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Um escritor à procura de um conto

Quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso literário. Pensei, durante horas, em com quais palavras iniciá-lo. Pus a cabeça para funcionar. Queimei as pestanas. Perdi muito tempo (ou não perdi) pensando no que eu escreveria, e amadureci (amadureci?) as idéias, para escrever com segurança e desenvoltura. Enfim, simultaneamente seguro e hesitante, dei início à redação do conto. Após escrever umas cem palavras, parei de escrever, deitei a caneta sobre a mesa, e li o texto que, tomei conhecimento, para meu desgosto, saiu-me diferente do que eu me propusera a escrever inicialmente. Ato contínuo, amassei o papel, e o joguei no lixo.
Falei para alguns amigos do meu restrito círculo de amizades que eu quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso. Eles (aos quais sou imensamente grato por me ouvirem atentamente e se me dignarem a dizer o que pensavam do meu propósito), pretensiosos (como todo bom brasileiro, entendem de todos os assuntos), aconselharam-me a não perder o meu tempo escrevendo um conto, pois, declararam, certos do que diziam, escrever é ocupação de desocupados. Diante desse paradoxo, perguntei-lhes:
– Se escrever é a ocupação dos desocupados, escrever é uma ocupação; então, o escritor, ocupado em escrever, é uma pessoa ocupada. Certo?
Eles desconversaram. Com exercício intelectual que, diziam-me, sustentavam com raciocínio inatacável, que eu, por mais que o desejasse, não compreendia, sublinhavam a opinião – à qual os brasileiros aferram-se com unhas e dentes – que nos diz que os escritores são pessoas desocupadas. Decidi, após perder um bom tempo em discussão estéril com pessoas que nada entendem de literatura, conversar apenas com quem entende do assunto: o Juscelino, o Lourenço (não sei qual é o seu primeiro nome), a Mariângela, a Cláudia, a Rosemeire e o Teodoro.
Encontrei o Juscelino sentado em um banco, lendo um livro, à sombra de uma árvore, na praça São Benedito. Interrompi-lhe a leitura. Falei-lhe do concurso literário e das minhas idéias para o conto que eu pretendia escrever. Ele me veio, com autoridade de um entendido, com essas palavras amargas:
– Balzac escreveu um romance com essas idéias.
– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso. Conheço alguns livros do Balzac (Não ousei, até hoje, encarar a sua obra, muito volumosa. Um dos motivos, confesso, que constrangedor!: a preguiça; outro: não encontrei todos os volumes que compõem a Comédia Humana, nem na biblioteca municipal, que vive às moscas, coberta de teias de aranhas, com livros empoeirados de folhas amareladas, e cujo acervo, de pouco mais de cinco mil livros, compõe-se, quase que exclusivamente, de livros de auto-ajuda, esoterismo e outras insignificâncias, nem em nenhum outro lugar).
– Sim, escreveu – respondeu Juscelino.
– Tem certeza, Juscelino? – perguntei. Eu queria que ele me dissesse em qual livro Balzac narrou a história que concebi.
Juscelino atendeu ao meu desejo. Provou-me que Balzac escreveu uma estória idêntica à minha. “Ora – eu poderia gritar, a plenos pulmões – Maldito Balzac! Roubou-me as idéias”. Se eu tivesse nascido antes de Balzac, eu, antes dele, teria tido as idéias que ele concebeu antes de mim, escrevê-las-ia, e eu, e não Balzac, seria um gênio da literatura universal. Balzac – sorte dele! – nasceu antes de mim!
– Se eu fosse você – aconselhou-me Juscelino -, esqueceria o conto. Você nunca será original porque, seja qual for a sua idéia, algum escritor, e dos bons, que hoje são respeitados como clássicos, já a usou em algum conto, que, com certeza, é muito melhor do que o que você será capaz de escrever. Você não quer ser ridicularizado, quer? Não quer que as pessoas reconheçam você, na rua, apontem o dedo para você, e digam: “Olhem! O plagiador!”? É isso o que você deseja?
