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O CIDADÃO ROQUE HUDSON DA SILVA, VULGO DINHO BOIOLA

ROQUE HUDSON DA SILVA, seu nome de registro. Dinho Boiola, seu apelido. Dinho, porque amado pelas crianças, era assim por elas nomeado. Boiola, porque discriminado pelos adultos que acharam de classificar sua exuberância, sua extroversão e seu modo efeminado por esse epíteto.
Ninguém ficava triste perto do Roque Hudson da Silva. Desde pequeno sua extrema capacidade de comunicação envolvia todas as pessoas – velhos, adultos, crianças – e sua exagerada disponibilidade para o próximo fizeram-no uma figura pública e presente em quase todos os eventos e lugares de sua pequena cidade.
Aos dez anos, no meio do quarto ano primário, teve de abandonar a escola, pela morte inesperada e acidental de seu pai, pedreiro, em queda livre de um andaime e iniciar uma carreira de engraxate.
Diariamente passou a deixar sua casa na periferia, antes do alvorecer, e junto à sua mãe andava quase dez quilômetros até o centro da cidade – ela para trabalhar como empregada doméstica do Juiz de Direito e ele para conquistar seus clientes em frente à rodoviária local.
Filho único de pais simples, porém, amorosos e acolhedores, teve uma infância tranqüila. A falta do pai foi logo substituída pela amizade e pelos conselhos do senhor Zé Pereira, que tinha uma sapataria perto da rodoviária, onde ficava esperando sua mãe, no final da tarde, para ambos retornarem a casa. Acredito que o afeto e o interesse do sapateiro era dirigido a ambos – Dinho e sua mãe – porque viúvo e solitário o mesmo às vezes se insinuava para Dona Clotilde com olhares de bicho pidão.
O tempo passou e Dinho Boiola foi morar com o senhor Zé Pereira, pois sua mãe se amasiou com um cabo da Policia Militar reformado, que abandonando sua família, deu assim a sua amada evidente prova de seu bem-querer, mas que era possuído muitas vezes por violentos ataques de raiva que acabavam eventualmente em imerecidas agressões físicas a ela.
Nosso protagonista aprendeu com louvor a técnica e a arte de como lidar com os sapatos, passou a estudar durante a noite, completou o segundo grau e, se tornou assim como um sócio e filho do protetor amigo. Ambos preocupavam-se com a sorte de Dona Clotilde, quando avisados por outros (ela mesma nunca confidenciou nada ou reclamou) das tristes cenas de covardia e brutalidade encenadas pelo militar quando alcoolizado.
A esposa do Juiz foi a primeira a fazer alguma coisa concreta no sentido de ajudar sua empregada. Pediu ao delegado de policia, amigo de seu marido, que desse uns conselhos ao agressor.
- Oh doutor, eu amo minha Clotilde. Eu tenho de parar é com essa bebida miserável.
Foi avisado que numa próxima investida de seu furor seria detido sem piedade.
Dito e feito.
Ficou preso numa cela trazido pelos seus antigos companheiros de farda por três dias na primeira vez, por quinze na segunda e por um mês na terceira, sendo que nessa oportunidade passou depois da bebedeira a cooperar na administração da cadeia.
Eis que acontece um inesperado. O senhor Zé Pereira defende-se de uma visita noturna em sua sapataria e entra em luta corporal com o ladrão e o mata para se defender com um estilete de seu ofício. Preso em fragrante, apesar de bem evidente seu ato em defesa própria, aguarda o julgamento na cadeia pública, se bem que com os privilégios que sua pessoa merecia dos homens da lei.
O senhor Zé Pereira compartilhava com o cabo Antonio Constâncio muitas semelhanças: ambos eram homens de reconhecidos serviços prestados à comunidade quando de suas vidas úteis profissionais, os dois tinham a mesma idade e a mesma índole no bom trato com as pessoas. O primeiro sofria da solidão da perda da esposa, da falta de filhos naturais e de uma companheira efetiva. Ao outro sobravam os filhos que se mantiveram seus amigos, tinha uma mulher serena e de boa índole, mas o álcool como seu maior inimigo.
Os dois ficavam livres durante o dia e à noite se recolhiam à cadeia pública e a proximidade e talvez o afeto comum – Dona Clotilde – com o tempo, se não os tornaram fraternos, ao menos os fizeram confidentes e cúmplices no cuidado do Dinho Boiola e de sua mãe. O sapateiro com a sabedoria que lhe era peculiar e com muita paciência foi o segundo a fazer o militar procurar ajuda para se libertar da bebida, guiado por um propósito íntimo e oculto de defender aquela que fora há muito amada e desejada.
Ia me esquecendo de dizer que o nosso Roque Hudson da Silva, já com seus vinte e um anos, há muito não era mais incomodado com o apelido preconceituoso, porque apesar de não ter tido ainda nenhum relacionamento amoroso ou afetivo com quaisquer das inúmeras pretendentes que lhe assediavam e com o tempo se tornavam suas boas amigas, mas muito mais ainda, creio eu, pelo seu atual porte físico volumoso, corpulento, avantajado, que naturalmente não mais convidava o próximo a lhe fazer gracinha. Sua voz assumira um tom mais viril, seus trejeitos se dissimularam com o tempo e mesmo sua sociabilidade se restringira.
O agora Dinho se tornara um cidadão comum, de segundo grau de escolaridade, de profissão sapateiro e refém das mesmas vicissitudes do dia-a-dia, que todos cidadãos de vida simples vivem, por opção ou por não terem tido oportunidades de sonhar sonhos e alcançar posições mais privilegiadas.
E como quem avisa amigo é, a terceira pessoa que veio a se confrontar com o Antonio Justino foi o próprio Dinho, numa infeliz tarde de domingo, quando foi visitar sua mãe e presenciou o amante alcoolizado e enfurecido montado encima dela na sala de visita a esmurrá-la. Sem muita dificuldade retirou o agressor com murros e pontapés e ouviu o que há muito não ouvia:
- Seu viado fudido.
O cidadão Roque Hudson da Silva hoje se encontra preso na cadeia de sua cidade natal, por homicídio, com a agravante de ter separado a cabeça da vítima de seu corpo todo perfurado por um facão caseiro, cumprindo a pena máxima que a esses crimes hediondos é reservada. E como a opinião pública tem suas próprias razões que só Deus pode compreender tendo de ouvir todo dia de alguns cidadãos que transitam na rua próxima a sua cela a nova provocação:
- Oh Dinho Boiola!
- Oh Dinho bandido!
CARLOS VIEIRA
Enviado por CARLOS VIEIRA em 14/02/2007
Código do texto: T380642

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Sobre o autor
CARLOS VIEIRA
Coronel Fabriciano - Minas Gerais - Brasil, 74 anos
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