentava na proporção de minha sensação de sujeira! Eu iria acordar no outro dia assustado do mesmo jeito, a questão agora era, porém, poder pelo menos acordar tranqüilo semana que vem.

Morrer naqueles 130 quilômetros por hora talvez fosse a solução, mas voltei aos 30, impedido de prosseguir, a menos que voasse... Os outros carros também parados, cheguei a me achar feliz: só ônibus ao me redor! Os outdoors não mais poderiam me atingir! Outra vã esperança... eles migraram para a lateral e fundo dos ônibus! e agora o que me parecia um cordão sanitário era, na verdade, um cerco! Não havia mais nada a perder: fechei os olhos, deixei o carro no meio da pista e saí andado como cego. Imaginei que se eu entrasse num ônibus, estaria protegido das propagandas coladas nele, se não olhasse por suas janelas eu não veria os outdoors nem os outros carros e ainda não teria um volante para cujo logotipo encarar! Entrei no primeiro ônibus, me sentei – mas contra meu alívio, era o mais recente usuário da mais nova invenção: a Bus TV.

Andrié Silva
Enviado por Andrié Silva em 16/04/2010
Reeditado em 16/04/2010
Código do texto: T2200551