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A LISTA

Caminhava distraído, quando olhou para frente, e lá vinha ela: ela, que fora o grande amor de sua vida; ela, por quem ele havia esperado tantos anos; ela que partira o seu pobre coração, ao se casar com outro.

Agora ela vinha diretamente em sua direção, olhando para ele e sorrindo com aquele sorriso capaz de tornar cristão o mais empedernido mouro; caminhava, seus longos cabelos dourados brilhando como o sol. O mesmo corpo esguio, escultural, de duas décadas atrás, apesar dos três filhos.

Suas pernas fraquejaram. Tantos anos, meu Deus!, e eu ainda tremo só de ver essa mulher! Será que eu finjo que não a vi? Atravesso a rua, sigo meu caminho e nunca mais olho para ela? Não; ela já viu que eu a vi; se eu fingir que não a vi, sendo que ela viu que eu a vi, vai parecer que eu não queria tê-la visto, e... e eu nem sei mais o que é que eu estou falando! Não tem jeito, vou ter que encarar a situação.

Sua grande mágoa, seu grande desencanto, o que deixara aquele desventurado sujeito em frangalhos, fora a tal da lista. A famigerada lista. A maldita lista, que nunca passou do terceiro nome.

A lista que ela fizera, lá pelos quinze anos, com os seus futuros namorados. Ouvira por acaso a garota conversando sobre isso com uma amiga.

Ela nunca lhe falou, mas ele sabia que estava na lista; tinha certeza disso. Só isso explicava os olhares e sorrisos que ela lhe dirigia; só isso explicava por que ela ficava horas conversando com ele ao telefone, sobre tudo e coisa nenhuma; só isso explicava porque, de vez em quando, ela aceitava ir com ele ao cinema ou à praia. Sim, decididamente, ele estava na lista.

Mas nunca soube quantos nomes havia na tal lista, nem qual era sua colocação; por mais que sondasse, por mais que perguntasse às amigas dela, nunca descobriu quem ou quantos estavam à sua frente. Quantos namoros teria que esperar serem desfeitos até chegar a sua vez.

E, para aumentar sua angústia e alimentar suas incertezas, a lista, aparentemente, não seguia nenhum critério. Seu primeiro namorado fora um nerd espinhento, exímio enxadrista, apaixonado por álgebra; o segundo, um surfista, especialista em ondas grandes (ele tentou aprender a surfar, achando que isso aumentaria suas chances); e o terceiro...

O terceiro, para seu desespero, foi o último. Nele, a lista estacionou; a fila deixou de andar. Passou anos esperando, sonhando, sofrendo, desejando que a briga da semana – como eles brigavam! – fosse a última, a definitiva. Desejando ser o próximo.

Mas a derradeira briga nunca aconteceu. Namoraram durante anos, depois ficaram noivos, depois se casaram, tiveram os três filhos, frutos de um amor intenso e duradouro. E ele, solitário, abandonado, iludido, esperando sua vez que nunca chegou.

Hoje estava conformado; sabia que não havia mais esperanças para ele. Paciência, dizia para si mesmo, resignado, o que não tem remédio, remediado está. Mas ele jamais conseguiu esquecer a lista infeliz. A memória da infame relação incógnita nunca deixou de atormentá-lo. Quem eram aqueles homens melhores do que ele? Quantos homens melhores do que ele ela conhecia? Se ao menos eu soubesse seus nomes, pensava... poderia ter feito alguma coisa. Mas fazer o quê, ô estúpido? Matar todos que estivessem na sua frente? Até parece; ainda mais você, que não mata nem formiga... e se fossem vinte, trinta, cem caras? Até que essa história dava um bom filme de suspense... Suspense nada, isso é uma tragicômica história de amor, digna de um Shakespeare; eu sou o Romeu do século vinte e um. Romeu nada, estou mais para Otelo... Ou otário.

Se ele ao menos soubesse sua colocação na lista... Se soubesse que teria tido, caso o terceiro não houvera dado certo, sua própria chance de tentar fazê-la feliz (ah, se tivesse chegado sua vez! Tinha certeza de que nunca mais largaria aquela mulher; ele sabia que a teria feito muito feliz), ou se teria que esperar ainda a vez de muitos outros... Ou se, afinal de contas - era uma possibilidade -, seu nome não estava na lista; se ele, absolutamente, não estava nos planos dela... Já não era mais o amor que o atormentava, era a dúvida.

Muitas vezes pensou em perguntar a ela; afinal, ela lhe devia isso; era o mínimo: uma pequena compensação pelos anos de sofrimento. Mas a falta de coragem e a vergonha sempre o haviam impedido.

Encontraram-se. Beija dum lado, beija do outro lado, oi, oi, tudo bem, tudo bem, e você, tudo ótimo, e aí, a vida, e Fulano, as crianças, tudo legal, e você, está sumido, conta as novidades, não vai casar, nada, gosto da vida de solteiro (mentira, gosto é de você, sua ingrata, pérfida, malvada, nunca me deu uma chance... eu devia era te dizer que não casei porque nunca encontrei uma mulher como você. Nada, não era justo, você é casada, cheia de filhos. Além disso, você não merece o meu amor, nunca me deu uma chance...), sabe como é, gosto muito da minha liberdade, tá bom, isso é porque você ainda não encontrou a mulher certa, bem, legal te ver, bom ver você também, aparece, pode deixar, tchau, tchau, beija dum lado, beija do outro, apertam-se as mãos, e ele mantém a mão dela na sua. Ela olha para ele, surpresa. Ele hesita. É agora, pensa. Preciso acabar com a dúvida; é o mínimo. Preciso saber se eu era homem suficiente para uma mulher como ela. Preciso saber se eu estava na lista. Balbucia: você... Ela olha atenta para ele, entre espantada e curiosa; você lembra... lembro de quê, daquela... daquela o quê, daquela... daquela...

Perdeu a coragem. Refugou. Daquela menina, amiga sua, como era mesmo o nome dela... qual, aquela, morena, porque, tá querendo arrumar namorada, não, nada, só lembrei, deixa pra lá, então tá, tchau, tchau, a gente se vê...

Continuou tristemente seu caminho, enquanto a mulher se afastava pelo outro lado, em direção ao seu marido, em direção aos seus três filhos, em direção ao futuro e à felicidade. Ele sabia que nunca faria a pergunta.

Caminhando rua abaixo, pensou que, na verdade, acreditar que fazia parte daquela relação de possíveis pretendentes era seu consolo, e por isso nunca teria a coragem de perguntar. Já havia perdido a mulher amada, e isso era irreversível; mas, pelo menos, restava-lhe a ilusão de que, um dia, ele fora um dos possíveis candidatos. Descobrir que nunca estivera nos planos dela seria um golpe mortal em sua precária auto-estima; desfazer a dúvida poderia ser, afinal, acabar com o resto de dignidade que acreditava ter. Não; definitivamente, não teria coragem de saber. Esta realidade ele não seria capaz de enfrentar.

Para todos os efeitos, continuaria acreditando que só não conquistou o amor de sua vida por uma contingência, por uma simples questão de colocação em um certo ranking amoroso.

No mar de desencantos bravios que era sua vida, sua tábua de salvação era pensar que, mesmo que fosse o último, seu nome estava naquela lista...
paulo marreco
Enviado por paulo marreco em 25/09/2011
Código do texto: T3240806
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Sobre o autor
paulo marreco
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