Sawabona Shikoba* ou A caneta prateada

*Nota: Sawabona é um cumprimento usado na África do Sul que significa: "Eu te respeito, eu te valorizo, você é importante para mim".

Em resposta, as pessoas dizem Shikoba, que quer dizer: "Então eu existo para você.".

Fonte: Blog Diferença e Diversidade www.diferencaediversidade.blogspot.com.br

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Faltavam dez para as sete. Nelson olhava impacientemente para a rua. Daqui a pouco ela entraria, pediria um café de coador com um pão na chapa - pouca manteiga, por favor -, comeria solitária e taciturna seu parco café da manhã, pagaria e iria embora. Nenhum sorriso, nenhum bom dia. Era assim desde o começo do ano. E ele a atenderia solícito, carinhosamente, no aguardo de um sorriso, pequeno que fosse...

E de fato ela saiu como entrou, olhar baixo; não foi ainda desta vez. Às vezes ficava revoltado com a invisibilidade de sua modesta ocupação. Imaginava que não existisse de fato. Apenas alguns poucos o notavam, era como se fosse um boneco, uma máquina de café, a parede de azulejos: olhavam e não o viam. No vai-e-vem apressado dos frequentadores da padaria, tanto ele como a maioria dos clientes eram apenas números. Mas ela não. Ela era diferente. Nelson poderia jurar que ela tinha algo escondido e fantasiava que, um dia, poderia ajudá-la a se alegrar, ao menos um pouquinho. A motivação de seu trabalho, ultimamente – acordar às quatro e meia, mastigar rapidamente uma banana e pegar duas conduções para chegar na padaria às seis, antes do ‘seu’ Manuel, o dono - era vir a conhecer o sorriso daquela moça tristonha.

......

Paula entrou no escritório como todos os dias, pontualmente às sete e vinte e cinco, bem antes de seus colegas. Mal respondia ao bom dia deles, já concentrada em seu trabalho. Na hora do almoço saía mais cedo, alegando estar com fome, mas na verdade era para poder almoçar sozinha. Não se tratava de misantropia, apenas queria ficar só com seus pensamentos. Não era bonita, não era especialmente inteligente, não tinha um corpo que fizesse as cabeças dos homens se voltarem à sua passagem. Era extremamente rígida consigo mesma: no trabalho, procurava sempre se superar, trabalhava muito mais que seus colegas e nunca saía para se divertir com eles. Vivia assim, em seu casulo transparente, cercada por um campo de força que afugentava as pessoas. A rotina lhe dava a sensação de conforto e segurança de que ela precisava para viver como operária naquele mundo de rainhas.

Porém, naquela sexta feira, algo mudou.

.....

Tomava seu café soturnamente na padaria de sempre quando uma abelha cruzou à sua frente. Assustada, ela fez um movimento brusco que derrubou toda a xícara em seu vestido claro. Levantou-se de um pulo, aborrecida, mas mal olhou para o lado e lá estava Nelson, com seu melhor sorriso e um imaculado pano branco e úmido, que ofereceu a ela.

- Tome, limpe seu vestido – ele disse, olhando bem fundo em seus olhos.

Paula não pôde deixar de corresponder ao olhar. Talvez pela primeira vez em muito tempo tenha percebido, de fato, que olhos brilham, sim: os de Nelson, muito negros, cintilavam docemente.

Ela ficou de certa forma hipnotizada. Pegou o pano sem desviar o olhar, depois limpou com cuidado a nódoa, que praticamente desapareceu. Nelson já corria para providenciar outro café.

'Seu' Manuel balançava a cabeça com resignação. Esse Nelson...

Na segunda feira Paula olhou para Nelson. Na terça, disse bom dia. Na quarta, arriscaram algumas palavras. Na quinta, Nelson foi recebê-la à porta: Bom dia, Paula, você está bem? Paula sorriu pela primeira vez aos extasiados olhos de Nelson.

Diariamente, durante o mês todo, Nelson nunca deixou de conversar, alguns minutos que fosse, com Paula. Já não era mais um ser invisível para ela. Perguntava da família e do trabalho e comentava rapidamente as notícias do dia. Interessava-se de fato por ela, assim, sem segundas intenções. Descobriu, como havia antes imaginado, que ela podia, sim, sorrir; e que seu sorriso iluminava sua face. E isso fazia sua alegria diária.

Paula renasceu com esse carinho sincero. Tão poucas pessoas haviam tentado penetrar no seu casulo que isso era uma grande novidade. Viu em Nelson um homem doce, prestativo e bom. Percebeu a importância que o atendente da padaria havia adquirido em sua vida reclusa e como esse bem havia operado milagres: passou a cumprimentar mais efusivamente seus colegas, a sorrir mais e até a ir almoçar com eles. Gostava de si mesma um pouco mais agora. Sentia-se mais leve, mais feliz.

No final do ano, antes de sair para as férias de Natal, Paula deu a Nelson uma bela caneta prateada com seu nome gravado. Junto, um cartão com uma mensagem: “Nelson, meu amigo: eu o respeito e valorizo muito. Você é uma pessoa muito importante para mim.”

Ele a abraçou, feliz e comovido. E disse:

- Então eu existo para você!

Uma abelha veio zunindo e pousou na xícara de café vazia sobre a mesa. Ambos olharam e riram às gargalhadas, ante a expressão de terno enfado do 'seu' Manuel. Esse Nelson...

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Este texto faz parte do Exercício Criativo "Sawabona Shikoba"

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