A Menina que enterrava jóias

O primeiro foi um Anel Solitário.

Fiquei completamente fascinada. Vesti delicadamente para não quebrar o anel no meu dedo, mas ficou grande demais.

Passei horas no banco do jardim admirando aquele tesouro. A brisa da tarde traz o aroma das flores de jasmim tornando aquele aroma o aroma do Anel Solitário.

Depois de passado o encanto e o medo.

-E agora, o que faço com isso? Meus pais não podem ver. Vão achar que roubei, vão querer saber de onde isso surgiu.

Tive uma idéia brilhante. Corri até meu quarto, esvaziei minha caixinha de bijuterias que está mesmo quase vazia, só tenho um par de brincos que eu usava quando bebê e umas continhas coloridas. A caixa de madeira toda forrada de veludo preto por dentro vai ser o meu pote do tesouro.

Corri de volta até o jardim e fui para uma casinha velha que meu pai usa para guardar ferramentas de trabalho e outras coisas.

É um lugar estranho, cheio de coisas, escuro. Não entro sozinha na casinha.

Com uma colher de jardim abro um buraco na terra, no vão entre o chão e o assoalho da casinha de madeira.

Suando, com medo que alguém visse, enterrei o mais rápido que pude o meu tesouro.

Voltei para casa, meus pais e irmãos não notaram meu olhar sonhador. Eles não prestavam muita atenção em mim e eu só pensava no Anel Solitário.

-Que nome lindo! Aquela pedra transparente e brilhante no alto de braços delicados. Solitário.

Tênis e meias brancas até o joelho, saia plissada marinho, camisa branca. Cabelo num rabo de cavalo.

É assim que vou todos os dias para a escola. Todos os dias com um segredo que só eu o meu admirador secreto sabemos.

Este segredo me faz especial, como pode acontecer isso comigo? Será que minhas amigas também escondem segredinhos assim?

Na saída da escola ele caminha comigo de volta para casa. Não falamos muito. Não sei o que dizer para aquela figura fina, alto e magro, tímido que nunca ousa olhar para mim.

Eu não sinto nada por ele a não se a cumplicidade de um grande segredo. Mas imagino que ele sinta algo por mim.

Eu forte e cheia de energia, ativa e exuberante em todos os sentidos vejo nele um menino fraco.

Isso me cega e não me deixa ver algo bonito nele.

O apelidei de farinha seca. Ele não reclama, parece feliz que eu o chame assim, deve sentir como o único afeto que lhe dou.

Quando estamos perto da minha casa, ele não levanta os olhos, apenas me entrega um embrulhinho vermelho e sai correndo.

-Hei? Espera Farinha Seca? Fala comigo!

Mas ele já estava longe. Sem olhar para traz.

Minha família inteira na mesa me esperando para o almoço. Meu irmão mais velho nota que estou muito vermelha:

-O que é isso, você andou aprontando no colégio?

-Não aconteceu nada, é o sol, está muito forte.

Mal comi, cabeça baixa durante todo o almoço. Meu irmão me olha de vez em quando de rabo de olho.

Durou uma eternidade aquele almoço.

Ainda de uniforme, com o embrulhinho vermelho corri para o meu banco no jardim.

Abri o embrulho apressada, meus olhos brilham. Um anel dourado. Nunca senti algo assim em minhas mãos, admirava a forma, a cor brilhante dourada e a pedra de rubi vermelha como sangue, retangular, presa apenas por quatro pequenas e delicadas garras.

-Que lindo! O que faço com isso? É grande para meus dedos e não poderia usá-lo, como explicar isso para os meus pais? Será que o “Farinha Seca” rouba dos pais dele para me dar?

Os pais dele têm uma grande loja de tecidos, roupas, jóias, relógios e armarinhos. Estava ficando perigoso demais.

-Mas como parar algo tão maravilhoso e belo?

Vou até a casinha e com a espátula desenterro minha caixinha de madeira. Abro rapidamente e olho fascinada para os meus dois tesouros. O Anel Solitário não está mais só. Enterrei a caixinha e fui direto para o meu quarto.

Passava horas olhando para o teto pensando no meu tesouro e no “Farinha Seca”.

Minha mãe preocupada quer chamar o seu Diamantino, homem que me dá medo, gordo, forte, dono da farmácia. Tudo para ele se resolve com uma injeção e eu tenho tanto medo.

-Não tenho nada mãe, só quero ficar aqui no quarto.

-Mas Lia você nunca foi assim, conta para a mãe o que está acontecendo? Conta?

-Mãezinha, não é nada. Eu estou bem.

Meu deu um forte abraço e saiu do quarto. Naquela noite não dormi. Sonhei que a polícia estava na casa dos meus pais, que tentaram prender o “Farinha Seca” e eu o defendi dos policiais e o salvei.

Meses se passaram e minha caixinha estava quase cheia.

Meu tesouro agora já não me causa medo. Ninguém vai descobrir. Falei com “Farinha Seca”, fiz ele me prometer que não vai mais me dar jóias.

O ano escolar terminou. Não vejo mais o menino dos anéis e passam dias que não me lembro do tesouro enterrado no jardim.

Tenho 15 anos agora. Já não sou mais a meninas de meias até os joelhos e “Carlos” o meu “Farinha Seca” mudou muito.

Passei a vê-lo com outros olhos. Quando estamos com nossos amigos e amigas, sinto aquele olhar de cumplicidade dele a procura dos meus olhos. Sinto que ele quer dizer algo, mas nada fala.

Um dia ele aparece na casa dos meus pais e pede para falar comigo. Fiquei surpresa e apavorada:

-Ele veio pedir as jóias de volta. Os pais descobriram tudo. Ele vai contar tudo para os meus pais.

Mas não. Sentamos lado a lado na varanda da casa. Tímidos buscando palavras que faltavam, pensamentos e a certeza que de que sentíamos algo um pelo outro, algo que nos ligaria para sempre.

Fui passar uma semana na casa de praia da minha irmã. Minha mãe ligou e disse:

- Lia, vendemos a casa. Já estamos na casa nova. Você vai adorar! Vem logo para casa!

-Sim mãe. Vou hoje mesmo.

No caminho de volta para a nova casa fui lembrando casa vez que desenterrava e enterrava as jóias e de como agora ela ficavam lindas nos meus dedos.

Do prazer de ver tudo brilhando e a melancolia por saber que nunca poderei usá-los. Ficariam lá para sempre como prova do amor de Carlos. Como um segredo só nosso. Não sei o valor financeiro das jóias, só sei o valor sentimental e a beleza.

Cheguei à minha cidade com o coração apertado. Se a casa estiver vazia ainda vou tentar desenterrar minha caixinha secreta.

Mas a casa já tinha outro dono. Tudo estava em obras. Um homem pintava a fachada casa.

A casinha velha de madeira puseram-lhe abaixo, construíram no lugar uma garagem enorme.

E foi assim que meu tesouro ficou para sempre enterrado. Mas jamais esquecido.

Poderiam ser bijuterias fajutas, dessas que vem como brinde junto de algum produto, poderiam ser jóias caríssimas, mas o segredo que me unia a Calor e a declaração silenciosa do afeto dele tornou essa caixinha o maior tesouro que já possuí na vida.

Vênus