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Sapatos vermelhos

Eu só pensava em ir pra casa depois daquela bagunça toda. Queria entrar pelo portão e ver Zezé abanar o rabo, correndo na minha direção. Nisso ela espantaria meia dúzia de rolinhas e um único sabiá que se banhava na bacia embaixo da torneira. Mamãe a tinha posto lá a fim de não desperdiçar água já que a torneira pingava demais, mas Papai alegava que era um foco de dengue e eu resolvi o caso dizendo que aquilo era bacia de passarinho se banhar.
Queria passar pelo quintal quente e descalçar os pés ao chegar em casa. Então eu sentiria o cheiro do feijão fresco que ainda estava cozinhando. E eu abraçaria Maria por estar fazendo o feijão e esperaria Mamãe de banho tomado para almoçarmos juntos. Eu saberia que era o seu fusca que, ao meio dia e quinze, estacionaria em frente ao portão de casa. E iria correndo em sua direção e  a amaria mais ainda se ela estivesse calçando os sapatos vermelhos de salto alto finíssimo. Quando eu pulava no seu colo, eu olhava para baixo e via como ela – só ela – conseguia erguer um garoto de 37  quilos e ainda não cair do salto. E eu perguntava quantas bolas tinha seu vestido de bolinhas e ela ria. Ela me tomaria a lição do dia e contaria o que tinha acontecido  no escritório. Ficaríamos na escada da sacada, enquanto ela fumava um cigarro e eu tomava gelatina. Ela me contaria histórias da infância dela em algum sítio nas férias. Ou então me contaria segredos do Papai, que eu jurava confidência eterna.
Eu só queria esse período, das onze e meia às duas da tarde. Eu só pensava em viver isso e sair daquela bagunça toda.
Quando ela ia de volta ao trabalho, eu acenaria do portão e ficaria um pouco abatido. Mas logo iria de junto a Maria, que fazia bolhas de sabão com detergente para me distrair da lição de casa. Eu ficaria triste de ver mamãe indo embora, mas sabia que às cinco ela estaria de volta.
Eu queria entrar em casa e ver que Zezé não chorava num canto, embaixo da mesa. Eu queria subir as escadas e ir dormir com Mamãe a tarde inteira de um domingo frio, enquanto Papai consertava os vazamentos. E depois que ela se levantasse, eu permaneceria no seu calor que havia impregnado na cama.
Numa sexta feira mamãe não voltou pro almoço e agora eu estou aqui, nessa bagunça.
Eu só quero Maria, posto que Papai parece descontrolado.
Eu ainda não tinha visto que Mamãe vinha vindo e saí em disparada.
A encontrei deitada. Ainda tinha uma expressão de quem está muito bem, como sempre tinha e calçava os sapatos vermelhos. Bonitos, envernizados, em um pé inchado e gelado. Ela não podia mais me carregar, não tinha mais forças... eu pedia que ela parasse de fingir, que levantasse, que não se demorasse a acabar aquela encenação. Aquilo era feio para uma mulher da sua idade, mas ela parecia não me ouvir.
Maria me pegou no colo e mesmo eu com muita raiva dela não ser Mamãe e também porque ela não calçava sapatos vermelhos de salto alto finíssimo, a abracei no pescoço e senti cheiro de feijão. Não lembro de mais nada, só quando acordei com Papai na cama.
- Cadê a Mamãe?
Laís Mussarra
Enviado por Laís Mussarra em 28/09/2007
Reeditado em 29/09/2007
Código do texto: T671893
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Sobre a autora
Laís Mussarra
Estados Unidos, 30 anos
139 textos (8337 leituras)
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Laís Mussarra