JOANA

Todas as noites, mas essencialmente as quintas-feiras à noite, Joana ficava sozinha, mas o sozinha das quintas era diferente, pois eram os dias em que o estar e ser sozinha estavam juntos em uma só pessoa e isso não incomodava Joana, pelo menos não nas quintas. Esses eram dias em que Joana podia respirar tranquilamente, mas às vezes Joana pensava na sexta-feira e respirar ficava difícil, mas Joana se controlava e voltava apenas a ser quinta.

De todos os seus discos ela escolhia o mais alegre, ela incrivelmente dançava ao som do penúltimo volume, vestia sua camisa mais confortável e quando cansava, ela fechava as portas de casa e ia ler no quarto. Religiosamente estar só e ser só as quintas-feiras não a incomodava, por que eram os dias em que ela podia adormecer lendo e não era proibido. Se chovesse Joana dançava mais e se o luar deixasse a noite mais quente Joana lia mais. E assim toda semana Joana só queria que as quintas-feiras fossem mais longas.

Às quartas-feiras Joana costumava chorar, talvez de tristeza, talvez de emoção, às vezes por que nas quartas ser e estar incomodava muito. Às terças-feiras ela não ligava muito para nada, ela sorria e chorava junto, nunca sabia muito o motivo certo, mas só chorar e sorrir já eram motivos suficientes. Às segundas-feiras nada era certo ou errado. As segundas eram meio apagadas, Joana não ligava muito pra elas. Aos domingos a morte parecia mais perto, mas Joana atribuía a essa sensação o nome de apenas uma “pequena vertigem”, Joana não gostava muito da verdade aos domingos. Mas aos sábados ela passava sempre seu batom vermelho sangue meio macabro para Joana, mas há quem ache atraente, pensava ela. Era o dia em que se arrumar parecia certo, mas ela se sentia errada, aos sábados ela preferia a mentira. Às sextas-feiras ela não sentia nada, ela sentia tudo, tudo o que negava, tudo o que existia e tudo que rasgava em sua face em todos os outros dias. Nada durante os outros dias acalmava Joana como pensar nas quintas-feiras, nada era tão bom como as noites de quinta, nela Joana sentiam e não tinha medo, ela era e não se desesperava, era o momento em que ela morria e era feliz e então voltava a respirar e tudo estava no seu devido lugar.

Ayane Camila
Enviado por Ayane Camila em 11/06/2018
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