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Trapalhadas de Dona Filó

Trapalhadas de Dona Filó


Arquibaldo, certo dia precisou levar sua mãe, D. Filó, nome de batismo, Filomena, mas como o brasileiro tem mania de abreviar os nomes, ficou conhecida como Filó, desde pequenininha. Voltando ao caso, levou D. Filó ao médico geriatra para consulta de rotina. Ela tinha artrose nos dois joelhos e já não andava com as próprias pernas, servia-se de uma cadeira de rodas. O consultório médico ficava na zona sul da cidade em um edifício empresarial de luxo. Chegando ao dito edifício, entregou o carro ao manobrista e pegando sua bolsa de trabalho, saiu empurrando a cadeira de rodas onde D. Filó confortavelmente se alojava. Dirigiu-se ao elevador e apertou o botão de chamada. Ao chegar o elevador, ele colocou a cadeira de rodas no interior dele e voltou-se para pegar sua bolsa que havia colocado no chão. No instante seguinte o elevador fechou as portas e ele não acompanhou sua mãe. Ficou desesperado. Batia freneticamente no botão do elevador tentando abrir a porta e nada.  Então resolveu acompanhar pelo painel os andares que o elevador passava para ver em qual sua querida mãe haveria de descer. Passou o G-1, G-2, G-3, 1º, 2º, 3º, e ele pensava: esse elevador vai parar onde? De repente o elevador parou 12º andar. Demorou um pouco e seguiu andares acima. Ele imediatamente pegou o elevador do lado, acionou o 12º andar e numa espera interminável aguardou, ansiosamente, até chegar ao “bendito” 12º andar para lá encontrar-se com sua mãezinha.

D. Filó, idosa, porém lúcida, e muito esperta nos seus 82 anos, vendo a porta do elevador abrir-se, preocupada com o filho que separou-se dela na portaria, com as duas mãos moveu as rodas da cadeira e saiu do elevador, pensando consigo mesma: Arquibaldo deve estar louco lá embaixo me esperando. Viu ao lado um elevador com a placa de serviço e a porta aberta, disse vou nesse mesmo. Adentrou  ao transporte vertical de passageiros e,  antes que apertasse o botão do pavimento térreo, a porta se fechou e o elevador começou a descer. Ela resignadamente aguardou o elevador parar.

Arquibaldo que dentro do outro elevador não via a hora de encontrar a mãe e desculpar-se, chega ao 12º andar e não encontra ninguém. Apavorou-se. Perguntou em algumas salas se alguém tinha visto uma idosa numa cadeira de rodas e como resposta ouvia uma cobrança de responsabilidade: Sózinha? Não dava tempo de explicar. Retornou ao elevador esperando encontrá-la no andar do consultório médico que era no 5º.

D. Filó, no elevador de serviço percebeu que ele parou e uma senhora do lado de fora, carinhosamente lhe disse: eu lhe ajudo. Retirou a cadeira de rodas para fora do elevador e apertando o botão do andar que lhe interessava, deixou D. Filó num andar totalmente diferente dos que ela conhecia. Esperta, não se desesperou. Vagarosamente começou a explorar o ambiente e constatou que não era um andar qualquer, era o estacionamento do edifício e olhando a placa identificou que estava no G-3. Resolveu não pegar mais o elevador pois já tinha se atrapalhado demais. Pegou a primeira rampa que encontrou e alegre ainda falou: descendo é bom demais, pior se eu tivesse que subir.  Não chegou na primeira curva, avistou um carro que vinha em sua direção. O motorista freou o veículo, mas D. Filó não conseguiu. Com muito esforço, rodopiou e bateu de lado no para-choque do veículo. O motorista apavorado, tentou sair do carro, mas essas rampas de estacionamento são muito estreitas, mal passa um carro. Ele deixou o carro descer um pouco, manobrando para a direita, livrando a sua porta. Desceu preocupado e irritado com aquela senhora, perguntando: machucou-se, o que a senhora está fazendo aqui? Ela respondeu: estou indo encontrar-me com meu filho que está na portaria. Estou bem. O rapaz pegou a senhora nos braços, colocou-a no banco traseiro e colocando a cadeira de rodas na mala disse que iria levá-la a portaria do prédio, no que ela agradeceu.

