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 NA PONTA DOS PÉS
 
 
   
Tem um grito engolido que, há muito, lhe causa dor. Mas quem olha? Mas quem vê? Seria querer demais. Se triste, se zangada, se decepção pelos poros, se alma dilacerada, sem fome, sem sede, sem alegria, nada tem valor. Somente ela sabe o sentimento que corrói, que sufoca e que oprime. Somente ela.
Um dia, teve esperança. E veio do pai. Logo ele, sempre atarefado, as contas para pagar, os investimentos, a troca do carro do ano, as viagens e tantas outras ocupações.
Numa fase da vida, fez a pergunta idiota:
- Mãe, o Carlos é meu pai?
Ouviu risadas.
- Claro, filha. Qual é a dúvida?
Nada, não, mãe. Nada. Nem tenho nenhuma dúvida, somente pensei... deixa pra lá.
Não expressou o pensamento, para quê? A mãe já gargalhava na outra peça, subindo a escada. De qualquer modo, nunca a ouviu mesmo. Que era sua mãe, não tinha dúvida. Eram quase imagens no espelho. Porém, somente no exterior eram semelhantes, inconfundíveis.  O que tinha vontade era de chamar a Bá de mãe. Ela sim era presença em sua vida.
O que mesmo estava contando? Ah, sim. Do pai. Aquele estranho a sentou no colo, fez um carinho na cabeça. Olhou-o, assustada. Olhou novamente. Será que era mesmo Carlos? Mas era. Nem se lembrava de um dia tê-lo visto sem camisa.
- Você cresceu. Está tão diferente.
Sim, papai, estou. E já faz muito tempo que cresci. Pior. Você também não me vê. Quando olhou para mim alguma vez?
Esboçou o mais cândido sorriso.
- Oh, papai! Cresci de verdade. Já tenho a mesma altura da mamãe.
Tirou-a do colo, pondo-a de pé, olhando-a de alto abaixo.
- Como foi isto? Aonde eu andava quando isto aconteceu? Você está uma linda moça.
O olhar deteve-se em seus pés. Franziu a testa. Voltou a olhá-la por inteiro, mais uma vez fixando-lhe os pés.
 Meu Deus! O que será que o faz fazer essa cara feia? Será que meus pés estão sujos? Que pai estranho. Esqueceu o carinho que estava fazendo. Por que esta carranca?
- Martina, você sofreu algum acidente?
Acidente? Do que será que está falando? Sujeitinho complicado. Vai ver que errou de casa. A filha é outra. Olha só, papai - tenho vontade de dizer - sou bailarina, uma vitoriosa bailarina. O público paga para me ver. Pessoas me aplaudem. Não sabia?
- Não papai. Nunca. Por quê?
Sentou-a, novamente, sobre as pernas. Passou a mão pelo rosto, ajeitou-lhe os cabelos louros que deslizavam sobre o nariz.
- O seu pé... o que... a sua mãe já viu isto?
Do que está falando? Volto a me perguntar. Será que bebeu? Não. Ele não é disto! Este é meu pai, meu papai. Olha só.
- Está achando meu pé feio?
- Não. É que... sei lá... por que ficou assim?
Ah! Agora, entendi, ele não sabe, não soube nunca.
Levantou-se e dançou. Dançou o que mais sabia, mesmo sem as sapatilhas, sem as malhas, sem os vestidos esvoaçantes, sem a música, para um pai de boca aberta que nunca a vira na ponta dos pés.
 


 
MADAGLOR DE OLIVEIRA
Enviado por MADAGLOR DE OLIVEIRA em 29/12/2014
Código do texto: T5084736
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