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Choque redondo

   Essa não vai ser mais uma estória de amor, ou igual a qualquer outra que já te contaram sobre os crimes de corruptos. Muitas das coisas que se ouvem por aí têm algum tipo de fundo insano. É incrível o número de casos de pessoas neuróticas, que beiram a loucura completa e sem volta por causa do stress da cidade, dos problemas que os tempos modernos trouxeram. Mas e quando se trata de algum tipo de comportamento psicótico infantil?
   Eu não suportava, um minuto se quer, daquela ladainha toda sobre como eu deveria me manter alerta sobre qualquer tipo de possível ameaça de maus intencionados. “Podem tentar te roubar, sabia? Eu sei que você não tem muito dinheiro querido, mas podem tentar pegar o teu lanche!” e por mais que eu soubesse que minha mãe queria apenas me proteger, todas essas atenções me sufocavam. Até o dia que parou de ser algo lento, um movimento gradativo que me soterrava. Foi algo assim meio estático por um instante, e depois foi como uma avalanche. Eu não mais conseguia me conter e todos os meus gritos, os meus urros vieram para fora de mim, como se estivesse possuído. O pior de tudo, foi que de fato muitos acreditaram nessa suposição. Minha avó sempre fora muito religiosa e mandara o padre da cidade me benzer. A cena foi ridícula, pra não dizer patética e lamentável. Sentia pena dos meus parentes, deles todos que prezavam por mim e acreditavam que de fato poderiam me beneficiar de alguma forma. Ninguém nunca notou como eu era um caso perdido.
   Machucou demais ver as folhas das árvores murcharem, assim como as flores perderam os seus perfumes. Mais do que qualquer coisa, a perda maior da minha infância foi quando o meu passarinho morreu de frio. Meu pai o esqueceu do lado de fora de casa antes de irmos para a festa de natal na casa da vovó e quando voltamos, ele estava duro, caído no fundo da gaiola. Nunca mais perdoei o meu pai por isso, foi algo assim inimaginável o que ele tinha feito. Homicídio culposo, sem vias de fugir da sentença. Acho que foi nesse dia que passei a contar a vida de forma regressiva. Foi nessa época que planejei o meu primeiro crime. O cachorro do vizinho era um bem pequeno e muito barulhento, que sempre me incomodava o dia inteiro. Não importava o que acontecesse na rua, ele sempre latia, dia e noite, sem parar. Correção, ele parou sim e foi de noite. Estava uma brisa fresca e não havia uma nuvem se quer no céu, conseguia ver todas as estrelas e melhor ainda via o cachorro a dormir em um canto, perto do pé de uma árvore que dividia o meu jardim da casa do vizinho. Eu conseguia acompanhar a respiração do diabinho e meus passos começaram a pulsar na mesma freqüência que ele. Tinha pegado um garfo antes na cozinha, mas achei que era meio impróprio e repulsivo matar um cachorro com um garfo. Se fosse um daqueles de churrasco, quem sabe... mas o meu era um comum, com pontas redondas que não fariam o menor dano, além claro, de muito barulho. Peguei uma faca que estava na pia, foi difícil de a alcançar, mas consegui. Com os meus 5 anos, eu já tinha as minhas artimanhas para fazer quase tudo o que me era negado. Enfim, a faca era pontuda, prateada, e gritava meu nome. Já faziam noites que a escutava gritar, mas achava que era apenas o vento ou o inverno. Mas tudo bem, porque todo o esforço fez por valer a pena. Eu não me lembro de muita coisa, mas tenho certeza que o cachorro soltou apenas um pequeno grito. Acho que o escasso número de pedidos de socorro do canino deve-se ao fato de eu ter começado pela boca. Enfiei-lhe a faca inteira goela abaixo, e remexi lá dentro, como quem busca raspar o fundo de um pote de doces. Como era muito pequenino, não houve muito sangue, mas a quantidade me assustou na época.
