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"Morena, Linda, Sensual, de Olhos Verdes" = Romance = Capítulo 31

No dia seguinte, nas catraias, muita gente disse já haver recebido as passagens,
mas a grande maioria pegou mais, para levar para os parentes, e assim Eliane e as duas moças escaladas naquele dia conseguiram entregar vários outros milhares do
atraente e barato prospecto.
Claro que Eliane poderia ter deixado a panfletagem a cargo apenas das moça, mas, cansada de ver como eram feitas as panfletagens nas ruas de São Paulo, mal e porcamente, com moças entregando até meia dúzia a uma só pessoa, ou jogando-os no lixo quando a preguiça era muita, ela preferia participar e vigiar bem de perto. Se os panfletos são importantes em uma pré-venda, igualmente importante é a entrega bem feita dos mesmos. Muitos dos rapazes e moças que ela vira entregando caríssimos prospectos de imobiliárias de São Paulo o faziam como se fossem máquinas de distribuição, sem calor humano algum e com a má-vontade estampada nas faces.
Quando julgou que a entrega estava satisfatória naquele dia, Eliane decidiu que iriam as três para o local onde um imenso número de caminhoneiros, formando filas enormes com seus veículos e parados por horas e horas, esperavam a descarga de container contendo cereais, ali mesmo, em Vicente de Carvalho.
Horas depois, exaustas de tanto subir e descer de degraus de caminhões, para entregar aos folgados que nem ao menos o braço para fora colocavam, e que aproveitavam para olhar para dentro dos decotes delas, as três se reuniram e já se dirigiam ao começo da fila em direção ao carro de Eliane, quando um gauchão enorme enfiou dois dedos no decote de Eliane, de passagem. Ao dar mais dois passos levou pontapé tão violento entre as nádegas que deu um pulo bem grande para a frente e voltou com expressão furiosa.
Eliane preparou-se para a briga e o desafiou:
- Venha, vagabundo. Venha apanhar na frente de seus colegas todos, cretino dos infernos. Você vai ficar sabendo para que serve o karatê que eu aprendi, seu ordinário.
Pressentindo o perigo naqueles olhos verdes que fuzilavam de ódio, o homem preferiu disfarçar, dizendo que não batia em vagabundas fraquinhas e afastou-se ouvindo as risadas dos colegas.
Já no carro uma das moças perguntou a Eliane se ela lutava mesmo karatê.
- Faixa preta, minha jovem. Eu poderia matar aquele sujeito em minutos. Ou até em segundos. Eu brava sou pior que onça acuada. Ele fez bem em se mandar.
E não era bravata inconseqüente. O gaúcho dera mesmo muita sorte.


Dando prosseguimento ao cursinho de vendas, Eliane ensinou as moças a atender o telefone da forma correta, da forma que evitaria desperdício de tempo:
-“Bom dia. O senhor está falando com Fulana, atendente da imobiliária. Para marcar sua passagem para Itanhaém, inteiramente de graça, sem qualquer compromisso de sua parte, sem a obrigação de comprar coisa alguma, basta que nos forneça seu nome e os números de sua identidade. E informar-nos quem irá com o senhor, se a esposa ou um amigo, e ainda se prefere viajar no sábado ou no domingo. Aproveito a oportunidade para comunicar-lhe que, devido a um acordo com a seguradora, não poderemos transportar crianças nestas viagens.”
Claro que tudo isso deveria ser enunciado com graça, leveza, simpatia e profissionalismo.
- E aí, moças? Se a pessoa insistir em perguntar se será obrigada a comprar alguma coisa, o que é que deveremos responder?
- A gente manda à merda...respondeu uma delas, brincalhona.
Quando a risadaria cessou, Eliane explicou:
- Vocês deverão responder apenas “Não” e completar com a pergunta: mais alguma informação? Posso reservar seu lugar, senhor, senhora?
- E se a pessoa continuar a insistir na pergunta?
- Aí você pode mandar à merda. Por mim.
Desta vez a gargalhada foi geral.

