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A FEBRE MACULOSA

Era um dia comum. Seu Nepomuceno acordou com a mesma sensação de todos os dias. Uma sensação que nem era boa, nem ruim, era apenas uma sensação comum, tão comum quanto quem a estava sentindo. Ele acordou sua esposa, dona Margarete, uma mulher não menos comum, com sua não menos comum falta de gentileza. Ela fez o café. E ele se arrumou pra trabalhar, depois tomou café com pão, claro, pois era um dia comum, que merecia um café-da-manhã comum. Despediu-se mecanicamente da mulher e, com todo afeto que lhe restava no coração, fez um carinho em Donovan, o cachorro, que a cada dia que passava se enchia cada vez mais de carrapatos.

Como um funcionário comum, bateu o ponto com uma violência contida, mas perceptível, cumprimentou quem achava que deveria cumprimentar e apenas baixou a cabeça para quem achava que ele só deveria fazer isso. Arrumou a copa da repartição como há mais de 15 anos fazia religiosamente, orientou o pessoal dos serviços gerais, colocou água para ferver e só neste momento se deu conta de que entre a copa e a recepção havia algo novo. Foi perguntar à chefe o que era aquilo, pra que era aquilo e com a resposta percebeu que em breve sua vida ia mudar.

Era a máquina de Nescafé. E o moço da Nestlé ia naquela mesma manhã para explicar tudo. Seu Nepomuceno não quis entender, e a água ferveu, ferveu, ferveu tanto que secou. Seu Nepomuceno sentou-se num banquinho entre o fogão e o armário e pensou no que faria para reverter aquela situação que se formava na sua cabeça. Já imaginava a dona Luiza Medeiros de Aragão dizendo que seus serviços não eram mais necessários, devido à eficiência e discrição da máquina de Nescafé e também porque não precisava de um funcionário específico só para limpá-la, pois qualquer um dos zeladores ou faxineiros poderia realizar este serviço. Seu Nepomuceno estava definitivamente arrasado, e seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone da copa. Era seu Matos:

— Grande senhor Josias Nepomuceno, como vai neste dia tão estupendamente ensolarado?

— O senhor quer café?

— Sim, por favor, água e cafezes para todos.

Então ele levava água e “cafezes” para todos, mesmo que em pouco tempo não fosse mais realizar este trabalho. Por volta das dez e meia, o moço da Nestlé chegou para dar as instruções sobre o funcionamento da máquina. Seu Nepomuceno ouviu atentamente, e uma idéia surgiu em sua mente quando o rapaz pronunciou a palavra sistema…

— O funcionamento é simples, disse o rapaz, iniciando a explanação. Primeiramente o senhor liga a máquina na tomada, depois…

Seu Nepomuceno ficava mais triste a cada nova função que a tal máquina podia realizar, mas resistiu, forte como sempre pareceu ser, aos sete tipos de bebida que aquela destruidora de lares era capaz de preparar: café expresso, café carioca, café com leite, capuccino, mokaccino, chocolate e leite quente, e mais: cada bebida podia ser preparada com ou sem açúcar. Era demais para o pobre seu Nepomuceno, seu trocado por aquela máquina, que não falava, não conhecia o gosto das pessoas nem o time que elas torciam, não sabia reconhecer o humor delas, não, não era possível aquela situação.

A máquina era compacta. E embaixo dela havia uma caixa de ferro onde ficava um garrafão com água mineral. Por dentro da máquina, havia três recipientes pequenos, para colocar o café, o açúcar e o leite, e um maior, para o chocolate. Saindo desses recipientes, uns tubos conduziam o produto até um outro local, onde se misturavam à água, e assim enchiam o copo de 150ml, que deveria ser colocado pelo lado de fora. Ainda por dentro, um cabo flat ligava a placa ao display. Esse era o sistema. E era essa a palavra que seu Nepomuceno decorou voluntariamente, até saber o que fazer com ela.

