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Como frango assado
 
        Cabisbaixo, entanguido e deprimido por mais um final de semana que, sabia, seria igual a todos os demais, em dias iguais a todos os outros de sua vida, ele caminhava sob a chuva fina que insistia em cair há horas, sem uma capa ou guarda chuvas que o protegesse. Saíra pela manhã para o trabalho sem levá-los, mesmo vendo ao longe nuvens que anunciavam a chuva que, afinal, desabou sobre a cidade. Aquilo não importava...
        Indiferente a tudo, a todos, caminhava vagarosamente pela calçada úmida, sem nem mesmo tentar se desviar das inúmeras poças d´água que brotavam, aqui e ali, nelas pisando quase que propositalmente, como se em protesto silencioso por elas existirem, contra a administração municipal que permitia que existissem. Sentiu o golpe mais forte em sua cabeça proveniente de uma goteira que despencava de uma marquise, molhando inteiramente seus óculos e chegando, até mesmo, a impedi-lo de ver o que fosse através deles, somente os vultos dos carros que passavam com os faróis acesos e os dos de um ou outro também caminhante próximo.
        Com passos pesados, transpôs os poucos degraus até a porta de sua casa, localizada no primeiro piso do prédio decadente em que morava sozinho. Balançou os braços defronte ao corpo, na tentativa de se livrar de algumas gotas da chuva que insistiam em descer por eles, talvez só para afligi-lo, antes de procurar nos bolsos de suas calças molhadas o chaveiro de couro com todas suas chaves. Localizou-o, abriu-o e selecionou uma delas, a qual, apesar de originalmente cromada, apresentava tons amarelados pelo uso diuturno. Inseriu-a na fechadura, girou-a para destrancar a porta, a qual, contudo, já estava aberta, destrancada, somente encostada.
        Estranhou...! A luz do abat-jour ao canto da sala estava estranhamente acesa, imprimindo sombras e reflexos por todo o ambiente. Deveria tê-la esquecido ligada ao sair pela manhã, pensou. Ao adentrar a sala, constatou que, em sua ausência, alguém estivera ali, já que a única mesa estava recoberta por uma toalha de linho branco – bem diferente da que a cobria rotineiramente, quadriculada e com um grande puído ao centro - , com uma garrafa do “chianti” que ele tanto gostava sobressaindo-se de um balde com gelo, um volume coberto por uma grande toalha também branca, ao lado de copos de vidro de requeijão, simulando taças de cristal.
      Deteve-se por alguns momentos, antes de puxar a toalha branca que cobria o volume e então a viu, esplendorosa em sua total nudez, com os peitos sobressaindo-se de entre as coxas encolhidas e, convidativa, pronta para ser devidamente saboreada. Aquela posição de “frango assado”, mesmo que tão comum, sempre o entusiasmara, até mesmo o excitava, todos sabiam, jamais escondera.
       Aproximou-se lenta e cautelosamente de sua oferenda, até mesmo com receios de que ela fosse uma miragem e que se desvanecesse a um simples contato, tocou os peitos fartos, amorenados, a sua frente. Circulou com a ponta dos dedos circundando-os, por vezes detendo-se nas axilas próximas, molhando-os e logo após chupando-os, sentindo a textura, o cheiro, o sabor, o tempero.
         Incontido, não mais com um, mas com dois de seus dedos, percorreu a estrada até as coxas morenas, igualmente acariciou-as, sentindo crescer o enorme desejo que o possuía, a ansiedade, a fome de saborear aquelas coxas que ali lhe eram ofertadas, despudoradamente, graciosamente. E novo ritual de percorrê-las dolente com os dedos depois levados à boca, onde eram sugados por tempo infindo, deliciando-se com o sabor, com o olor delas desprendido.
       
Deteve-se! Abriu o “chianti” e despejou-o em uma das taças, sorveu um gole, dois e, em seguida, esparge algumas porções sobre o pescoço, sobre os peitos, sobre aquele belíssimo par de coxas morenas, beijando-os seguidamente, deleitando-se em orgásmicos mordiscos e beijos. Então, ele o viu, esplendoroso, apetitoso, convidativo, seu mais íntimo objeto de desejos, exposto, destacado na confluência das coxas, só para ele, e não se contém... E deixou-se contagiar por pensamentos impuros, aqueles pensamentos que o assaltavam sempre, há muito tempo, por aquele desejo que o acompanhava desde a tenra idade e jamais antes satisfeito.
       Com uma das mãos ele força uma das coxas roliças e morenas a girar, indicando-lhe uma nova posição, no que é prontamente atendido; agora, com o corpo em decúbito, apoiado pelo peito e  com as nádegas voltadas para o alto e a exibir seu objeto de desejos, toda sua intimidade destacada entre as coxas, despudorado como a se lhe oferecer, seu, só seu, sobretudo seu. E passa a acariciá-lo e beijá-lo suavemente, frenética e profundamente, sugando-o por entre os goles de vinho, mordiscando cada uma de suas nuances, alternando-se em mordidas profundas e firmes nas coxas e peitos, lambuzando-se do néctar que deles escorre abundante e sacia toda sua ânsia, toda sua carência, toda sua fome.
       Após, à mesa somente os despojos e ossos daquela batalha que travara, caminha cambaleante para seu quarto, onde adormece ainda chupando os próprios dedos, talvez feliz, comemorando seu aniversário.
 
LHMignone
Enviado por LHMignone em 02/11/2014
Reeditado em 08/11/2014
Código do texto: T5020608
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
LHMignone
Mimoso do Sul - Espírito Santo - Brasil
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