Tais palavras feriram-me profundamente. Puxa! Por essa eu não esperava. Juscelino acertou-me um golpe no queixo, nocauteando-me. Certo, nunca o considerei meu amigo, tampouco dei-lhe muita atenção, jamais respeitei-lhe as opiniões, mas, ora!, eu, desejando escrever um conto, e ele me veio com palavras tão agressivas, tão… Não sei tão o quê! Restou-me agradecer-lhe (ferido em meu ego) as opiniões e as sugestões, e afastar-me, cabisbaixo, desanimado. Depois, pensei comigo: “Juscelino é apenas um. Ele me apresentou a sua opinião. Ora, vou à procura do Lourenço. Ele, sim, há de dar-me ouvidos e elogiar-me a vontade de escrever um conto, ganhar um prêmio, e, quem sabe, ver o meu conto publicado em uma revista respeitável, ao lado de contos de outros escritores que, como eu, também buscam um lugar ao sol.
Então, ao Lourenço.
Fui à casa dele. Ele, animado, fanhoso (tenho de me esforçar para conseguir compreender o que ele fala), saudou-me, e perguntou-me a respeito de meu pai, minhas irmãs, e minha mãe – especialmente de minha irmã mais velha, a Jéssica, por quem ele, apesar de casado e pais de três filhas, sente atração, mesmo que não ma confesse. Não sou bobo, ora bolas! Percebo como os homens, atrevidos, olham para minhas irmãs, principalmente para a Jéssica, a mais bonita das duas (Que um psiquiatra, adepto da escola do Freud, ou de qualquer outra escola, pouco me importa de qual, interprete, à luz das teorias psiquiátricas, caso elas projetem alguma luz, as minhas palavras; que digam que tenho complexo disso ou complexo daquilo, que o meu id esmurrou o meu ego, e ambos, cúmplices do meu superego, subverteram a ordem, se ordem há, do meu inconsciente, e coisa e tal… e chega de lorota).
Não permiti, um pouco enciumado e incomodado, confesso, que o Lourenço se estendesse, indefinidamente, em superlativos à beleza da Jéssica. Eu o interrompi e falei-lhe das minhas idéias (não as mesmas que eu apresentara para o Juscelino, mas outras; não exatamente outras, mas as que eu apresentara para o Juscelino com significativas modificações: outros personagens, ambiente e narrador, agora em terceira pessoa). Lourenço ouviu-me atentamente; e disse-me, depois de puxar pela memória algumas lembranças das suas leituras:
– O Dostoiévski escreveu um romance com essas idéias, Carlinhos – e só agora revelo o meu nome, e ainda assim, no diminutivo, o que detesto sobremaneira. Desconfio que o Lourenço sabe que detesto ser chamado de Carlinhos, eu, com um metro e oitenta e dois de altura! Carlinhos, eu!?
– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso; cabisbaixo, interessado em sua vasta erudição, o ouvi atentamente.
Lourenço falou-me de Dostoiévski (Li Os Irmãos Karamazovi. De Dostoiévski, apenas esse livro. Que vergonha! Como é constrangedor confessar a minha ignorância!). Provou-me, por A mais B, que ele escreveu um romance com as minhas idéias – as minhas idéias, sim! Dostoiévski escreveu um romance com as minhas idéias, pois não li o seu romance com idéias idênticas às minhas. Dostoiévski, afortunadamente, nasceu e morreu antes de mim e, involuntariamente – acredito que não tenha sido a intenção dele -, impediu-me de escrever uma estória original.
A conversa estendeu-se por um bom tempo. Ao contrário de Juscelino, Lourenço deu-me muitas idéias para contos – e disse-me que todas foram escritas por algum escritor. Pensei em ir-me embora, mas, com a chegada da Cássia, esposa dele, decidi permanecer na casa um pouco mais e dar sequência à conversa porque, como previ, ela me ofereceu um cafezinho saboroso – o qual degustei repleto de prazer. Além disso, eu queria admirá-la. Cássia, aos quarenta e dois anos, é um colírio para os olhos.