   Hoje, quase mais nada me assusta. Quando vejo a televisão, os noticiários cheios de chacinas e impiedosas decisões dos políticos que não se importam com nada mais do que o seu capital, não sinto qualquer tipo de comoção. Não desperta em mim nenhum tipo de sentimento solidário pelas pessoas que perderam seus parentes em mais um ataque terrorista, ou então por aqueles desafortunados que não têm o que comer, muito menos onde caírem mortos. Acredito eu, mero mortal, que todo esse meu jeito insensível de ser seja apenas resultado de uma inércia, que começou anos atrás. Não sou pessoa de culpar os pais ou os professores por nada, por mais que acredite que eles têm sim grande parte da culpa por meu estado deplorável em que me encontro hoje. Mas tenho colhões suficientes para dizer que a culpa é inteira minha, fui eu quem me arrastei até esse lixo, esse buraco imundo sem fundo ou saída.
   Não sei porquê tudo é branco. Gosto muito mais do vermelho, e acredito que todos aqui preferem também. Não sou o único maníaco psicopata que mora aqui, mas talvez seja o único que tenha vindo parar aqui por vontade própria. Dou liberdade para você me crucificar, ou quem sabe até mesmo aplaudir, por ter me voluntariado em uma clínica mental, mas acho que era mesmo coisa do destino eu terminar os meus dias por aqui. Não que eu acredite em destino ou qualquer coisa que esteja ligada aos astros e qualquer outro tipo de previsão melosa de pessoas ainda mais grudentas e chatas. A minha brilhante conclusão era que seria menos doloroso passar o resto da vida em um lugar onde existam outros débeis assim como eu, do que em uma prisão maldita em que os indivíduos se acham assim tão superiores por terem assaltado uma lojinha qualquer ou terem baleado um policial. Eu imaginava ser superior por decidir escolher a mais fácil das opções: escapar da pena de morte e viver em um hospício sem maiores implicações. Como eu já mencionei, eu era débil.
   Não agüentei mais do que 3 meses. A casa era simplesmente insuportável e não havia janelas. Não conseguia ver o inverno ou verão. Perdi todas as estrelas e achei as nuvens que, a princípio deveriam estar nos céus, pairando no meu quarto e em seguida, em todas as partes que eram brancas. Eu acho que foram três meses, mas quem sabe se foi menos. Só sei que foi bem rápido que tomei providências para arranjar uma faca. Todas as pontas de qualquer coisa eram redondas, era como se o lugar fosse feito especialmente para um bebê, para que não se machucasse e estivesse livre dos perigos do mundo. É muito bonito como quando somos pequenos o mundo se resume apenas à nossa casa, e todas as pessoas são papai e mamãe. Pena que tive que me desprender rápido demais da minha pequena população doméstica. Foi também em uma noite que esfaqueei meu pai e minha mãe. Os dois estavam dormindo calmante e eu usava duas facas, foi algo meio que assim, simultâneo. Lembro-me de uma expressão levemente horrorizada de minha mãe, que se debatia e relutava contra o seu pequenino filhote. Meu pai não, carregava uma expressão de conformismo, como se já previsse que fosse acontecer isso. Fiquei com muita raiva quando vi o rosto de papai assim tão resignado.
   Sempre tive uma atração por facas, sempre as achei mais eficientes e mais magistrais do que armas de fogo. Onde estaria o prazer de usar um revólver? Só sei eu que queria que minha partida fosse a mais bela e pura de todas. Quem sabe se certa soberba me invadiu, mas sei eu que foi algo assim muito libertador como a fiz. Cheguei a ver um pouco do meu sangue jorrar no chão que era branco, tão branco. Senti um leve perfume doce, de margaridas quem sabe. Alguns gritos mais eu escutei no fundo, mas depois disso, não me lembro de muito mais. Chegou a doer, porém muito pouco, a dor foi logo fulminada por um prazer intenso, por uma libertação suprema e completa. A última coisa que senti, que vi ou escutei, foi um pequeno cão todo vermelho. Quem sabe se na verdade, tudo era apenas uma pequena representação de uma vontade maior de terminar o que nunca deveria ter começado.
Stephanie Correia
Enviado por Stephanie Correia em 02/07/2007
Código do texto: T549472
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Sobre a autora
Stephanie Correia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 29 anos
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