MAKTUB

“ Fata viam invenient.” ( o O destino sempre encontra um caminho)

No período que antecedeu a primeira guerra mundial, os turcos otomanos dominavam praticamente todo o Oriente Médio. Era um domínio que já durava alguns séculos, pois vinha desde os tempos em que eles tomaram Constantinopla e liquidaram o Império Romano do Oriente. As tribos beduínas que viviam naquelas terras nunca se se conformaram com aquele domínio e aproveitando a eclosão da guerra, decidiram lutar. Apoiados pela Inglaterra, iniciaram uma grande revolta contra o domínio turco.
Mas eram muito desunidos. As guerras entre as diversas tribos eram constantes, e assim a formação de um exército beduíno que pudesse lutar contra o inimigo comum parecia tarefa impossível.
A Inglaterra estava em guerra com Alemanha, que por sua vez era aliada da Turquia. Precisava de aliados para lutar contra os turcos e resolveu apostar nos beduínos. Foi então que o governo inglês mandou para o Oriente Médio um coronel chamado Thomas Edward Laurence, com o objetivo de treinar tropas beduínas para combater os turcos.
O Coronel Laurence era um homem muito inteligente. Hábil organizador e grande estrategista militar, conseguiu absorver em pouco tempo o espírito dos povos do deserto e com isso foi capaz de unir as tribos beduínas para um propósito comum. Dessa forma conseguiu montar um forte exército que acabou expulsando os turcos da Palestina, abrindo espaço para a fundação das várias nações árabes que hoje existem no Oriente Médio.
O coronel Laurence se tornou conhecido em todo o Oriente Médio como o famoso Laurence da Arábia. Ele era também um competente intelectual. Escreveu vários livros, entre os quais o clássico Os Sete Pilares da Sabedoria, obra que descreve toda a sua experiência com os povos do deserto.
Ele era um homem prático, de mentalidade rigorosamente científica. Não aceitava o fatalismo das crenças muçulmanas, que dizem que tudo está escrito e nada pode ser feito para mudar o destino.
Certa vez o exército beduíno que ele liderava resolveu atacar uma fortaleza turca, que defendia a cidade portuária de Ákaba. Era imprescindível para o esforço de guerra inglês que essa fortaleza fosse tomada, pois ela permitiria que as tropas inglesas pudessem desembarcar na Palestina sem perigo.
Ákaba estava situada em um golfo que só era acessível por mar. Por terra era só deserto. Mas a passagem marítima estava muito bem defendida por potentes canhões, capazes de afundar qualquer esquadra que tentasse atacá-la. A fortaleza parecia ser inconquistável.
Laurence concebeu a ousada estratégia, considerada inviável por todos os líderes árabes, de invadi-la por terra.
Impossível, diziam os líderes das tribos árabes que formavam a milícia, porque para isso seria preciso atravessar um imenso deserto e eles não tinham veículos motorizados, mas apenas camelos.
Mesmo assim Laurence resolveu tentar a empreitada. Organizou as milícias, formadas pelas diversas tribos beduínas, e começou a travessia do deserto. Na marcha pelo imenso e inóspito território, era fato comum a ocorrência de tempestades de areia e os camelos se desgarrarem da caravana, sumindo no tórrido areal. Por isso era imperioso que todos se mantivessem alertas e não deixassem o passo lento e monótono dos dromedários fazê-los dormir.
Mas um dos lideres das diversas tribos que compunham o grupo pegou no sono e caiu do lombo do seu camelo. Ficou estendido na areia do deserto enquanto o camelo seguiu junto com a caravana. Todos estavam sonolentos e atentos apenas a si mesmos. Ninguém percebeu e a tropa prosseguiu.
Só á tardinha, já saindo do deserto, quando o grupo parou para descansar, é que foi percebida a ausência do líder de uma das tribos que compunha a milícia. Era um líder importante. Sem ele, os beduínos daquela tribo não lutariam.
Laurence se propôs a voltar para o deserto para procurar o homem. “Loucura”, disseram os outros chefes. “A esta altura ele já está morto. Ninguém sobrevive no deserto sem água nem montaria. Está escrito que ele tinha que morrer. Mak Tub. É a vontade de Alá. Não ouse desafiá-la.”
Laurence desceu do seu camelo e escreveu na areia: Mak Tub. E disse: “Está escrito sim, mas por mim, aqui e agora.”
“Blasfêmia”, gritaram os beduínos. “Você está ofendendo Alá.”
Mas Laurence não se abalou. Montou no seu camelo e voltou para o deserto.
Cinco horas depois, com os líderes beduínos já desesperançados e pensando em desistir do ataque, Laurence apareceu com o sujeito ainda vivo.
“Quem escreve o seu destino é o próprio homem”, disse ele, com um sorriso irônico.

Na noite seguinte estourou uma briga no acampamento. Dois beduínos lutaram e um deles matou o outro a golpes de punhal. Depois de acalmado o tumulto, os líderes das demais tribos foram ver quem tinha matado e quem tinha morrido. O morto era o chefe de uma das tribos. O assassino era justamente o indivíduo que Laurence tinha resgatado ao deserto.
A tradição dos beduínos diz: dente por dente, olho por olho. Quem mata deve morrer. Mas se o vencedor da briga fosse executado pelos parentes do morto como exigia a tradição, certamente uma guerra tribal começaria ali mesmo, acabando com toda possibilidade de execução do plano de ataque contra os turcos.
Só restava uma alternativa para resolver o conflito: a sentença teria de ser executada por uma pessoa neutra. Assim, o revólver foi dado para o coronel Laurence, que executou com um tiro na nuca o homem que ele salvara algumas horas antes.
“Mak Tub”, disseram os lideres beduínos. “Nenhum homem pode usurpar a competência de Alá. Ele pode adiar a sua sentença, mas uma vez decidido, ela certamente será executada, quer a gente queira ou não.”
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 16/12/2010
Reeditado em 16/12/2010
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