Eu queria prolongar a conversa com o Lourenço e a Cássia; tive, no entanto, a contragosto, de retirar-me. Despedi-me do casal, lançando um último olhar para a Cássia, e retirei-me. Como eu pretendia escrever um conto, e precisava de novas idéias – as que eu tivera abandonei-as – procurei pela Mariângela, que, leitora de romances e contos clássicos, poderia tecer comentários acurados sobre as minhas idéias. Por acidente, nos trombamos ao dobrar uma esquina. Desculpei-me. Ela se desculpou. Rimos. Cessado o riso, iniciamos uma conversa descontraída. Falei-lhe do concurso de contos para o qual eu desejava enviar um conto, e apresentei-lhe um resumo do meu conto. Ela me ouviu, atentamente; ao final do meu relato, disse-me:
– Machado de Assis escreveu um conto com essas idéias, Carlinhos.
– Escreveu? – não percebi que ela me chamou de Carlinhos, tão surpreso eu estava ao ouvi-la dizer que o bruxo do Cosme Velho, que tanto admiro, escreveu uma história com as minhas idéias.
E a Mariângela falou-me do conto do Machado de Assis. Para meu desgosto, para meu espanto, lembrei-me do dito cujo.
– Você está com a razão, Mariângela. Li o conto.
– Você tem de ser original, Carlinhos. Você não pode plagiar o Machado de Assis.
– Não desejei plagiá-lo, Mariângela. Tive algumas idéias, e decidi usá-las em um conto; e agora, e só agora, alertado por você, sei que Machado de Assis escreveu um conto com elas. Puxa! Que coincidência! Ainda bem, Mariângela, que você me avisou a tempo. Imagine a vergonha que eu passaria se escrevesse um conto com idéias usadas por Machado de Assis! Seria constrangedor. Eu nunca me perdoaria! Plagiar o bruxo do Cosme Velho! Involuntariamente eu incorreria em plágio, acredite em mim. A alma penada do Machado ou me cortaria o pescoço, ou me assombraria por toda a eternidade. Estou dizendo a mais pura verdade, Mariângela, a verdade verdadeira. Acredite em mim. Eu não mentiria pra você. O Machado escreveu… Quem diria!
Ao chegar em frente da casa da Mariângela, despedimo-nos. Segui rumo à minha casa. No caminho, ao passar pela praça São Bernardo, quem vi, lá, sentada em um banco, lendo um livro? A belíssima e vistosa Cláudia, a mulher mais bonita que conheço. Que pedaço de mal caminho! Ela nunca me deu bola. E daí? Sempre que a encontro, a admiro, embevecido, deslumbrado, de queixo caído, boquiaberto. O Gustavo, namorado dela, é quem tem de manter afastados os gaviões que voam em círculos em torno dela; ele, se não quiser ganhar um belo par de cornos, que se cuide e que cuide do que é dele. Eu, embora exista o risco de atiçar a cólera enciumada do Gustavo, não perco uma oportunidade de abordar a Cláudia, e requestá-la, com discrição e sutileza. Abordagens diretas a escandalizam. Confesso: não quero entrar em confronto com o Gustavo, que é meu amigo e mais forte do que eu. A tentação, no entanto, é incontornável…
Não pensei duas vezes. Enveredei pela praça. Como quem não quer nada, fui até a Cláudia, que trajava uma camisa branca decotada e um short amarelo bem justo. Quanta generosidade! As pernas cruzadas, desnudas! Acheguei-me a ela. Simulando surpresa, saudei-a. Ela sorriu. Que sorriso! Aqueles dentes brancos resplandecentes! Quase me perdi, naquele instante. Fiquei a ponto de desmaiar. Ela me ofereceu o rosto, para que eu o beijasse. Beijei-o, deliciado.
Perguntei-lhe que livro ela lia. Ela, pondo um marcador de página na página que lia, fechou o livro, cuja capa exibiu-me. Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Expus-lhe os meus comentários favoráveis ao livro e elogiei-lhe o bom gosto. Cláudia sorriu. Abaixou a cabeça, como que constrangida com os elogios. Perguntei-lhe se eu poderia sentar-me ao seu lado e puxar uns dedos de prosa. Ela me disse que me sentasse à direita. Sentei-me. Eu lhe disse que eu lera, dois meses antes, aquele livro, e, no ano passado, A volta do Parafuso. Conjuguei dois interesses: falar de literatura e admirar a Cláudia.
