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A ESTÓRIA DO FALANTE E DO CALADO E DO BICHO DAS SETE CABEÇAS

Disse o Miguelin que alguém leu para ele certa feita no Almanaque Abril essa estória que se tornou uma de suas favoritas.
Era uma vez dois irmãos - um falante e um calado, que trabalhavam de ambulante por aqueles rincões do vale do Rio Doce. Um falava muito e o outro era ativo e não falava nada.  O falante falava demais, falava pelos braços, falava pelas pernas, falava pelos cotovelos... O calado sempre calado, mas era muito sabido. O falante falava, falava, falava... O calado não gostava de falar...
Trabalhavam uns tempos para um fazendeiro e o falante se mostrava insatisfeito com a situação e queria seguir em frente.
Era sempre a mesma estória:
- Oh mano! Vamo imbora desse trein aqui... O povo aqui já deve ter enjoado de nóis tamém. Vamo procurá um novo rumo. Vamo procurá um novo patrão.
- Uai se ôce quê nóis vamo.
- Vamo juntá nossas tralha e seguir em frente.
O calado era muito conformado, não refutava nada mesmo e acompanhava sempre o irmão.
O falante nem esperava. Era o calado que chegava para o Coronel e:
- Oh Sô Coroné, nóis tamo indo embora. Se o senhô tive aí um dinheirinho ta bom, mas se não tivé, ta bom tamém.
E assim saiam andando em busca de um novo lugar. E o falante falando:
- É mano, o trein ta feio, mais nóis há de arranjá um outro lugá lá na frente.
Dessa feita não andaram muito e encontraram uma nova propriedade e não foi difícil conversar com o fazendeiro:
- O senhô quê dá nóis serviço aí.
- Uai, tem serviço aí. Tem muito serviço. Cumê que o senhô chama?
- Eu me chamo calado.
- E esse senhô aí? Cume que o senhô chama?
- Eu me chamo Falante.
- É, pelo nome que a gente costuma conhecê as pessoa.
Não se sabe propriamente porquê, mas o Coronel foi logo propondo um contrato:
- Oia! Ocês dois trabaia pra mim o ano inteiro. Agora, na hora que for o fim do ano eu acerto com ocês. Aquele que eu gostá mais vai casá com a minha fia e pode i morá naquela propriedade lá no arto daquele morro. O outro terá de ficá trabaiando como empregado dele.
O tempo passou e adivinhem quem foi o escolhido. O coronel chamou o calado e disse:
- Pode se prepará pra casá co’a minha fia.
- Mas eu preciso arranjá uma roupa própria sinhô Coroné.
- Oia, eu já providenciei tudo: sapato, terno, chapéu...Tudo... Meu mermo.
Disse o Miguelin:
- O casamento foi na Igreja local, muito arrojado, com muita gente, com muito acompanhamento. Eu mermo tive por lá e presenciei toda a festança.
E assim como combinado, o Calado foi morar na propriedade do morro. Tudo muito bem arranjado. O falante, seu empregado. E o tempo foi passando.
Como de costume, o falante continuou falando, falando, falando... E não tardou muito, começou a esquentar a orelha da mulher do Calado. Sua fala era a mesma de sempre: inconformada.
- Pois é né Sô. Agora ocê virô fazendeiro tamém. Arranjô essa muiê aí. Ela gosta d’ocê mermo. Só indo embora sozinho.
O Calado como sempre, calado. E o falante, falando.
Não demorou muito e a mulher chamou o Calado:
- Oh! Calado, eu não guento aquele seo irmão mais. O home fala pelos braço,  pelas perna, pelos cotovelo. Cumé que nóis pode arranjá com ele. Só se ocê mandá ele imbora. Eu mermo não guento tolerá ele. Tolero ele s’p por causa d’ôce.
- Não, ocê tem razão. Eu vô manda ele imbora por uns tempo. Vô dá ele um transporte, um dinheirinho... Na hora que ele deixá de falá um pouco, ele vorta.
Na primeira vez que o Falante começou com sua falação:
- Ah! Eu vô embora. Ocê agora é fazendeiro, né. Não parece nem meu irmão mais. O jeito é eu me mandá pr’esse mundo afora.