Não era a primeira vez que seu Nepomuceno se sentia posto de lado. Há um bom tempo sua família o tratava assim. D. Margarete e ele já dormiam separados desde que a dor nas costas o obrigou a ir para a rede. Ela continuava sendo sua esposa na hora de lavar, passar e cozinhar, mas era nos bordéis que seu Nepomuceno encontrava o que há muito d. Margarete não o proporcionava. Não que ela não quisesse, mas o tempo faz isso com as pessoas, com os casais. O tempo e o oxigênio. Patrícia, a filha mais velha, tinha vergonha do pai, e Cândida, a mais nova, era tímida. E chorava sempre, por qualquer motivo. Mal falava com a mãe, muito menos com o pai e vivia à sombra da irmã, que a humilhava sempre que podia. O único ser com quem seu Nepomuceno realmente podia contar era Donovan, o cachorro, que às vezes chorava a dor que os carrapatos lhe infligiam, mas seu Nepomuceno sempre adiava a ida ao veterinário por alguma razão, da mais urgente à mais dispensável, mas o cãozinho adorava o dono, pois naquela casa ainda era o único que se aproximava dele.

Nos dias seguintes à chegada da máquina de Nescafé, seu Nepomuceno não sabia muito bem o que fazer, pois alguns continuavam solicitando seus serviços, mas outros dos seus colegas preferiam a imparcialidade e o silêncio da máquina, que em hipótese alguma perguntava sobre assunto algum. A limpeza tinha que ser feita mensalmente, pois os resíduos poderiam entupir os tubos, comprometendo assim o funcionamento da máquina. E seu Nepomuceno pensou seriamente nisso, mas desistiu, ele era honesto demais pra realizar tal feito.

Seu Nepomuceno era viciado em jogo. E na mesma manhã em que a máquina de Nescafé chegou à repartição, ele já estava chateado com o resultado do jogo do dia anterior. Apostara no gato, porque sonhara com um gato caindo do telhado. Mas deu burro. Foi se lamentar para o cambista, que diagnosticou imediatamente o problema de interpretação:

— Um gato que cai do telhado só pode ser muito burro.

Seu Nepomuceno fez a limpeza da máquina após um mês. E torceu para danificá-la, mesmo sem querer. Mas nem isso. Ele limpou com tanto cuidado, tanta destreza que chegou a gostar daquela que poderia arruinar sua vida. Seu Matos foi conversar com ele, que tentou fugir, pois nunca entendia muito bem o que aquele vascaíno puxa-saco falava. Não conseguiu. Nem fugir, nem entender. E quando pôde falar, contou seu sonho da noite passada: estava preso, e um dos seus colegas de cela queria fugir. O número do companheiro era 1718.

— Era sim, seu Matos, 1718.

Quando acordou, o número não lhe saía da cabeça, e, claro, foi exatamente esta milhar que seu Nepomuceno pensara em jogar. Falou pro seu Matos jogar também, falou pra quem tinha encontrado aquele dia que jogasse np 1718. na hora do almoço, foi ao cambista, mas teve uma intuição e decidiu jogar só à noite. Foi o que fez, mas aquela intuição o enganara, pois o 1º prêmio da tarde tinha sido os exatos 1718, enquanto o prêmio da noite tinha passado bem longe disso. Seu Nepomuceno voltou pra casa a passos mansos, desolado, blasfemando e chutando tudo o que via pela frente. “Mas que vida injusta, meu Deus!”

A vida segue, seu Nepomuceno.

E ele se convenceu disso. Passou a jogar todo dia o mesmo número: 2316, Jeremias, capítulo 23, versículos do 1 ao 6: “Ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho de minha pastagem, diz o Senhor (…)”, mas continuava sem ganhar um centavo. Uma noite, porém, não rezou e preferiu pedir a seu pai que lhe desse uma luz lá de cima, pois ele devia interceder perante o Senhor pelo seu filho. Então, naquela mesma noite, seu pai apareceu-lhe num sonho e disse: 31 de agosto.