Falei-lhe do meu conto. Ela me ouviu atentamente; as suas observações, favoráveis, de estímulo; no entanto, ela me apresentou uma ressalva:
– O Boccaccio escreveu um conto com tais idéias.
Admirei-me. A Cláudia leu Boccaccio!? Não acreditei!
– Escreveu? – perguntei, boquiaberto, incrédulo.
– Escreveu, sim. Um dos contos do Decamerão.
Boquiaberto, de queixo caído, pasmo, eu não soube o que dizer. A Cláudia leu o Decamerão! Quase não me contive. Desejei perguntar-lhe qual dentre as cenas picantes ela mais apreciou. Calei-me, todavia. Eu fizera uma miscelânea das estórias que contei para o Juscelino, para o Lourenço e para a Mariângela. A Cláudia associou o meu conto aos do Boccaccio, que eu havia lido não muitos dias antes; mais uma vez, minha memória enganou-me. Eu não disse à Cláudia que li o Decamerão. Pedi-lhe mais detalhes. A bandida leu o Decamerão! Eu não quis acreditar. Ela, tão reservada, tão discreta, com fama de santinha – ler Boccaccio não faz uma mulher depravada, não é mesmo? -, surpreendeu-me com a revelação. Cláudia leu, como me provou, o Decamerão, e divertiu-se com a leitura. Falou-me da peste que assolava a Europa, na época de Boccaccio; falou-me dos contos, inclusive dos mais picantes, mas não o fez abertamente, com desembaraço.
Convencido de que criei um conto cujo tema era idêntico ao de um conto do Boccaccio, arrumei, com muito jeito, sem que a Cláudia desconfiasse das minhas verdadeiras intenções, assuntos para estender a conversa. Eu desejava admirar a Cláudia e tinha o sincero desejo de aprender um pouco mais sobre literatura. A Cláudia apresentou-me comentários a respeito de muitos livros, em sua maioria clássicos da literatura. Acompanhei-a, embevecido, em seu entusiasmo contido ao falar de Liév Tolstoi, seu escritor predileto. Eu sentia o odor perfumado que ela exalava. Inebriei-me com o seu perfume. Ébrio de desejo, enlaçava-a, em pensamento, e osculava-a, apaixonadamente. Encerramos a conversa – para meu desgosto – quando o Gustavo apareceu. Após saudar-me, ele atraiu a Cláudia para si, colou seus lábios aos dela – eu desejava beijá-los; os da Cláudia, obviamente; não os do Gustavo -; em seguida, após descolar seus lábios dos dela, voltou-se para mim, e disse-me que iriam à casa de uma amiga. Retiraram-se.
Levantei-me. Rumei à minha casa. Com quem dei de cara, na sala? Com a Rosemeire, que conversava com a Jéssica. Após passar momentos agradáveis com a Cláudia, defrontei-me com a feiúra em pessoa. Rosemeire, apesar de toda a sua feiúra repulsiva, não apagou, da minha mente, a belíssima imagem da Cláudia. Sorri. Eu rumava para o meu quarto; a um chamado da Rosemeire, detive-me. A Rosemeire me disse que participaria de um concurso de poesias, e perguntou-me se eu não desejava participar. Eu lhe disse que não gosto de poesia, mas de prosa, e tinha idéias para um conto que eu pretendia escrever e enviar para um concurso de contos. Ela me pediu que lho narrasse; eu lhe disse que eu não havia escrito nenhum conto, mas tinha algumas idéias na cabeça. Ela me perguntou quais eram. Eu lhas disse. Eram as idéias, com pequenas modificações, que eu apresentara para a Cláudia. Encerrado o relato, Rosemeire disse-me:
– A Virginia Woolf escreveu um romance com essas idéias.
– Escreveu?
