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PÉRICLES EM CRISE


      Péricles era um bom escritor. Havia escrito três romances e deixou o emprego de vendedor junior de uma empresa de cartões para se dedicar exclusivamente à literatura. Trabalhava no quarto romance e tava tão ligado na paranóia daquele personagem, que o cara de súbito, pulou das folhas de papel e caiu bem em cima dele.
- Porra , você não vai seguir essa linha pra mim , vai?
- Claro que sim.
- Não, para com isso, meu.
- Ei, quem manda aqui sou eu. Portanto, EU faço o que bem entender com a história.
- Olha meu filho, ninguém mandou você me fazer tão perfeito, saca? Tenho personalidade, isso você não pode negar.
- Pode até ser, mas quem manda aqui, sou eu. EU, entendeu? Você é a criatura.
- Como é o nome daquele cara mesmo? O tal de Frankstung, Frankterm.
- Frankstein, idiota.
- Isso, Frankstein.
- E o que tem? Ah... não diga, já saquei.
- Pois é.
- Olha, não me perturba, tá? Porque diabos você não volta pro livro pra eu poder terminar a história? To cansado das pessoas dizendo qual direção eu tenho que tomar pras minhas histórias.
- Não quero. Tô pensando em dar umas bandas por aí. Conhecer uma garota e me casar. Ter filhos , ficar gordo e careca e morrer de velhice. Esses rolos que você anda me metendo são ridículos, sabia? Nem de bebida eu gosto. Vômitos, sexo sórdido, noites loucas é pura lorota. Escreva sobre esquilos, droga.
- Vai te foder.
- Palavrão em literatura é coisa muito feia. E logo você que é tido como culto.
- Volta pro livro, pelamordedeus, é a terceira vez essa semana. Meu editor tá com um caralho deste tamanho pronto pra enfiar na minha bunda.
- Não sei. Você foi muito mal comigo até aqui nessa história. Quando é que eu vou ver a tal luz azul?
- Não tem esse negócio de luz azul, porra. É uma simples metáfora pra morte.
- Não tem luz azul?!
- NÃO TEM LUZ AZUL NENHUMA.
- Caramba Péricles, me dá um tempo, garoto. Seu mentiroso. Todo escritor é mentiroso. Eu sabia. Sempre soube. Seu falso.
- Ai meu deus, isso nunca vai acabar.
- Não se lamente. Confundir sua vida com a de seus personagens deve ser normal. Todos vocês escritores devem ser louquinhos de pedra.
- Só tem um jeito de acabar com tudo isso.
- Como?
- Te matando.
- Eu não posso morrer, Péricles. Eu tô dentro de você. EU SOU VOCÊ. A não ser que você se mate.
- Então é isso.
- Isso o que, Péricles?
- Eu vou me matar.
- você não teria coragem pra isso, Péricles.
- Ah não é? Vou te dizer umas coisas sobre ter coragem. Olha aqui, agüentei muitas coisas nessa merda de vida como por exemplo a crítica me comparando ao Bukowski . Não tenho nada a ver com aquele cara. Não tinha lido nada dele até ontem à noite.Os caras viviam dizendo que eu tava plagiando o sujeito. Porra nehuma. Mas continuei escrevendo do meu jeito e ganhando minha grana. E ganhei a batalha. Minha mulher me deixou porque eu não conseguia dar uma direito com ela. Depois conheci a Valeria e então descobri que o problema não era eu. Dou três brincando. Ganhei a batalha. Esperei seis longos anos para ser publicado. Mas não desisti . Hoje as editoras correm atrás de mim. Então não me venha dizer que não tenho coragem, seu babaca.
- Se jogar do quinto andar não é a mesma coisa, Péricles.
- E quem lhe disse que eu vou me jogar do quinto andar, seu imbecil?
Péricles abriu a gaveta da sua escrivaninha e tirou de lá um revolver calibre trinta e oito. O mesmo que tinha tentado suicídio três anos atrás mas a arma havia falhado. Colocou o revólver na cabeça. Deu um sorriso e disparou. Caramba, que morte! Devia ter escrito aquilo. Devia ter descrito a cara de horror do personagem nos segundos seguintes a explosão do disparo. Era o fim trágico que sempre dava o tom as suas histórias. Era noite de um Sábado de Setembro. Fazia frio apesar de ser noite de primavera. Dava pra ver da sacada os carros passeando na avenida. Sirenes uivavam como lobos famintos. Suas luzes sempre me deixavam melancólico. Voltei pra sala. Troquei a TV de canal. Colei no programa da Hebe . Tinha uma louca com peitões do tamanho de duas melancias. Jesus Cristo. Natureza é mesmo linda. Viver é mesmo bom.


FERNANDO COSTTA
Enviado por FERNANDO COSTTA em 10/09/2007
Código do texto: T646855

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Sobre o autor
FERNANDO COSTTA
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 41 anos
3 textos (89 leituras)
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FERNANDO COSTTA