Arquibaldo não encontrou sua mãe no consultório do médico. Este juntou-se a ele na procura da sua idosa mãezinha, foi ao departamento de segurança do empresarial na esperança de encontrar alguma imagem que revelasse o paradeiro de D. Filó.

O motorista conduzindo D. Filó, subiu a rampa e desceu na primeira rampa de saída que encontrou. Ao chegar no térreo, a rampa dava acesso direto a rua, que era de mão única com sentido inverso a entrada do edifício, então ele teria que fazer o retorno do quarteirão para alcançar  a portaria. D. Filó quando viu o carro tomar a rua, desesperou-se e perguntou: pra onde o senhor vai me levar? Ele respondeu vou deixá-la na portaria do prédio do seu médico, pois ela já havia contado tudo que aconteceu durante a descida. Então ela pediu que ele abaixasse o vidro porque não gostava de ar condicionado, no que foi prontamente atendida. Nisso, o sinal fechou e encontrava-se ali um agente de trânsito que controlava o fluxo dos veículos. D. Filó imediatamente colocou os braços pra fora do veículo e esbravejou: socorro, socorro, sequestro! O agente percebendo aquelas mãos aflitas acenando, aproximou-se e perguntou: posso ajudar em alguma coisa? D. Filó imediatamente disse: estou sendo sequestrada. Ele bateu em minha cadeira de rodas, que colocou na mala e está me levando não sei pra onde. O agente imediatamente sacou sua arma e apontando com as duas mãos para o motorista ordenou que ele descesse vagarosamente com as mãos para cima e ficasse encostado no carro enquanto verificava a avaria no para choque dianteiro e constatou a existência de uma cadeira de rodas na mala. Em seguida acionou pelo rádio uma guarnição para lhe dar cobertura na ocorrência.  Enquanto isto, já imaginava as manchetes dos jornais do dia seguinte: “Agente de trânsito evita sequestro de idosa na zona sul da cidade”. Imaginou inclusive sendo notícia no Jornal Hoje da rede Globo. Dando entrevista no Jornal Nacional relatando o fato: “notei o meliante sequestrador em atitude suspeita no veículo, parecia nervoso. Abordei-o e constatei o sequestro, dando-lhe voz de prisão”. Nem terminou a imaginada entrevista, eis que chega a viatura. Um sargento desce e pergunta o que está ocorrendo. O agente de trânsito e a D. Filó falam ao mesmo tempo, no que o sargento interfere e escuta a história do motorista apavorado com aquela arma apontada para sua cabeça. O sargento anda o agente guardar a arma. Resolve então dirigir-se ao edifício empresarial citado pelo motorista para averiguar a veracidade da sua narração. Um soldado sentou-se ao lado do motorista e o agente de trânsito seguiu com o sargento no carro da polícia.

As câmeras de segurança só registraram imagens até o estacionamento, dali pra frente não havia registro da presença de D. Filó. Como poderia sumir uma pessoa em uma cadeira de rodas de um estacionamento suspenso, de um edifício, indagava-se.
Arquibaldo não sabendo mais o que fazer já havia chamado os filhos e outros familiares e prestado queixa na polícia do desaparecimento de sua mãe.

Contornando o quarteirão e chegando ao empresarial o motorista apontou onde era a portaria. O soldado, desceu, pegou a cadeira de rodas de D. Filó no porta malas do veículo, acomodou-a e seguiram os três para a entrada. Atrás vinham o sargento e o agente de trânsito pomposo.

Arquibaldo vendo sua mãe chegando, seguida de um rapaz e um soldado, correu em sua direção em prantos perguntando: “mamãe para onde você foi?” Ela responde com ar de desprezo: “seu irresponsável, você me larga num elevador, vai não sei pra onde. Eu fico lhe procurando por todo prédio e você ainda pergunta para onde eu fui? Esse rapaz além de me atropelar ainda quis me sequestrar. Se eu não fosse esperta acenando para o agente vocês jamais me veriam, e completou: vamos para casa que não venho mais para esse médico, apontando para o doutor.

O rapaz explicou todo o ocorrido, o sargento entendeu, acreditou e o infeliz agente de trânsito voltou frustrado para  sua rotina, sendo ainda gozado pelo soldado e sargento da viatura que diziam sorrindo:

Sequestro!
Massilon Gomes
Enviado por Massilon Gomes em 17/02/2017
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Sobre o autor
Massilon Gomes
Recife - Pernambuco - Brasil, 70 anos
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