O Calado não esperou mais. Selou uma mula muito boa. Separou um bom cabresto. Pôs uma capa boa, uma capa gaúcha, na garupa da mula, e correu um bom dinheirinho no irmão:
- Aqui irmão. Toma esse dinherinho. Ocê vai viajá, e precisa de dinhero. Não pode sai assim sem um tostão. A gente não sabe o quê que ocê vai encontrá lá na frente.
- Oh! É isso mermo que eu quero. Até a volta.
- Vai com Deus irmão.
E o Falante prontamente montou na mula e rumou pela estrada afora.  E a mesma falação foi se arrepitino por cada lugarejo que passava.  Falava, falava, falava. Todo mundo ficava assim olhando. E ali onde falava bastante dormia. No outro dia, pegava a mula e seguia, mas não sem antes sempre desabafar:
- Ah! Vou embora. Eu larguei meu irmão. Ele casou co’a fia do fazendeiro... Ficou rico. Agora ele não ta sabendo me tratá. Eu larguei dele e fui embora. Vô vê se consigo melhorá minha vida.
Essa cena repetiu-se por muitas vezes.
Um dia o Falante, após muito andar, chegou numa encruzilhada. E o Miguelin me explicou:
- Essa encruzilhada era assim... A entrada à esquerda era boa, mas quem entrasse à direita acabava encontrando um bicho de sete cabeça, perigoso, que nada pudia com ele, que nada matava ele. A gente pudia atirá nele até de fuzil que não importava. Ele era todo acapotado. Era um bicho forte, mas forte mermo. Sete cabeça igual sete cabeça de cavalo. E comia todo animal ou gente que topasse com ele no campo, não escapava da linha dele não.
- E de onde apareceu esse monstro Miguelin?
- Ele era um príncipe encantado que tava ali cumprindo uma pena.
- Mas ele vivia assim naquele descampado?
- Não. Ele tinha uma casa onde era o canto dele. Lá, tinha assim espalhado pelo chão, um monte de ouro, um monte de prata, um monte de dinhero. Era um saco de prata aqui, outro ali, outro acolá. O mermo com o ouro e com o dinhero. E tinha tamém ouro, prata e ouro espalhado pelo chão, ao Deus dará.
Dizem que, quando o Falante estava para alcançar a encruzilhada dessa sua caminhada, foi por muitos admoestado que não devia entrar à direita:
- Oia, não entra por aí não... Aí tem um bicho perigoso...O bicho das sete cabeça.
- Ah! Eu quero encontrá co’esse bicho. Eu vô entrá. Se fô pra mim, vô lá.
E assim o Falante entrou pela direita e seguiu. Lá, na frente, depois de muito andar, lá ao longe, uma casinha como que convidava a ser visitada. Chegou, bateu na porta da frente e entrou. Ficou como que estarrecido com a imagem que se apresentou e não conseguiu sair do lugar. O bicho das sete cabeças (como se fosse sete cabeça de cavalo) foi logo atacando:
- O senhô ta parecendo é um mercadô judeu, hein?
E repetiu:
- O senhô ta parecendo ê um mercadô judeu em busca de algum ouro, de alguma prata, de algum dinhero. O senhô pode entrá mais pra cá.
Apontou com uma das cabeças um banco, convidando o Falante para assentar. O falante pela primeira vez na nossa estória ficou imóvel no corpo e na fala. O bicho das sete cabeças não se apressou e aguardou nosso herói tomar fôlego da situação, o que (pasmem) não tardou.
O monstro vendo que o Falante já se mostrava refeito, sem muita cerimônia foi logo explicando:
- Oia! Eu vô fazê três perguntas pr’ocê. Se ocê não me respondê, eu vô te comê. Ocê tem que acertá todas as trêis. Se errá qualquer uma, eu te comerei.
Continuou:
- Mais se ocê respondê a primeira delas, ocê dá nessa primeira cabeça minha uma facãozada e ela cai. Oia aqui, esse facão bem amolado, esperando; corta mermo. Se ocê respondê a outra, ocê dá uma facãozada nessa outra cabeça aqui e ela cai. E enfim, se ocê respondê a derradeira, ocê dá uma facãozada nessa terceira cabeça e ela e as outra tamém cai.
