Fuga

Um grupo de guerreiros havia sido designado para uma árdua tarefa. Extremamente importante, tanto quanto imensamente perigosa. Vinham de uma região distante, um longínquo Reino em Huteria que havia esquecido seu nome. Era impossível escolher ou inventar um nome qualquer para batizar o vasto e fecundo reinado. Naquele mundo as palavras tinham força incompreensível sobre toda a vida que nele existia. Era como se todo ele fosse moldado a partir da própria palavra. E, segundo um antigo conhecimento, era necessário descobri-la. Do sucesso da jornada daqueles guerreiros, e principalmente, do futuro da criança que carregavam e defendiam, dependia o futuro de todo um mundo.

Uma tenebrosa tempestade encharcava as roupas dos caminhantes, tornando a dura viagem iniciada há incontáveis dias ainda mais difícil. Aquela noite estava tão escura, que era como se seguissem cegos pela íngreme montanha acima.

- Os barulhos dos cascos estão aumentando. Vão nos alcançar.

- Não há tempo para subir. Devemos nos entregar.

- E a garota? Devemos abandonar a menina?

- Edgar, o pequeno e ágil, leva a garota. Nós ficamos e nos entregamos.

- Diremos que a perdemos, e que o pequeno Edgar não conseguiu sobreviver à travessia.

- Nunca acreditarão nessa história. Edgar é conhecido por suas proezas.

- Mesmo o mais esperto pode se perder na escuridão. Por acaso a mentira está escrita na testa de vocês?

- Eles não podem saber.

- Se eles não acreditarem, pagaremos com a vida.

- Que assim seja!

Sem mais nenhuma palavra cada um do grupo dos oito soldados responsáveis pela guarda da pequena Iasmin deitou-se no chão como que entregues pelo cansaço, pela fome e pelo frio impiedoso. Menos o ágil Edgar que amarrando o cesto da menina nas costas chegou-se bem próximo do comandante, o mais velho e mais sábio dentre os guerreiro, que disse:

- Nobre e ágil Edgar. Escute bem o que vou te dizer e não tenha medo. Procure os caminhos mais escuros, siga pelos terrenos mais fétidos e malcheirosos, vá pela estrada que julgar que ninguém mais ousaria passar. E leve a criança em segurança.

Edgar estava apavorado. Suas espinhas se arrepiavam e suas pernas congelavam só de pensar nestes tais lugares que teria que passar.

O sábio guerreiro olhava firme para ele, e corria o olhar com ternura pela pequena criança que carregava. Edgar percebeu os olhos do velho guerreiro, reuniu coragem:

- Não temerei a morte ou o desespero, e atravessarei por onde ninguém mais passaria, por esta menina que carrego comigo e pelo futuro de nosso mundo.

- Evite as decisões óbvias demais.

O pequeno Edgar já partia com resolução e bravura por sua jornada. Quando o sábio guerreiro ainda lhe deu o último conselho, olhando no fundo dos seus olhos, quase lhe agarrando pelas abas da alma:

- Confie em seus instintos! Ouça o sábio que há em você.

Não havia mais tempo. Em um segundo Edgar já sumia na mata com a pequena Iasmin. Trinta e oito cavalos negros já se encontravam sob os guerreiros. Eram gigantescos. Traziam chicotes e capacetes pontiagudos.

- Parece que estão todos aqui senhor. - Disse um dos corcéis.

- É muita coincidência que os encontremos tão cansados, justamente no minuto em que os alcançávamos antes de pararem de caminhar.

- O mais frágil não se encontra entre eles. Deve ter morrido, não resistiu. – Avisava um outro.

- Nem a garota... Suponho.

- A pequena princesa também desapareceu!

- Que doze corcéis levem estes soldados para o calabouço. E lhes tire a verdade a qualquer custo.

- Os outros vinte vêm comigo.

- Vamos jogar uma partida de vinte contra um!

- Já estou gostando do jogo! – Escarneceram os terríveis seres encapuzados.

Soltaram urros ensurdecedores e entre grotescas e ridículas manifestações de ira seguiram com o malévolo plano.

Assim, como havia sido tratado se cumpriu. Vinte cavalos, montados por gigantescas criaturas saíram pela caça do astuto Edgar e da princesa Iasmin, enquanto os outros soldados eram levados prisioneiros às masmorras das Terras de Cruôres, que ficavam sob o domínio do temível Abadir.

Edgar se lançava em sua tarefa nada fácil. Atravessaria pelos caminhos que julgasse mais difíceis. Percorreria as trilhas mais amedrontadoras. Não sabia ainda o jovem soldado, mas os terríveis e inóspitos locais que lhe havia sido aconselhado, antes de servirem como um esconderijo dos gigantes corcéis lhe serviria como fonte e causa do seu amadurecimento e fortalecimento. Aprenderia a controlar a respiração, a força, o cansaço e o medo. Um dia se transformaria no mais forte, imbatível e leal soldado a princesa Iasmin.

