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O Homem Que Não Morreu

            Seu Horácio, 69 anos de vida, 48 de boemia, casado, ateu, aposentado, deu pra enfartar subitamente quando bebia mais um dos seus alambiques. Mas logo passado o drama do enfarto, teve que escutar as antigas advertências da esposa:

Eu num te falei que mais cedo ou mais tarde tu num sofreria as conseqüências? Agora tu tem que largar essas bebidas, se confessar ao padre e aceitar Jesus, antes que seja tarde demais.

- Deixa de conversa fiada mulher! Não vê que vaso ruim num quebra! E outra, já te falei que minha única igreja é a mesa do bar.

  - Ah, é? Pois tu ainda vai engolir a besteira que tu falou. Ah, se vai!

Dito e feito. Mais uma vez seu Horácio se enfarta na mesa do bar. Mas dessa vez a advertência não veio da esposa, e sim do rígido diagnóstico médico.

- O senhor além de apresentar problemas cardíacos crônicos, apresenta taquicardia. Está com a freqüência cardíaca acima da normalidade. Se não mudar sua rotina, seu Horácio, lamento, seu óbito será inevitável.

A advertência do médico foi um choque. Engoliu a seco a triste notícia, e pela primeira vez sentira medo da morte. Até então, a morte lhe parecia coisa distante: só matava passarinho, parente, vizinho, anônimo de jornal e de vez em quando alguma personalidade da vida pública. Mas agora era uma realidade plausível. Uma realidade presente. A idéia da morte passou a lhe perseguir, a mulher advertia cotidianamente:

- Ou tu pára de beber ou tu morre!

Seu Horácio não conseguia entender o porque de sua própria morte. Sentia que a morte lhe cercava o terreno, há pouco o expropriaria: - Porque a mim? – se perguntava angustiado. A esposa, generosa, apresentava soluções:

- Meu querido! Deixe esse teu ateísmo de lado e se entregue logo a Jesus. Creia na vida eterna, na ressurreição da carne, porque enquanto não tiver fé na palavra, não terá a paz que tanto deseja.

O fato é que seu Horácio se mantinha irredutível, e, às vezes, até agressivo quando lhe viam as freiras da Santa Casa lhe mencionar a “palavra”. Não que este fosse de natureza agressiva, muito pelo contrário, era até muito generoso, e muitas vezes mais fraterno do que muito cristão, segundo a opinião de seus próprios vizinhos.

Há quem diga que na juventude, quando seu Horácio ainda era um devoto seminarista, se desentendeu com o padre da paróquia da cidade, acabando por se desiludir de uma vez com a vida e, inclusive, com a vocação eclesiástica. A partir daí, caiu no mundo, se mergulhando em tudo aquilo que condenara: na cachaça. Erguendo, desde então, na mesa do bar, a sua própria igreja.

         Com a possibilidade do óbito a lhe obscurecer os horizontes e sentindo-se cada vez mais encurralado pela morte, que, para ateus como ele, representa o “fim absoluto”, sentiu-se desamparado como nunca: - “O acaso da existência é uma merda!” – pensava ele – “Será que tenho que me curvar mais uma vez ante a vaga existência de Deus?” – sentiu, a partir daí, a vital necessidade de refletir os destinos do seu próprio ser: - “O que me reserva o destino?” – precisava compensar a morte de alguma forma. Mas como? Essa era uma pergunta a ser respondida.

          Foi com essa angústia no peito que seu Horácio tomou o estranho hábito de procurar no bojo da própria ciência uma possibilidade para seu póstumo destino. Passou a consultar antigas enciclopédias, se enveredou nos mais complexos conhecimentos da química e da biologia. E entre uma leitura e outra lhe sobrava ainda tempo de folga para ler alguns dos principais sonetos de Augusto dos Anjos, trechos inteiros de Schopenhauer e de toda gama de filósofos pessimistas que se tem notícia. Só não lhe preocupavam as leituras dos livros bíblicos e esotéricos, dos quais insistia em desdenhar copiosamente.
 
       Sua esposa já andava deveras preocupada com a sua nova rotina, não é a toa que chegou a pensar na hipótese deste estar louco. E advertia:

     - Homem, homem... Ou tu deixa essas leituras ou tu vai ficar doido!

      O certo é que a nova rotina de seu Horácio lhe parecia tão interessante que logo a angustia cedeu lugar à curiosidade, e a curiosidade à empolgação; não é coincidência que este até havia parado, em quase todo, de beber as suas.

       Durante todos os dias ficava ali, no seu quarto, a ler e a escrever as mais entusiasmadas possibilidades, sem se dar conta de que estava agora com o pé mais na vida do que na cova. Depois de um bom tempo, porém, deu-lhe de querer ir ao bar e contar a um amigo uma de suas mais consoladoras possibilidades:

- Veja só Barbosa, uma das coisas que me veio à cabeça.

- Sim, diga! – Seu Barbosa, velho amigo de copo e de estrada, já se prevenia quando o assunto vinha das “coisas da cabeça” de seu Horácio:

        - Espero que não seja bobagem.

- Não é bobagem não homem. É coisa séria! Imagine só: você morto.

- Cruz credo. Deus me livre! Pra que Horácio?

