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SUICÍDIO DAS LETRAS

Cansadas da banalização da gramática, as letras se revoltaram.
O “A” e o “Z” se acorrentaram ao dicionário de forma tão absurda, que nenhuma palavra conseguia entrar e nem sair. A “Liberdade” bem que tentou sair de fininho, balançando uma bandeira branca, mas foi barrada a ponta pés pela “Impunidade”. O “Bem” que a todos tentava acalmar, desistiu quando viu a “Paz” ser sufocada pelo “Poder” e pelo “Interesse”.
Algumas letras, por complexo de inferioridade e conflitos lingüísticos, tentaram o suicídio. O “H”, por exemplo, isolado e quase sem voz, tentou ainda reatar os laços de uma amizade antiga com o “P”: bons tempos aqueles em que os dois iam juntos a farmácia; tiravam fotos... Mas o “P”, não quis nem saber, achou que pegava mal os dois voltarem a andar juntos por aí, ainda mais nestes tempos de fala-fala.
O “W” e o “Y”, humilhados pelo alfabeto inteiro, pelo fato de ambos comporem palavras e verbetes de outros idiomas, abraçaram-se junto à palavra “Desgosto” e ficaram esquecidos para sempre no rodapé da contracapa.
Já o “K”, ninguém viu, ninguém sabe, acabou esquecido. A muito tempo não o convidavam para mais nada.
O “S”, mesmo na barulheira, não perdia a pose, embora todos soubessem de sua inimizade com o “C”. Desde o nascimento das letras, o “S” queria ser a terceira letra do alfabeto, talvez fosse pela amizade que tinha com “B” e com “D”. Mas não teve jeito, o “C” ganhou a causa e como prêmio de consolação, “S” ficou sendo a letra do plural, mas ele não gostou nada-nada de ficar atrás das palavras e ainda de quebra ser confundido com o “X” que era metido e com o “Z” que era caipirão, sem contar o fato de ter que dividir alguns sons de pronúncia com o próprio “C” e também com a sua prima a dona Cedilha.
Escândalo mesmo foi o que houve com a letra “M”. Na hora de manifestar, maluquinha como sempre, disse que só falaria alguma coisa se fosse antes de “P” e “B”, o porquê da isteria não se sabe, nem mesmo “N”, seu primo e visinho a tanto tempo, não soube explicar.
O “G” e o “J” a dupla sertaneja das paradas, entoaram algumas cantigas para alegrar a turma. Tudo estava indo muito bem até que “F”, que era fanho de dar dó, tentou cantar junto uma música que ninguém conhecia. O “U”, que sabia ser indiscreto, foi o primeiro a vaiar a frágil letra.
O caos instaurava-se páginas adentro daquele conturbado dicionário... Os números, que no dicionário, só tinham a função de marcar as páginas, também já não sabiam mais o lugar que ficavam.
As vírgulas se estrebuchavam pelo papel, feito doidas, procurando alguma frase para se agarrar, chegaram mesmo a serem confundidas com os apóstrofos, e até as aspas reclamaram da atitude das suas ancestrais.
As pontuações gráficas se divertiam muito, ficavam pulando de palavra em palavra, de letra em letra, criando os mais variados significados e sentidos até que o Travessão deu um grito forte e a brincadeira acabou, o Ponto Final ainda tentou dar uma risadinha, mas se calou. Somente o Hífen, é que chorava muito, principalmente quando o deixavam sozinho, o apelido dele era “subtração”, talvez por se parecer muito com o sinal matemático.
Conta-se que viram até mesmo o “T”, na sua melhor forma após o incidente, onde lhe cortaram a cabeça com uma tarjinha. O viram arrastando uma asa para “V”, o comentário saiu no noticiário de uma grande emissora de televisão.
Outro alvo das letras bisbilhoteiras foi o “Q”, que, mesmo sendo muito interrogativo, fechou-se em sua própria grafia. Dizem que foi por calúnia a respeito do sumiço de “K”. Rolava entre ambos um ciúme antigo pelas vogais. Exceto o “I”, que há tempos vinha sofrendo de aneroxia e que naquela bagunça toda, já tinha perdido o seu pingo. Por pouco ele não arrumou confusão com o “J”, mas mesmo assim o acusou de “ladrão de pingo”. O caso foi parar no Departamento de Análise Gramatical, mas não deu em nada.
De todos, o mais organizado, sempre foi o “R”. Rápido, rígido e responsável, ele estabeleceu algumas regras. Organizou de uma vez por todas as normas de ortografia entre as pobres abreviaturas, sempre muito tristes, pelo resto das letras que lhe foram arrancadas. Ao grupo das gírias, “R” deu vez as mais idosas, de se pronunciarem primeiro. Ele também fez calar alguns acentos gráficos, era um insulto ver os acentos agudos gritarem sem medidas, no ouvidos dos acentos graves. Caso mais sério foi com os acentos circunflexos que seqüestraram o “E” e exigiam mais letras para acentuarem, foi neste momento que “O”, querendo dar uma de herói, quis trocar de lugar com “E” e também ficou preso por eles. Foi difícil “R” conter aquela balburdia, pois o Til e a Trema riam sem parar.
O protagonismo de “R” era de causar inveja em qualquer um. Foi o primeiro a se colocar a disposição dos verbos infinitivos; ajudou a maioria das palavras a entrar em acordos consonantais. O “R” era daquele tipo de letra que se dava bem com todas as consoantes e com todas as vogais, somente “L” é que não ia muito com a cara dele, dificilmente, na história do alfabeto, eles se deram as mãos para formarem alguma palavra. Na maioria das vezes se viram separados por alguma letra ou sinal gráfico. Uma pena!
Depois de muito tempo, quando o “stress”, que nem português sabia falar quis se intrometer na conversa, o “D” não se agüentou: e dedo duro que era, o mandou calar a boca e ainda acusou descaradamente os números de omissão explicita, no processo lingüístico. Segundo a acusação de “D” os números não se preocupavam com nada, apenas com os resultados estatísticos.
Mauro José Ramos
Enviado por Mauro José Ramos em 10/09/2007
Código do texto: T646994
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Sobre o autor
Mauro José Ramos
Caraguatatuba - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Mauro José Ramos