Rosemeire resumiu o romance da Virginia Woolf. A Virginia Woolf – maldita! – escreveu a minha estória! Meu Deus! Em que mundo estamos! Um conto, que para a Cláudia continha idéias concebidas por Boccaccio, converteu-se, com pequenas modificações, em um romance da Virginia Woolf! Nenhum livro da Virginia Woolf eu li… Apalermado, ouvi as razões apresentadas pela Rosemeire, que, por sinal, foi muito gentil comigo – tanta gentileza não me agradou. O que ela desejava? Preciso responder à esta pergunta? Ah! Se fosse a Cláudia, assim, tão gentil, tão generosa, tão solícita… Mas não era a Cláudia; era a Rosemeire. As suas intenções… O seu sorriso… O sorriso cúmplice e zombeteiro da Jéssica… No desejo de não prolongar a minha permanência na sala, eu lhes disse que iria ao meu quarto escrever as idéias que me iam à cabeça, e retirei-me da sala, não sem antes olhar para a Jéssica. Malditinha! Sinto, não raras vezes, vontade de esganá-la. Rosemeire não me engana… Não tenho psicologia feminina, mas entendo as mulheres.
Convencido de que Virginia Woolf – e quem tem medo de Virginia Woolf? – roubou-me as idéias, decidi abandoná-las definitivamente. Não eram originais, e eu não me lançaria em um empreendimento literário para repetir o que outro escritor – e escritor consagrado – escreveu. Enfurnado no meu quarto, decidi mudar, e radicalmente, as minhas idéias. Nada de estória realista, nada de drama, nada de romance. Abandonei os meus projetos, e lancei-me na elaboração de uma estória fantástica. Retirei-me do quarto, duas horas depois. Ao passar pela sala, despedi-me da Jéssica e da Rosemeire, tão sorridente… O seu sorriso… Exagerado. Falso, notei. Sei o que a Rosemeire deseja de mim; não participarei de nada do que ela deseja. Ela que procure outro homem, um que se disponha a encará-la. Prefiro encarar a Medusa.
Na cozinha, enquanto eu bebia um copo de água, veio-me à lembrança a extravagante figura do Teodoro, leitor voraz de estórias de ficção científica, terror, espionagem, policial e fantasia. Rumei para a casa dele, sem pensar duas vezes.
À porta da casa do Teodoro, premi a campainha. Minutos depois, Teodoro abriu a porta. Saudamo-nos. Ele, expansivo, convidou-me para entrar. Entrei. Na sala, recebi um beijo no rosto e um forte abraço da Karen, esposa do Teodoro, tão extravagante e exótica quanto ele – eles formam o casal mais estranho da cidade. E entramos na conversa: literatura fantástica, ficção científica, terror, policial e outros gêneros que os críticos, soberbos, pedantes, insistem em classificar como sub-literatura.
No instante em que me surgiu a oportunidade, falei das minhas idéias para um conto de ficção científica. Teodoro, enquanto, atentamente, ouvia-me, cofiava o vasto bigode desgrenhado – como dizem nas redondezas: sem o bigode ele é como o Sansão sem a cabeleira.
Teodoro pensava, pensava, pensava. No que ele pensava? Não precisei esperar muito tempo para ter a resposta:
– Carlão, meu irmão, o Asimov escreveu um conto com essas idéias.
– Escreveu?
– Escreveu. Tenho certeza. Li todos os livros do Asimov. Em inglês. Entendeu? Em inglês. Carlão, as suas idéias não são originais. Você está plagiando o Asimov. Isso é heresia, você sabe. Pô, Carlão. Que decepção! Plagiar o Asimov! Ora, desista do conto. O que você pretende fazer é heresia. Lesa-pátria. Imperdoável! O que você está pretendendo fazer não merece perdão. Escreva o seu conto, que, na verdade, é do Asimov, que você vai parar na guilhotina. É o destino dos que desrespeitam o Asimov.
Foi a gota d’água! Desisti de escrever um conto. Aqui vai o meu registro, com meu sangue, meu suor e minhas lágrimas. Ninguém pode conceber o meu sofrimento! Ninguém pode conceber a minha angústia! Foi infrutífera a minha jornada à procura de uma boa idéia para um conto, que eu enviaria para um concurso…
Malditos todos os escritores que me antecederam! Malditos! Mil vezes malditos! Que a alma de todos eles queime no inferno! Malditos! Malditos! Mil vezes malditos!
Ilustre Desconhecido
Enviado por Ilustre Desconhecido em 20/10/2019
Código do texto: T6774179
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Sobre o autor
Ilustre Desconhecido
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