O passaporte

João estava sentado num banco de praça de uma grande e movimentada cidade, pensando na razão da vida ter sido tão severa com ele. Tinha certeza que tinha feito tudo certo. Estudou até o fim. Foi logo promovido a diretor de empresas. Casou-se com a moça mais cobiçada da sua roda social. Sempre foi correto nas suas relações.

¬¬- O que faltou, João?

Opa, quem falava? Quem perguntava?

- Naturalmente não poderia ser você, meu querido a fazer tal pergunta. Você nunca teve dúvidas. – dizia uma voz com certa ironia, soltando logo a seguir uma risada estridente.

Hahahahahahahahahahahahahaha.

O homem de sessenta e quatro anos olhou para o lado e viu uma figura interessante. Era uma sentinela enorme, ele sentia-se uma formiguinha perto dela. Tinha que olhar muito para o alto para visualizar sua cabeça, que tinha olhos enormes, e de certa forma assustadora. Era metade de um coração vermelho pálido, pulsando lentamente. E metade de um cérebro sem a caixa craniana, que por si só já era algo bizarro.

Era o que pensava João, quando a sentinela lhe falou:

- Sempre olhando com os olhos do estar. Mas sou sua grande amiga, querido. Um dia vai entender. Mas também sou uma juíza muito severa, porque seus conceitos são minhas medidas.

Mas por que reclamas? Não teve tudo que procurou?

- Tive? - Pensou João assustado, sem imaginar que ali seu pensamento se fazia ouvir.

- Siiiiiiiiiiiiiimmmmmm, garoto!!! – rugiu a fera. Sim, agora era o que ela era. Ou o que João via nela?

Amedrontou-se, mas num ato instintivo a enfrentou:

- Não sou garoto. E nunca fui feliz. – essas últimas palavras saíram de dentro dele, lá do fundo, letra a letra. Saíram rasgando-lhe a alma. E além de ouvi-las, ele podia vê-las. Elas não saiam de seu campo de visão, não se desmanchavam.

- Ah, nunca fui feliz – repetia a sentinela, que agora era somente um garoto. Um garoto pequeno, amedrontado, dentro de um cercado, daqueles para conter crianças. Que via o mundo de longe, sem querer entrar nele.

- Esse foi nosso problema, garoto. - dizia a sentinela, que voltava agora ao seu tamanho e aparência original. – Você nunca gostou de viajar. E como é você mesmo, suas experiências, a régua com a qual mede o mundo, tornou-se excessivamente excessivo. Foi inteligente sem ser sábio.

João chorava agora, lembrando-se que nunca teve amigos, apenas bajuladores. Que perdeu esposa, seus filhos não queriam estar perto dele. De fato sempre foi muito inteligente, o primeiro da classe. Mas nunca foi feliz, nem sabia o que significava.

Ele olhava para a sentinela que o encarava também. Percebia que a parte do seu rosto que era meio coração voltava a brilhar. Pulsava fortemente, o sangue corria saudável. Mas o rapaz ainda tentou argumentar:

- Conheci o mundo, era parte de minha profissão.

Mas a resposta desta vez veio suave como a brisa, de algo que ele agora não poderia ver.

- Não, menino. Apenas esteve lá fisicamente. Nunca se permitiu conhecer outros pontos de vistas, colocar-se numa situação diferente da sua.

O rapaz entristeceu-se novamente por enxergar-se velho, era como se via. E seu ponto de vista é o que valia agora. Perdeu o trabalho, para um garoto de trinta anos, não tinha dinheiro para viajar. Sua ex esposa tinha sua idade, mas estava com seu companheiro. Ela não se sentia só. Os filhos cuidando cada um da sua vida, nem viam lhe visitar. Estava desesperado, quando ouve novamente aquela risada estridente. Quando leva uma bolada de um menino brincando na praça e percebe que estava sonhando. Foi tudo um sonho, perguntava-se João?

Olhou a sua frente e viu uma moça ruiva, cabelos encaracolados e longos até a cintura, com uma enorme bolsa, levantando-se e rindo-se, provavelmente daquele senhor que dormiu no banco da praça, agitado,, como se tivesse um sonho extremamente insano. Enfim, um sonho.

Percebeu que a moça deixou cair um livro e correu para pegá-lo, no intuito de devolver-lhe, mas ela se foi sem que o homem viesse para onde, perdendo-se na multidão.

A curiosidade falou mais alto, viu o título: “O passaporte”. Abriu assustado e pode ver ainda uma dedicatória interessante:

“Através desse passaporte, garotos têm a oportunidade de se tornar grandes homens. Aproveite sem moderação”.

Carinhosamente, de uma grande amiga!

Segundo do projeto: Conto, de minha alma para sua.