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A infância da professora de sexo.

Lembro-me como se fosse hoje. Ainda sinto aquela comichão que sempre aparecia quando entrava a “boca da noite”, como minha avó costumava chamar o entardecer. Voltava da escola em disparada. Entrava em casa como um “avião”, jogava os livros em cima da cama, corria para tomar banho, depois, no mesmo ritmo voltava aos livros para fazer a tarefa de casa. Geralmente minha irmã mais velha aparecia na porta do quarto para dar alguma ordem, e esta era sempre para esquecer os livros e ajudá-la em alguma tarefa doméstica. Era certo que ela não sentia nenhum atrativo pelos livros, preferia as prendas ensinadas por vovó como: costurar, tricotar, coziar, entre outras coisas, desconfio que até os dias de hoje ela não faça nenhuma destas prendas domésticas com alguma destreza, ( risos). Bom, voltando a minha infância, após ficar horas estudando a parte obrigatória, a lição de casa, pegava meus livrinhos de leitura proibida pelos adultos. Estava vivendo uma fase de minha vida que todo dinheirinho que sobrava de troco dos favores à minha irmã, corria para comprar os livros da coleção Bianca ou Júlia. A esta altura já tinha passado pelas fases dos gibis de Maurício de Souza, dos livrinhos de bolso com histórias de faroeste, estes me empolgavam tanto, que às vezes me via sentada num daqueles balcões das famosas tabernas numa cidadezinha desértica esperando ser salva por algum caubói. Aí veio a fase das revistas de fofocas dos artistas que viviam no Rio de Janeiro, aliás, na época tive uma colega que tinha passado uma temporada na cidade maravilhosa e aproveitava da minha empolgação, para se exibir dizendo que conhecia pessoalmente a maioria dos artistas que eu admirava nas revistas, é claro que eu morria de inveja, cheguei até a pensar em ser artista! Bom, passado esta fase, que depois considerei muito boba, entrei na fase Julia e Bianca. Formei uma grande coleção desses livrinhos! Trazia todos muito bem escondidos, por dois motivos: primeiro para minha mãe não descobrir que estava lendo livros que só falavam de romance e brigas de amor entre casais; segundo para minha irmã mais nova não pegá-los para ler e depois sair contando e me chantageando.
 Na infância seguia praticamente a mesma rotina: pela manhã obedecendo as ordens de minha irmã mais velha, à tarde na escola e no final do dia driblando o tempo para fazer a lição de casa, ler antes do jantar, brigar com minha irmã e brincar de roda na pracinha até a hora de dormir, ou seja, às dez horas da noite, quando apagava as luzes da cidade. Quando minha irmã não interrompia minha leitura aos berros, lia até ouvir o barulho das outras meninas se aglomerando no gramado em frente de casa para começar as brincadeiras. Era tudo acertado na escola, quem conseguisse sair primeiro de casa ia para o local combinado. Eu era privilegiada, o local ficava em frente de casa. Era uma espécie de praça bem larga, toda gramada, nada que tenha sido feito pelo homem, era obra da natureza mesmo. Quando era época de chuva tudo ficava verdinho, quando época de seca uma poeira só! Na expectativa do som da brincadeira, aguardava o sinal. Quando começava ouvir as primeiras vozes, corria para jantar, sabia que daria tempo até aparecer as demais. Às vezes, no meio do jantar ouvia a roda já sendo cantada, quando era a minha cantiga preferida, aí vinha a comichão. Tratava-se de uma cantiga que formaríamos pares e ficávamos dançando e rodando no meio do círculo ao som da cantoria. A letra era: “ A carrocinha pegou três crianças de uma vez, a carrocinha pegou três crianças de uma vez, trá, lá, lá que é gente boa, trá, lá, lá que é gente boa!!”  Não existia coisa mais gostosa do que ficar rodando ao som daquela cantoria. Saia voando para a pracinha. Tinha as vezes que lá vinha minha irmã mais velha novamente atrapalhar com suas ordens, essa era sempre para lavar a louça do jantar. Corria em casa cumpria a ordem e voltava a brincar.
Conforme o tempo foi passando fui entrando em novas fases, tanto nos livros quanto nas brincadeiras. Existia uma espécie de sintonia entre as duas coisas. Quando entrei na fase dos livros sobre a descoberta do corpo, foi muito complicado! Morria de medo de dividir com alguém as minhas descobertas. Através dos livros descobri que corria o risco de menstruar a qualquer momento. É certo que a professora já havia falado alguma coisa a respeito, mas deve ter falado tão discretamente que não achei que isso pudesse acontecer comigo. A partir daí comecei a investigar tudo que minha irmã escondia, na expectativa de descobrir algum vestígio do que seria a tal menstruação (risos). Nos livros descobri o porquê de me sentir excitada às vezes que olhava para um corpo nu nas revistas e porque as tranças que minha mãe fazia em meus longos cabelos incomodavam tanto, já não era mais uma menininha de tranças. Quanto às brincadeiras, também vivia uma nova fase, já não eram somente frequentadas pelo universo feminino, muitos meninos apareciam para brincar. Fazíamos filas imensas nas calçadas, de um lado as mulheres, do outro os homens. O auge da brincadeira era quando um menino escolhia uma menina para fingir que era sua escolhida para “casar”. Ao formar-se o suposto casal, afastavam-se do grupo e ficavam abraçadinhos como namorados, às vezes rolava um selinho. Era conhecida como “casamento oculto”. Quando os adultos descobriram a essência da brincadeira começaram a julgar como inadequada, ou seja, acabou virando algo proibido. Cheguei a ser castigada algumas vezes quando era pega participando do tal casamento oculto. Nunca vi ou ouvi falar dessa brincadeira em qualquer outro lugar ou geração, acho que a inventamos.
