Autenticidade

Não deixava dúvidas. A viagem a Moscou fora a primeira em que o pai apresentou o mundo ao filho. O primeiro livro, foi um romance de crianças trabalhadoras na cata de laranjas. Ao ganhar o telefone Apple, fora instruído a registrar a vida cotidiana dos trabalhadores de seu bairro. Apesar de não mais militar, sempre trazia a tona orientações e histórias do velho Partido Comunista na luta contra o regime militar, que se instalara antes de seu nascimento. Ia frequentemente ao café em que se lia coffe e waffle. E sempre contara história do exílio no Chile em que se evitava café por medo de ser reconhecido na vizinhança. Na escola de nome de santa aprendera a dividir o pão, mas nunca ouvia o alerta de que divisão pressupõe um que tem e outro despossuído. Sua educação era uma forma de capacitar para a luta de classes explicada num livro que ganhara aos 13 anos. Encomendava charutos cubanos para as datas especiais, mas fumava o Marlboro, que antigamente era cigarro de pequeno burguês. Sua mulher fora militante e sua mãe era procuradora geral do Estado, de cargo comissionado por indicação dum partido reformista. No dia da inscrição para o vestibular, o filho sentenciara. Marketing. O pai o abraçou e expressou sua maior alegria. Sentiu que conseguira criar um subversivo.

Lucian Rodrigues
Enviado por Lucian Rodrigues em 29/05/2015
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