Contos de uma Gueixa - Gueixa

Estamos em casa, eu e meu marido, num bairro antigo do lado leste da cidade, a casa é herança que recebi dos meus pais, uma construção antiga de 1930, com janelas grandes de madeira e uma varanda em toda a sua volta no andar superior. Quando cai a tarde gostamos de contemplar juntos o mar e os dias que passam sem pressa.

Cortinas transparentes levíssimas e brancas nas janelas e nas portas esvoaçam com o vento num ritmo lento e envolvente.

Luminárias transparentes iluminam a varanda com uma luz dourada e sutil criando um clima de leveza e sensualidade.

Muitas vezes fizemos amor aqui na varanda encima apenas de um tapete de pele vermelho.

Adoro sentir os dedos dele percorrendo minha nuca, empurrando delicadamente a alça do meu vestido para longe do meu ombro deixando meu corpo totalmente vulnerável aos arrepios dos beijos ardentes na minha nuca, no pescoço e nos seios.

Minha pele toda arrepiada, os biquinhos dos seios duros denunciam que meu corpo o deseja, ele desliza óleo de amêndoas e canela no meu corpo inteiro me envolvendo numa onda de prazer sem fim.

A luz leve faz minha pele brilhar numa cor morena, um âmbar de matiz impossível de existir, eu gemendo baixinho, quando viro de frente vejo seus olhos brilhando de desejo e seu corpo nu com movimentos de um felino me dominar por inteiro, quando ergo as ancas oferecendo e implorando que ele me possua mergulhamos num êxtase longo, bom, intenso depois ficamos horas, nus e abraçados ouvindo o som do mar.

Acordo ainda na varanda e beijo os lábios dele, que retribui, mas continua a dormir. Já está escuro e frio. Vou para o quarto buscar meu quimono, ainda sinto o cheiro dele na minha pele e o sabor do corpo dele na minha boca.

Ouço um estampido abafado e o silêncio. Silêncio quebrado depois de minutos pelo som de um motor. Mas não era um motor qualquer. Olhei pela janela do quarto e vi quase sumindo na curva da estrada um jipe escuro e dois homens que pareciam estar usando boinas, tocas ou bonés.

Corri de volta para a varanda chamando por meu marido, mas não ouvi resposta.

O vermelho do tapete se misturou ao vermelho do sangue dele, um tiro apenas. Fatal.

Ele teve tempo apenas de me dizer:

-No cofre, um envelope. Fuja ou eles vão matar você também.

Minha reação a um golpe fatal é ficar anestesiada, em choque, não reajo, não choro, não me mexi dali. Fiquei olhando atônita ele fechar os olhos e ir embora para sempre.

Horas mais tarde minha casa está tomada por policiais, homens de terno e gravata, todos vestidos iguais, de preto.

Fazem-me perguntas, remexem em tudo e dizem que aquilo faz parte do trabalho deles e de crimes como aquele.

No meu quarto fecho a porta entro no closet e abro o cofre.

Guardo na minha bolsa de viagem as jóias, passaporte, o dinheiro que havia e o envelope. Arrumei a mala com o essencial sem esquecer o livro que ele escreveu para mim.

Olhei pela última vez a cama, o quarto e as cortinas que agora parecem sombras perigosas.

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