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A Redenção

De ordinário assobiava. Ia, assim, esquecido.

Calor. O dia se tinha iniciado com uma garoa. Ficou logo abafadiço, mormacento.

Acenou. Subiu. Tomara o Zona-Leste-via-Centro.

Pagou a passagem com as moedas antes separadas meticulosamente. Fazia isso sempre: a ida num bolso, a volta no outro. Atravessou a borboleta.

Não estava cheio, nem havia lugar em que sentar-se, porém.

Postou-se de pé a umas duas poltronas da poltrona duma comerciária - pôde notar pelo uniforme -. Sem ser bonita, tinha olhos bem desenhados, tirantes a verde, sem serem castanhos. Um pequeno nariz e uma boquinha de bibelô agradaram-lhe. Como a moça sorrisse de qualquer coisa que se lembrara, percebeu duas covinhas apontarem entre seus lábios: encantou-se! - dum encanto eclesial.

Calculava...

Uma mão sustinha-lhe, a outra se enterrava no bolso da passagem de volta. Tilintar.

Guinada. Odiava esses desvios bruscos. - Herege! Pagão! - falou baixinho.

A viagem prosseguia.

Olhava a desinteressante paisagem de seu bairro pobre. Meninos nus, buchudos, brincavam sentados às soleiras das portas com aviões e carrinhos. Eram latas e caixas vazias de ovos em dúzia. A imaginação fazia-os sublimar.

Também crescera ali, nu. Também guiara carrinhos e voara...

Voando, recordou-se. Doeu-lhe qualquer coisa. E esfregou a cara, como quisesse esquecer-se por limpá-la, desanuviando o semblante.

Volta-se e revê, de soslaio, a moça. - Sim!

Ele era um tipo calado, circunspecto. Nunca fitava o interlocutor. Falava, cabeça baixa ou em redor. Olhos esquivos. As mãos estavam sempre ocupadas. Ora cerravam-se, ora buliam-se-lhe os dedos. Entrelaçavam-se. Tocavam no que estivesse ao alcance. Soltavam. Tocavam de novo.

Recentemente adquirira um cacoete de apertar os lábios, afrouxá-los, para voltar a apertá-los. Puxava muito a boca de um a outro lado, como finalizando o exercício.

Seu rosto era uma caricatura.

Trazia a barba sempre muito bem aparada. Era freqüente que se perdessem os fios das lâminas, tal o escrúpulo com que se rapava. A custo convencia-se de comprar outras. Muita vez deitavam-se-lhe nas magras bochechas miúdos coágulos de sangue, sarapintando-o.

Ia à missa todos os domingos e feriados consagrados. As beatas admiravam-lhe aquele fervor concentrado, aquele desapego. Tinham-no como homem bom e justo, à guisa dos santos.

Se havia ladainhas em casa das velhas, chegava em primeiro. Amiúde comandava as rezas, os ditos. As velhas respondiam.

Vivia com a mãe, avançada em anos. Sobreviviam do provento previdenciário do governo legado à anciã. Não tinha mulher.

De resto, sua vida era uma rotina e uma coleção de pequenas misérias. Percam-se seus referenciais e se perderia ele. O que quer que fizesse, fazia-o segundo uma fórmula, um rito. Tinha, assim, seu mundo controlável e conhecido. Odiava desvios.

Ele todo era uma caricatura.

Espantar-se-ia quem nele se detivesse. Não obstante, em todos se detinha. Tudo observava. Sabia-se invisível, a despeito dos sestros. - De fato, sabem-se invisíveis ou cegos quase todos os habitantes das grandes urbes, tornados neuróticos.

Lia fisionomias. Previa, intuição matemática, quiçá divina, o que pretendiam as pessoas, bastante erguessem as sobrancelhas deste ou daquele jeito, encolhessem ombros, franzissem cenho. Acostumara-se a traduzi-las. Conhecia seus anseios, fragilidades, ignorando mesmo por que processo se dava a inspiração. De algum modo antevia e esperava. Mais das vezes estava certo.

O ônibus atalhara pela perimetral. Tomava, a seguir, a direção do Centro.

Calculava...

Passageiros embarcavam. Uns tantos desciam. Sobravam, agora, lugares. Mas não queria arredar-se dali - propícia perspectiva.

Passavam por ele várias mulheres capazes de o despertar. Algumas bem bonitas. Preferia, entrementes, a comerciária. Pareceu-lhe peculiar. Nela leu certo cinismo, traído apenas por um viço juvenil, quase inocente.

- Ah! Ninguém é inocente. Todo mundo peca! - pensava.

E notou-lhe os olhinhos inquietos, furtivos. A mão pousada sobre a coxa, muito branca. Os dedos se articulavam coçando a coxa, levantando a fímbria da saia - quase um frêmito -. De quando em quando, passava o antebraço pelo peito, roçando o bico, disfarçando.

Ele percebia. Sabia-a.

- O que tem feito minha pecadora, hein? Eu sei. Sim, eu vejo e tudo sei!

A moça levanta-se. Faz sinal para descer.

Calcula...

Desce, também.

À noite, em horário nobre, entre um comercial de sanduíches de notória marca e um capítulo decisivo da novela das oito, o noticiário dava conta de mais uma mulher assassinada. A forma como fora encontrado o corpo - decúbito ventral; sob seu peso, as mãos sobrepostas, fechadas em concha e já duras se cravavam entre as pernas, por sobre o monte de Vênus - tinha os mesmos vestígios dos três outros.

O informe durara exatos nove segundos.

2007, 21 Jan
Andrei Portugal
Enviado por Andrei Portugal em 23/01/2007
Reeditado em 29/01/2007
Código do texto: T356721


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Sobre o autor
Andrei Portugal
Fortaleza - Ceará - Brasil, 45 anos
49 textos (4056 leituras)
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Andrei Portugal