- Esquece. Não precisa imaginar não. Só preste atenção.

- Diga aí. Estou ouvindo.

  - Quando morremos, nosso corpo, por ser orgânico, se decompõe. Num é verdade?

        - Você está dizendo né, fazer o que?

        - Não sou eu que digo isso não. São os livros de biologia.

        - Pois então. Era isso que eu tava falando. Mas prossiga Horácio, prossiga...

         - Pois bem. Como toda substância orgânica, nosso corpo deverá cumprir determinados estágios de degradação e transformação química.

         - Olha Horácio. Eu num sou burro não, mas também num sou japonês pra falar essa língua que tu ta falando não. Se não se incomoda, pode traduzir fazendo o favor.

         - Sim. Perdão. Foi sem querer. Mas como eu ia dizendo, nosso corpo seguirá passos já determinados pela natureza. Melhorou?

        - Mais ou menos. Mas continue homem, e pare de interromper.

        - Eu interrompendo?

        - Continue Horácio, continue. Num discuta não.

        - Vou resumir então.

       - Melhor.

        - Quando agente morre os vermes tratam da nossa reciclagem. Posteriormente, parte de nosso organismo se converte em material inorgânico, que por sua vez será alimento necessário para a existência de uma planta. Entendeu?

      - Vou fingi que sim.

      - Porra Barbosa! Eu explico, explico e você num entende bulhufas.

      - Se você falasse minha língua.

      - O que eu queria dizer é que quando morremos viramos planta. Pronto. Entendeu?

       - Entendi. E daí?

       - E daí que quando eu morrer, serei uma planta. Ou melhor, serei uma flor. Manterei assim, nesta perfeita rede ecológica, o fantástico ciclo da vida! Isso não é lindo?

- Nossa Horácio! O que tem de lindo nisso?

- O que tem de lindo nisso? Você ainda me pergunta o que tem de lindo nisso? Imagine só: eu servirei de nutriente para uma flor, farei parte do milagroso processo da fotossíntese. E você ainda vem me perguntar o que tem de lindo nisso?

- É claro que não é lindo! Ora mais! Onde fica sua alma nessa estória?

- Alma? Mas que alma rapaz? Que negócio de alma o que? Você não percebe que eu, como nutriente da flor, serei a própria vida se manifestando em flor?

- Não estou entendendo nada, meu camarada! Eu acho que tu já bebeu foi demais. Veja só: já secou umas três garrafas de cachaça em dois tempos.

- Pra seu entendimento, meu camarada, eu não tenho nada de louco e tampouco estou bêbado. Só tomei duas garrafas e um copinho. Isto é, dividindo com você. Agora eu quero que você perceba a coisa. Imagine só: eu serei a flor, a camélia que, num belo dia de sol, fará a alegria de um belo casal apaixonado. Virá um rapaz muito apaixonado a me colher da terra com uma inexprimível nobreza, e assim me entregará à mocinha, que, por sua vez, estará completamente corada diante de tão singelo presente.

Seu Barbosa disparou a rir:

- Qual é a graça, Barbosa?

- É porque muito provavelmente, meu amigo: no futuro não existirão jovens tão românticos assim. Veja só, os jovens de hoje, nem flores dão mais às namoradas. Basta ver a falência a que chegaram os floristas.

- Quem te garante que não haverá jovens românticos?

Barbosa respondeu sem conter o riso:

- Mesmo que haja jovens românticos no futuro, tenho certeza que nunca colherão uma flor num cemitério.

- Filho duma mãe...

Mesmo disfarçando, seu Horácio teve que engolir a lógica do amigo. Mas logo se recompôs, tomou mais um copo de cachaça e rebateu mais uma das suas possibilidades:

- Imagine só!

- Fala... (Barbosa ainda sorrindo).

        - Quando eu morrer serei posto num belo caixão ornamentado a flor e perfume. Velarão meu corpo com tristeza. E você, que nesse exato momento sorrir, será um dos mais chorões no velório. E enquanto suas lágrimas secarem, estarão meus órgãos em ligeira decomposição, tal como mandam as leis da natureza. E daqui a milhares e milhares de anos, quando estiverem minhas partes reintegradas a terra, serei um belo combustível fóssil. E é com enorme orgulho no meu peito que lhe digo: serei, para o bem energético geral da nação: o petróleo do futuro!

       Barbosa rompe o sorriso:

       - Cruz credo, Horácio. Um petróleo? Por essa eu não esperava.

      - Barbosa.

      - Diga.

       - Dmitri Mendeleev* está errado. Eu tenho certeza!

       - Do que você está falando?

       - Pode ter certeza. Meus tataranetos me agradecerão!

        - O que?

Dito isto, para susto do amigo, aplacou subitamente em seu Horácio um enfarto fulminante que o levou a falecer com uma lágrima ainda pendente no rosto e um sorriso leve e manso de quem fez, finalmente, a tão sonhada paz com a eternidade.
 
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* Dmitri Mendeleev: químico russo, defensor da teoria da origem inorgânica do petróleo.
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Alex Canuto de Melo
Enviado por Alex Canuto de Melo em 13/10/2007
Reeditado em 06/09/2010
Código do texto: T692581
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Sobre o autor
Alex Canuto de Melo
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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