E, sem esperar, lá se foi, a primeira pergunta:
- Qual é o fio do seo pai e da sua mãi que não é seo irmão? Marcou?
E o Falante, ainda mudo, repetiu mentalmente:
- Qual é o fio de meu pai e de minha mãi que não é meu irmão?
E a resposta não veio.
A segunda pergunta veio em seguida:
- O quê que mais parece com uma metade da lua? Marcou?
- Cruiz credo, essa é ainda mais difícil, pensou.
E finalmente:
- O quê que foi onte, é hoje e, será amanhã?  Marcou essa tamém?
Sem qualquer tempo para uma melhor reflexão do Falante, o bicho das sete cabeças repetiu pausadamente cada uma das três perguntas e, num tom de ameaça, anunciou:
- Amanhã às seis hora da tarde eu quero todas as resposta. Ocê vai tê o tempo de um dia pra chegá a uma conclusão. Se ocê errá uma sequer, eu comerei ocê.
Sumiu rapidamente lá para dentro da casa.
E o Falante, que costumava falar, falar, falar... ficou calado. Pensava, pensava, pensava... e nada. Pensava, pensava, pensava... e nada. Pensava... Aí, lembrou-se do irmão distante e lamentou sua ausência. Não é que como numa transmissão de pensamento, lá na distância, o irmão Calado, deu falta também de seu irmão e falou com sua mulher:
- Oia, muié, essa noite eu sonhei com o Falante. Ele pode tê entrado numa picada errada. Não é que estou sentindo falta dele.  Ele fala muito porque é muito besta.  Ele não sabe é nada e, eu vô atrás dele.
E o Calado muito cedo, ainda escuro, bem antes do amanhecer, partiu numa mula esperta em busca do irmão.
O mesmo caminho do Falante foi sendo percorrido pelo Calado que a cada um que encontrava interpelava:
- Oi moço! Oi moça! Oh senhô! Oh senhora! Ocê viu passá por aqui um rapaiz montado numa mula de crina tosada, meia crina, com uma forja na garupa, uma capa, uma garrucha?
- Passô sim sinhô. Um rapaiz que  conversa bastantinho, né?
- É.
- Chama Falante, né?
- É esse mermo.  É meu irmão. Ele chama Falante e eu chamo Calado.
Pode ir por ali, indicavam sem pestanejar.
E o Calado foi continuando porque o Falante tinha andado longe. Lá na frente, pedia novas informações. Todos o conheciam. Indicavam sua direção sem dificuldade.
Quando chegou nessa encruzilhada do dragão, tinha uma casa assim embaixo:
- Oh meô sinhô!
- Diga!
- E não passô aqui onte um rapaiz montado numa mula tosada de meia crina, com uma capa na garupa e uma forja. Ele é meu irmão. Ele conversa assim bastantinho...
- Ah ele teve por aqui, sim. Conversou bastante. Falô no senhô. Falou na sua esposa. Falou lá no seu sogro, fazendeiro. Eu mermo dei um conselho pr’ele. Pra mode dele não entrá aí nessa picada, porque mora um dragão aí na frente, perigoso, que devora tudo quanto caí no seu domínio. E a gente pode atirá nele, que não vale nada.  Mais ele não oviu a gente e cabô entrando... Se eu fosse o senhô, tamém, eu não aventurava assim de qualquer modo por essa picada não.
O Calado não pensou nada que não fosse partir em auxílio a seu irmão Falante, agora certo que o mesmo tinha se metido numa enrascada.
Não demorou meia hora e já estava batendo na mesma porta no amparo ao irmão. Como a não resposta durou algum bocado, abriu e entrou. Abraçaram-se. Mesmo nessa circunstância ainda custou um bom tempo para o Falante falar:
- Oh meô irmão! O negócio aqui ta feio! Eu cheguei aqui e encontrei pela frente um bicho de sete cabeça! Me fez trêis pergunta e me deu esse facão que ta aqui. Se eu respondê a primeira pergunta eu dou uma facãozada na primeira cabeça dele e ela caí. Se eu respondê a segunda, eu dô outra facãozada na segunda cabeça dele e ela caí. E se eu responde a terceira, eu dô uma facãozada na terceira cabeça e ela caí junto com as outras quatro.