Era o que seu Nepomuceno precisava para ganhar vida nova. Convicto, disse ao cambista: 3108. e à tarde, depois de saber o resultado, foi ao túmulo de seu pai e disse coisas horríveis, pois não entendia como até os mortos poderiam zombar dele, desprezá-lo assim. A milhar sorteada foi 2316. Seu Nepomuceno rasgou todas as Bíblias que encontrou a partir daquele dia. E às sextas-feiras, quando voltava dos bares e cabarés, aliviava-se da bebedeira na porta de cada igreja que encontrava. Mas só isso não bastava.
Decidiu, então, destruir algo. E escolheu destruir a máquina de Nescafé, mas ia tentar ser sutil. Pensou em tudo, mas não consegui fazer um plano decente. Foi então que lembrou do sistema… era só danificar o sistema. Era preciso destruí-la. E já havia uma data para isso: 22 de novembro, dia da limpeza.

A situação de Donovan estava lastimável, os carrapatos faziam dele um parque de diversões, e o pobre animal chorava, então seu Nepomuceno fazia-lhe um carinho, mas não adiantava, ele precisava de um veterinário primeiro. Certa vez, seu Nepomuceno viu que um carrapato subia pelo seu braço. Livrou-se dele com um movimento brusco, pôs Donovan para fora, fechou a casa e dormiu. Estava chegando o grande dia. Seu Nepomuceno estava eufórico. Mas a euforia foi substituída, pois Donovan morrera, para a tristeza de seu dono e para o alívio do próprio Donovan. Seu Nepomuceno passou o dia inteiro com dor de cabeça. E nos dias seguintes febre e dor de cabeça. E depois falta de apetite. E quando comia, punha tudo de volta pra fora. Mas manteve a aparência, porque estava perto de realizar o maior feito de sua vida.

Enfim, 22 de novembro. Seu Nepomuceno realizou sua rotina diária e percebeu, quando ia passar seu deòdorant créme Pierre Alexander, que havia uma mácula perto do cotovelo. E ao passar o talco nos pés, percebeu outra mácula perto do tornozelo. Porém não era nada que merecesse atenção, principalmente naquele dia. Eram apenas máculas do corpo, irrisórias comparadas às da alma, e ele tinha uma porção destas, que doíam insuportavelmente.

Chegou à repartição, olhou para a máquina e tremeu. Sentiu um mal-estar, mas pensou que era exatamente isso que deveriam sentir as pessoas nos grandes momentos de suas vidas, e como seu Nepomuceno não entendia muito de viver grandes momentos, segui em frente. Preparou tudo de acordo com o hábito de tantos anos e então desligou a máquina para limpá-la. E destruí-la. Abriu a tampa, olhou para os dois lados, tirou uma chave de fenda do bolso e enfiou no local onde ficava a placa do sistema. Ouviu uma porta se abrir, sentiu um calafrio, viu o mundo rodar e perdeu as forças nas pernas quando percebeu d. Luiza Medeiros de Aragão surgindo. Caiu, sentindo que sua cabeça ia explodir, e junto a isso uma reviravolta no estômago, que resultou em vômito, manchando a roupa da chefe, que tentava socorrê-lo…

Acordou três dias depois, no hospital, viu-se coberto por manchas vermelhas. Olhou para o lado e viu sua esposa. Ela chorava resignada, amassando um guardanapo. Então olhou pro céu mais uma vez e pediu a seu Senhor, com quem guerreava já há algum tempo, uma trégua, para que pusesse curar as máculas da sua alma antes de ir ao Seu encontro, pois na Terra as feridas são bem mais difíceis de sarar.
Filipe Teixeira
Enviado por Filipe Teixeira em 04/03/2007
Código do texto: T400808


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Sobre o autor
Filipe Teixeira
Fortaleza - Ceará - Brasil, 36 anos
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