Não demorou, fui fazendo outras descobertas nos livros. Descobri o sexo! A minha maior descoberta foi quando brincava de esconde-esconde com meus irmãos e me escondi estirada em um banco de madeira na casa da vovó e, ao ficar rolando de bruços para me encolher mais e mais, senti uma sensação prazerosa na região proibida, hoje sei que foi no clitóris. A partir daquele momento entendi o que tinha lido alguns dias antes. Parei a brincadeira na hora. Corri para o quarto e me fechei lá até ser chamada para o jantar. Não me recordo se continuei tentando encontrar o tal ponto prazeroso, mas lembro-me que por muitas vezes tentei sentir aquela sensação novamente, porém, sem sucesso.  Fiquei tão invocada com aquilo que começava imaginar histórias entre um órgão masculino (pênis) e um órgão feminino (vagina). Esta foi a minha fase de imitar os escritores. Somente a leitura dos livros já não era suficiente, queria também escrever a respeito. O primeiro livrinho que tentei escrever foi uma história  em quadrinhos entre um pênis e uma vagina. A trama era baseada em uma paixão entre um pênis e uma vagina que não conseguiam se encontrar por causa da proibição dos pais. Eu passava horas e horas, ocupada com os desenhos, a pintura e os textos do livrinho. Sempre que sobrava um tempinho, estava eu lá escondida no quarto colocando em prática minha fase escritora. Escondia tudo embaixo do colchão. Nesta época já morava na capital. Meu pai, homem muito preocupado com minha formação, me mandou para a casa dos meus tios para dedicar aos estudos. Sempre que possível minha mãe deixava o interior e ia ao meu encontro para verificar se corria tudo bem. Quando chegava de viagem, os dois primeiro dias eram para revirar tudo no meu quarto. Queria ter a certeza que eu seguia rigorosamente as suas recomendações. Não deu outra, numa dessas suas investigações descobriu o meu grande segredo, o meu primeiro livro. A confusão estava formada. Quando voltei da escola estava a maior confusão em casa. Minha mãe dizia que sentia vergonha de mostrar para a minha tia a sua descoberta. Que eu tinha me tornado uma pervertida. Meu tio que era mais desencanado achava graça da situação. As duas trocavam ofensas na expectativa de encontrar a culpada por tamanho desvio de conduta. Eu fiquei somente aguardando o veredicto: continuaria estudando na capital ou seria levada de volta para o interior? Após desistir da discussão com a minha tia, ela veio para cima de mim com puxões de cabelo e palmadas no bumbum. Foi um verdadeiro massacre à minha fase escritora e leitora de livros que tratavam do sexo. Mas, o que me deixou frustrada mesmo depois de toda confusão, foi ter voltado para o interior sem concluir minha obra, minha história entre a paixão de um pênis e uma vagina. Depois de um tempo voltei à capital para estudar novamente. Após muitas idas e vindas entre capital e interior acabei concluindo o segundo grau no interior.
Esqueci as brincadeiras, graças a Deus não esqueci os livros. Fui fazendo outras descobertas. Também não desisti da minha fase escritora. Continuei escrevendo e imitando escritores famosos. Troquei os personagens, já não pegava mais o órgão solto dos corpos (risos).
Não consegui ser uma artista como desejei um dia, não me tornei uma escritora famosa, me formei professora de ciências biológicas, profissão que possibilita todas as fases da minha infância ao mesmo tempo. Sou criança quando brinco com meus alunos, sou artista quando criamos personagens para nossas histórias e continuo desenvolvendo a arte de escrever sempre que posso. Hoje dedico parte do meu tempo procurando esclarecer  aos meus pequenos leitores todos os tabus do corpo e do sexo. E, talvez por ironia, sou conhecida entre meus alunos, como professora de sexo (risos).
   
Renilda Viana
Enviado por Renilda Viana em 12/10/2012
Reeditado em 07/09/2013
Código do texto: T3929144
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Renilda Viana
São Paulo - São Paulo - Brasil
322 textos (56668 leituras)
8 e-livros (2009 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/05/21 19:13)
Renilda Viana