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"Morena, Linda, Sensual, de Olhos Verdes" = Romance= Capítulo 47

   Dez dias depois, tendo deixado montada na casa de Romero uma excelente mini-clínica de recuperação e ótimos fisioterapeutas contratados para cuidarem exclusivamente dele em tempo integral, Eliane começou uma série de viagens diárias até Santos. Saía pela manhã e voltava à tardinha, dirigindo em alta velocidade e evitando paradas desnecessárias. Só parava mesmo no pedágio ao descer e diminuía nele a marcha ao subir a serra. No resto do tempo viajava no limite máximo de velocidade permitida. Estava cuidando de colocar em prática seus planos para o que considerava uma verdadeira e definitiva fortuna. Uma fortuna que lhe permitira realizar todos seus maiores e mais audaciosos sonhos pelo resto da vida.

  No mesmo dia em que Romero a esperara, ansioso, agoniado mesmo, para lhe mostrar que recuperara quase que totalmente os movimentos da perna direita, Eliane havia conseguido adquirir a loja que escolhera para seu novo negócio. Um imóvel imenso que atravessava o quarteirão e tinha, portanto, duas entradas, uma em cada rua, e uma localização excepcional no centro de Santos. Mais de mil metros quadrados de área útil em seus dois andares, sólida estrutura, ótima aparência, e muito de acordo em todos os detalhes que ela exigia. Estava mais do que feliz. Estava felicíssima. Ali, naquela imóvel imenso, ela inauguraria em breve o “Magazine Jeremias”, uma fabulosa loja que serviria de fachada para seu verdadeiro propósito: a distribuição de drogas em grande escala para todo o litoral, para a capital e até mesmo para o Rio de Janeiro. Todos os contatos já estavam feitos, todas as autoridades necessárias compradas, e todo o esquema mais do que estudado e re-estudado. Viajando, Eliane pensava em voz alta para se distrair ao volante:
-Três anos. Apenas três anos neste negócio e me aposentarei definitivamente. Definitivamente e imensamente rica. Nestes três anos conseguirei as duas coisas que mais desejo na vida: a recuperação total de meu querido Romero e dinheiro suficiente para passarmos juntos a vida toda sem preocupação alguma. Apenas viajando, gastando, curtindo a boa vida. É isso que eu quero e é isso que vou ter. Três anos depois de inaugurado o “Magazine Jeremias”, nem um dia a mais ou a menos, eu me aposento. E Deus há de querer que Romero esteja novo em folha. Que ele esteja andando, correndo, praticando exercícios, tudo como se nunca houvesse levado aquele maldito tiro. Dinheiro para a recuperação dele não há de faltar nunca. Juro por tudo que há de mais sagrado.

   Eliane já possuía muito dinheiro. Somadas as “heranças” de Beluzzi, de Antonio Carlos, mais o que conseguira pelo loteamento, poderia viver de renda até seu último dia de vida. Mas ela queria muito, muito, muito mais do que isso. Ela queria viver intensamente, nababescamente, luxuosamente, gastando no que quisesse sem ter que se preocupar com o dia seguinte, o mês seguinte, o ano seguinte. Queria ter dinheiro aplicado, investido, escondido, rendendo, parado, transformado em ouro, dólares, imóveis, ações e o que mais pudesse lhe render sempre mais e mais. Ela sabia que dinheiro chama dinheiro e que quanto mais dinheiro chamado, mais dinheiro há para chamar ainda mais e mais e mais dinheiro. Era a esse ponto que ela queria chegar. O ponto em que o próprio dinheiro trabalha quase que sozinho para multiplicar-se.
No dia seguinte inaugurou mais três salões de beleza de sua rede que se expandia dia-a-dia. Também uma excelente fachada para seus futuros negócios escusos.

