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Aquarela da Tarde

Aquarela da tarde

Era uma tarde sem muitos descomuns. Se parecia com todas aquelas tardes amareladas, onde os olhos ficam buscando novidade até nas sombras. Eu caminhava no parque sem rumo, sem compromisso e sem vontade.
Até que meus sentidos se voltaram para um transeunte que se arrastava como um molusco em direção ao espaço mais aberto do parque: uma praça bem larga, sem bancos e sem árvores, onde o sol descarregava toda a sua raiva das 15 horas no ladrilho miúdo.
Tratava-se de uma figura sem cor e quase desprazível, que se equilibrava sobre a única perna que tinha e contava com o apoio de uma muleta tosca de sujeira e uso.
Acompanhei sem pressa o angustiante cambalear daquele que me parecia ser um homem de meia idade, triste e só. Com uma mão ele apoiava a muleta para caminhar à pequenos e penosos solavancos. Com a outra mão ele ajuntava sua camiseta bem abaixo da sua barriga, como se fizesse dela um pequeno cesto improvisado, onde parecia carregar um punhado de algo precioso e delicado.
Com muito esforço caminhou até o meio da praça e parou. Olhou para o céu e para os lados. Deu uma suspirada profunda, de quem consegue chegar aonde quer. Com o antebraço limpou o suor da testa, baixou os olhos ate a sua barriga e soltou a mão que juntava o pano da camiseta e deixou o conteúdo cair em cascata sobre o chão. Meus olhos se encheram de eternidade quando vi explodir daquela pessoa um tanto de pipocas coloridas, que ele havia comprado só para isso. A tarde se plenificou, quando que, por mágica, começou a chover pombas sobre aquele senhor. Eram tantas, que se elas quisessem, fariam-no flutuar por sobre a praça.
Por um instante quis ser pássaro, para poder fazer parte daquela celebração vespertina. E só me restava querer isso, pois não tinha coragem de querer ser aquele homem. Era belo demais! Grandeza humana sem igual! Fazia bem guardar em meu bolso a minha mediocridade.
Aos meus sentidos, não faltava mais nada aquele homem. Mas, pelo contrário, sobrava.... A partir daquele momento o seu problema não era ter só uma perna, mas sim, ter tantas asas!

Mauro José Ramos
Mauro José Ramos
Enviado por Mauro José Ramos em 05/09/2007
Código do texto: T639517
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Sobre o autor
Mauro José Ramos
Caraguatatuba - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Mauro José Ramos