Para o primeiro fim-de-semana foi necessária a contratação de dez ônibus interestaduais. Dos grandões mesmo. Pouco mais de quinhentas pessoas embarcaram na porta da imobiliária ocupando os lugares aleatoriamento e sentando-se sem verificar se o lugar lhe estava reservado ou não. Eliane também não ligou a mínima para o detalhe. Importante era que se enchessem todos os ônibus, recolher as passagens grátis e que as moças trabalhalhassem direitinho o tempo todo.
Quando todos os ônibus estavam lotados e prontos para partir, Eliane chamou as moças à sua presença para uma última preleção dentro do escritório:
- Meninas, não se esqueçam: desinibição, charme, simpatia, bom humor, brincadeiras, enfim, tudo que eu disse a vocês durante a semana toda. Cada cliente em potencial tem que descer do ônibus com a certeza de que de Santos até o loteamento é apenas um pulinho. É logo ali. Bem pertinho. Não se esqueçam: brinquem, cantem, digam piadinhas, andem pelo corredor como se estivessem de biquíni na praia, fazendo o bumbum chamar a atenção, mas sem exagero vulgar. Cobra que não anda não engole sapo. Corretora que não conversa, que não brinca, que não descontrai o ambiente e não baixa a guarda do cliente, não engole comissões. Gritem baixinho comigo: Ganhar dinheiro!!!!
- Ganhar dinheiro!!!! Sussurraram todas, rindo muito.- Gritar baixinho....

- Ao chegar ao loteamento, não se esqueçam: caprichem na apresentação. Não se esqueçam das vantagens que enumerei. O loteamento o que é?
- Um paraíso na Terra, feito na areia.
- Vão embora, suas cretininhas.

Quando os ônibus chegaram a Itanhaém, todos juntos, um colado à traseira do outro, Eliane teve medo do que fizera. Não seria melhor ter deixado sair um ônibus a cada meia hora da porta da imobiliária? Será que as moças teriam jogo de cintura suficiente para atender a tanta gente ao mesmo tempo? Será que conseguiriam tirar muitas vendas daquela multidão de possíveis interessados? Ou seriam todos apenas desinteressados aproveitadores querendo um passeio grátis? Ela sabia que apenas algumas pessoas apontando os defeitos seriam suficientes para desanimar os demais. Esfriar entusiasmo é muito mais fácil do que conseguí-lo. Sentindo um frio na espinha, Eliane aproximou-se de sua turma de clientes, a turma que viera com ela no ônibus.
- E aí, pessoal? Estão gostando do lugar? Viram que maravilha de praia sossegada? Não é mesmo um lugar com o qual o ricos sonham? Longe da civilização, perto do mar, cheio de natureza em volta. Já pararam para pensar em quanto isso aqui estará valendo dentro de bem pouco tempo? Ah, meu Deus, se eu pudesse compraria esse loteamento todinho para mim, esperaria uns aninhos apenas e ficaria imensamente rica.
Um senhor mulato escuro, muito bem vestido para o padrão geral da ocasião, olhava atentamente um lote em especial, um lote grande, de esquina. Olhou para Eliane, que olhara para ele naquele momento, e resmungou audivelmente:
- Pena que os preços tão bissurdos... Ainda está tudo na pranta só...Nem bem ruado isso aqui num tá...
- O senhor já sabe o preço do lote? – perguntou Eliane.
- A moça falou assim meio por arto no caminho. Achei caro por demais...
- E se fosse bem mais barato, o senhor gostaria de adquirir esse lote lindo de esquina?
- Esse e mais arguns dos lados. A família é grande e a gente gostamos de comprar as coisas um perto dos ôtros.
- Então eu tenho uma ótima notícia para lhe dar. A imobiliária está doida pra começar a vender a terceira fase do loteamento e por isso eu recebi a ordem de liqüidar o que pudesse dessa segunda fase. Agora não falta muita coisa, graças a Deus. Desde esse pedaço aqui, que é o filé mignon do empreendimento, até aquela beiradinha lá no fundo, que pouca gente quer por enquanto, nós vamos torrar tudo. Quanto a moça lhe disse que custaria um bom lote de esquina?
- Ela falou em cinqüenta milhão. Mas do jeito que ela falou tive a impressão de que pudia saí um poco mais barato.
- E se fosse para o senhor pagar os “cinqüenta milhão” em sessenta vezes, sem juros? Ajudaria?
- Depende. De quanto ia ficá a prestação?
Eliane disse, por alto, o valor das mensalidades e a fisionomia do homem iluminou-se.
- É...tá meio longe dos meus borso, fica meio sargadinha mas já dá pra começar a pensar. Quanto é a entrada?
Eliane respondeu e o homem sorriu.
- Mais que isso eu tenho na popança. E os dicumento dos terreno? Tá tudo em ordi, sem compricação?
- A documentação não está boa. Está maravilhosa sob todos os aspectos. Meu marido é advogado e só lida com imóveis. Se não fosse essa certeza, se eu não soubesse o que estou vendendo, não poria em risco o meu nome e de meu marido.
= Continua amanhã.
Fernando Brandi
Enviado por Fernando Brandi em 20/07/2007
Reeditado em 20/07/2007
Código do texto: T572872

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Sobre o autor
Fernando Brandi
São Paulo - São Paulo - Brasil, 74 anos
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