Incontáveis foram os dias que percorreu as mais escuras matas, atravessando lagos e pântanos. Conheceu o rosto sombrio do medo, do pavor mais profundo. Descobriu sua morada. Mas também conheceu o precioso sabor da superação. Em muitos momentos se sentia intimamente conectado com a natureza que o cercava, era como se ela cuidasse deles. Ela indicava o caminho na escuridão fazendo brincar as estrelas cadentes para Iasmin, piscar as constelações e brilhar os mais fantásticos cometas no céu noturno. Para lhes alegrar a caminhada, compartilhava com os caminhantes os mais belos crepúsculos. As árvores pareciam criar um labirinto insolúvel para os corcéis que achando que estavam os alcançando, mais das vezes se afastavam dos dois. A chuva lhes acariciava o rosto, matava a sede. Se tinham fome, encontravam belas frutas em locais onde outros poderiam jurar não existir nada além de árvores tortas e folhas secas.

Aprendeu que no mundo não existe lugar algum que não tenha vida, se aprendermos a observar com calma, carinho e atenção.

Alcançou, enfim, após a longa jornada, tendo vencido os desafios que se apresentaram, o ponto mais alto da montanha mais distante que tinha conhecimento. Lá no cume da montanha havia uma pequena casa, decorada cuidadosamente com muito bom gosto. Ao chegar na porta da pequena casa não poderia haver noite maior, e o vento fazia gelar. Uma porta se abriu. Um senhor com cara simpática atendeu a porta:

- Oh! Não acredito que você conseguiu! Olha como a criança é linda! – Disse o senhor chamando uma senhora que estava logo atrás dele.

Com rapidez e ternura ela tomou a criança no colo e a fez sorrir e dar gargalhadas com brincadeiras e rodopios. Voltou-se ao pequeno soldado:

- Você é Edgar, não é?

- Sim, sou Edgar. Eu... – Ia terminar a frase, mas muito confuso acabou se interrompendo.

Três belas corujas pareciam olhar atentamente para ele. Até que uma delas falou com uma voz grave e penetrante:

- Não se preocupe mais, caro soldado. Sua missão está comprida. Entretanto, não poderá retornar tão cedo às suas terras.

- Mas...

Edgar ia dizer algo quando a bela senhora o interrompeu:

- Vocês devem estar famintos. Vamos entrar!

O senhor que o havia recebido disse ainda algo às corujas antes de saírem voando e cantando uma melodia sublime. E depois retornando, disse:

- Minha bela senhora, meu nobre soldado, eu vou adorar preparar o lanche mais saboroso que vocês já conheceram. Mas agora temos que atravessar o portal. Não podemos nos demorar.

- Meu querido! – Interrompeu a Senhora. - A profecia está se cumprindo. Devemos enviar uma carta para nosso filho!

Com os olhos úmidos, segurando a mão da sua senhora, aquele senhor respondeu:

- Sim, vamos enviar uma nova carta para ele. Contudo... Exatamente daqui a sete anos!

- Nós devemos enviar a carta. A carta providencial.

- A carta para o nosso neto! Devemos lhe contar sobre o Livro.

- Ele terá sete anos!

- A mesma idade de Iasmin, a pequena princesa que deve ficar sob nossos cuidados.

- Sâmaror estará pronto! Tenho certeza.

A graciosa senhora com a pequena Iasmin no seu colo era a imagem perfeita da emoção.

Edgar enxergou uma porta alta que parecia não caber naquela casa tão pequena. Possuía tantos e tão deslumbrantes detalhes que era possível ficar horas contemplando. Mais intrigante ainda que o complexo e magnífico mosaico de figuras e formas da porta era exatamente o mesmo do livro que o senhor carregava consigo. Na verdade era como se aquela porta fosse exatamente a capa do livro em tamanho aumentado.

Em poucos instantes e haviam atravessados pelo portal. Iam para outro mundo, que Edgar nunca havia ouvido falar.

As corujas voavam e seu canto era uma mensagem a toda natureza de que a princesa Iasmin havia conseguido chegar ao seu destino. Toda a vida estava em festa, ao mesmo tempo, entretanto, que os corcéis ardiam de ódio, por terem fracassado em seu objetivo de impedir o sucesso de Edgar e da princesa.

Toda a sua Terra, cujo nome ainda era desconhecido a todos, sabia da grande façanha do astuto Edgar, que agora se tornava o valente Edgar. Apesar de ser ainda aquele Reinado Sem Nome, não quer dizer que a palavra que o definiria não existia. Ao contrário, era uma palavra, que se sentia, mas ainda não se sabia dizer, e que ganharia força única, quando todos pudessem conhecê-la, dizê-la, entender a grandeza de toda aquela vasta e magnífica Terra. Quando o destino que a esperava, se realizasse.

Gregório Borges
Enviado por Gregório Borges em 22/08/2011
Código do texto: T3175298
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