   A reforma da imensa loja começou a ser feita por uma grande equipe contratada por Eliane, sob nome falso, e a semi-demolição da mesma dava a impressão de que nada sobraria do antigo imóvel. Paredes antigas davam lugar a imensas vitrines feitas de vidro especial lapidado, de grande beleza e imponência. O chão antigo, totalmente arrancado, dava lugar a um piso em granito de alta qualidade e belíssima aparência. A eletricidade fora totalmente refeita e modernizada, minimizando os riscos de incêndio, e uma excelente área de lazer e descanso para os futuros vendedores e demais funcionários fora caprichosamente planejada pela proprietária. Queria que todos que trabalhassem com ela se sentissem bem, sentissem-se seguros e partes importantes do trabalho. O “Magazine Jeremias” seria o maior distribuidor de brinquedos, eletroeletrônicos, móveis e roupas de todo o litoral santista. E, sem que ninguém pudesse sequer imaginar, também o maior centro de distribuição de drogas de uma imensa região brasileira. Eliane passara meses e meses elaborando cada detalhe, entrando em contato com grandes fornecedores, inteirando-se de todos os aspectos do arriscado negócio antes de nele entrar. Entrara para ficar multimilionária antes de ser descoberta e presa. Por isso dera a si mesma o prazo de três anos. Durante trinta e seis meses estaria escondida, agindo na sombra, usando “laranjas” e testas-de-ferro regiamente pagos para correr riscos.

  Como quem não quer nada, como simples passante, Eliane parava em frente ao futuro “Magazine Jeremias”, dava uma olhada na obra, observava atentamente o andamento de tudo e ao chegar em casa telefonava para uma pessoa que se encarregava imediatamente de corrigir os erros e defeitos por ela apontados. Erros e defeitos que não escapavam, por mínimos que fossem, aos seus olhos de proprietária cuidadosa.

   A parte mais difícil, mais trabalhosa, e que por isso mesmo fora a mais meticulosamente planejada, era a chegada e instalação do imenso cofre de aço, de paredes mais finas que o usual, que seria acoplado a um sistema hidráulico imaginado por Eliane. Um sistema que permitiria, a um simples toque de botão, fazer sumir sem deixar rastros, vestígios, pistas ou suspeitas sobre o verdadeiro negócio do “Magazine Jeremias”: o enorme cofre deslizaria chão abaixo, silenciosamente, em questão de segundos, e apenas sua parte superior, exatamente igual ao piso do cômodo em que ficaria instalado, apareceria. Ao desaparecer levaria consigo todo o grande estoque de drogas ali guardado e só voltaria a um novo comando de conhecimento exclusivo do encarregado da operação. Um segredo inviolável, visto que a última etapa, tanto da descida quanto da subida do cofre, só poderia ser completada por Eliane, à distância e de qualquer lugar, ao ligar para o telefone instalado dentro do cofre.
O encarregado das entregas das drogas tivera que decorar todos os códigos para todas e quaisquer situações de risco. Caso errasse um código em momento inoportuno, em um momento em que pudesse haver um flagrante policial indiscutível, correria o risco de morrer na explosão do cofre e de tudo mais que estivesse próximo a ele. Fora bem avisado sobre isso por um intermediário de Eliane, que por sua vez também nunca a vira, assim como também sobre não poder nunca renunciar às suas funções caso desejasse manter a própria vida e a de toda sua família. O homem ainda se arrepia ao lembrar do aviso que recebera ao aceitar a função: um sujeito entregou a ele uma grande lista com os nomes de todos seus parentes, próximos e distantes, e ele viu à frente de cada nome o endereço correspondente, endereços comerciais, hábitos, apelidos, fotos, nomes dos filhos, esposas, cunhados e tudo mais. Fichas completas de toda sua parentela e o aviso curto e grosso: “Bobeou, cara, morrem todos eles. Morrem todos, e bem devagar, curtindo casa segundo de sofrimento.”

= Continua amanhã.























Fernando Brandi
Enviado por Fernando Brandi em 17/09/2007
Reeditado em 17/09/2007
Código do texto: T656319

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Sobre o autor
Fernando Brandi
São Paulo - São Paulo - Brasil, 70 anos
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