- Quê é que ele perguntou?
- Quem é que é fio de seu pai e de sua mãe que não é seu irmão? E eu tô aqui matutando esse tempo todo e não sei quem é fio de meu pai e de minha mãe que não é meu irmão?
- É ocê mermo rapaiz! É ocê mermo! Quando ele chegá ocê diz que não tem outro não, que é ocê mermo. E ferro na cabeça dele.
- É mermo sô! E o quê que mais parece com a metade da lua?
- É a outra metade, bobo. Ce fala com ele que é a outra metade. Eu vô escondê lá atrás e ocê fala com ele que é a outra metade.
- E o quê que foi onte, é hoje e será amanhã?
- É o tempo, Sô. É o tempo. Raciocina pró ocê vê.
- É mermo!
O Falante ficou exultante de alegria. Começou a pensar quando o bicho das sete cabeças chegasse de como tudo ia acontecer. O Calado saiu e escondeu a mula bem longe da casa e voltou e ficou escutando atrás de um saco enorme de ouro que estava num canto da sala.
Olha prezado leitor, não tenho muita certeza se o saco era realmente de ouro, de prata, ou mesmo de dinheiro? Acredito, porém, que esse pequeno detalhe, nesta altura da estória, não interessa muito. Certamente, dá no mesmo, a estória não vai ser prejudicada na sua essência. O certo é que o Calado estava lá, totalmente escondido, e junto ao irmão, seu outro pedaço do Eu, aguardando a fera do dragão para o acerto de contas. Com um pouco o bicho das sete cabeças chegou:
- Cumé Sô? O senhô é o mercadô judeu que tava por aí, né? Eu vim sabê das minhas perguntas que eu fiz, onte. E ocê sabe que se errá uma sequer, eu como ocê aqui agora.
- Eu sei, Sô bicho das sete cabeça. Num dá pro senhô me dá um poquinho mais de tempo? Não dá pra gente fazê um acordo qualquer, não? Essa situação ta parecendo os apocalipse, os fim dos tempo!
- Oia, não dianta querê estendê mais a conversa não Sô mercadô judeu. A paciença tem limite. Cabou seu tempo! Qual é o fio de seu pai e de sua mãe que não é seu irmão?
- Sô eu sô. E vaput vupit – lá se foi a primeira cabeça da fera pro chão.
- E o quê que parece com a metade da lua?
- A outra. Pá! – lá se foi a segunda cabeça.
- E o quê foi onte, é hoje e será amanhã?
- O tempo. Ta! - e pronto. A terceira cabeça rolou com as outras mais quatro; tudo de uma só vez pro chão. E aí a fera dragrão desencantou e apareceu um príncipe que saindo e, antes de desaparecer, foi dizendo:
- Ocês pode pegá tudo que tem aí. É seus.
O Falante e o calado encheram as mulas de sacos de ouro, prata e algum dinheiro. Não coube tudo, porque a fortuna era muito grande.
O Miguelin, ao fechar a presente estória, um pouco antes de rolar a primeira cabeça da fera, levantou-se da cadeira, e de pé, e com tamanha emoção e dignidade brindou-nos com o relato de cada cena num crescendo, como se representasse um grand finale. E, finalmente, sentando-se novamente, foi como se, estivesse representando a derradeira cena do último ato de uma peça teatral onde as cortinas foram fechando, as luzes do palco esmaecendo, até que como se um único foco de luz ressaltasse sua face marota, concluindo:
- Me deram um saco de dinheiro, mas como eu sou meio esperdiçado, cabei com tudo.
CARLOS VIEIRA
Enviado por CARLOS VIEIRA em 14/02/2007
Reeditado em 14/02/2007
Código do texto: T380632

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Sobre o autor
CARLOS VIEIRA
Coronel Fabriciano - Minas Gerais - Brasil, 74 anos
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